A longa marcha do alferes Jacinto entre feras e alemães

Foto
Numa noite, aparecem três emissários do régulo Maúa, que, com a restante população, se encontrava refugiado nas montanhas. São considerados espiões e entregues a tropas indígenas, para aplicação do devido castigo. "Abstenho-me de relatar os horrores por que passaram no meio de um batuque de guerra infernal", conta José Jacinto. Acabariam enforcados. As condições dos carregadores foram piorando. As mulheres grávidas "ficavam ao abandono", os velhos, "verdadeiros esqueletos, amparados a um pau e amarrados pela cintura em grupos de cinco, eram guardados por um soldado irregular, que, munido de uma tira de pele de hipopótamo, os fazia caminhar." nÉlson garrido

Um manuscrito inédito conta-nos a saga de um oficial português na I Guerra em Moçambique. Entre o horror e o heroísmo de soldados e escravos largados na selva, fica-se a saber mais sobre a Coluna do Niassa

A meio da tarde de 20 de Abril de 1918, um grupo de pessoas exaustas e andrajosas aproximou-se da linha de defesa do comando militar português de Muirite, no Norte de Moçambique. À cabeça da caravana estava o alferes José Teixeira Jacinto. Para provar a sua condição de soldado da Força Expedicionária Portuguesa (FEP), tinha uma narrativa extraordinária para contar. Disse que, desde que as tropas alemãs desbarataram as linhas defensivas portuguesas em Negomano, a 25 de Novembro de 1917, nunca mais tivera contacto com os seus comandantes; que fora o único oficial português que escapara à razia alemã; que tinha conseguido transferir a companhia que comandava nos montes Macolos, quase junto ao lago Niassa, para a base segura de Unango; que se juntou às forças britânicas do coronel Clayton, com as quais combateu os alemães; que aí soubera da presença de forças nacionais em Muirite; que, depois de entregar a sua companhia a outro oficial, passou "19 dias pela floresta lutando pela vida" até chegar até ali.

A narrativa do alferes Jacinto é um documento raro. O que se passou no Norte de Moçambique no final da Primeira Guerra Mundial é hoje mais objecto de conjecturas do que da análise de factos. René Pélissier, o historiador que mais se dedicou ao estudo das ex-colónias, escreve sobre esse período com muitos pontos de interrogação. Pélissier diz que "o único documento" conhecido sobre a saga da Coluna do Niassa, que Jacinto integrou, é uma memória de Ernesto Moreira dos Santos, à qual atribui pouco valor, devido aos seus excessos nacionalistas. O historiador não conhecia, nem podia conhecer, o extraordinário relato da viagem de 2500 km do alferes Jacinto entre Junho de 1917 e Abril de 1918. Simplesmente porque ele não existia. Até há uns meses, pelo menos.

Durante décadas, o manuscrito que nos conta com detalhe a saga do alferes Jacinto esteve esquecido numa pilha de papéis velhos, na cave de uma casa em Espinho. O neto, Armando Jacinto, coronel na reforma, sabia que ali se encontravam memórias e registos, úteis ou nem tanto, guardados ao longo de anos pela linhagem militar da família. Não sabia, porém, que um volume atado com fio do norte guardava a memória da odisseia do avô José. Leu-a apressado e percebeu então a razão de ser do colar da Ordem de Torre e Espada com Palma, a mais alta condecoração militar do país, que o avô recebera. E, emocionado, deu conta que José andara pelos mesmos fortes e povoações que ele, como oficial, haveria de percorrer 50 anos mais tarde, na guerra colonial.

200 páginas de memórias

Escritas em mais de 200 páginas de um papel frágil e amarelecido, as memórias de José Teixeira Jacinto dão-nos a conhecer uma guerra estranha. "Uma guerra sem feridos", nota Armando Jacinto, já que grande parte das vítimas pereceu por falta de assistência médica. Na qual colunas de europeus, de soldados indígenas e de carregadores, os "voluntários da corda", vagueavam por extensões intermináveis de selva ou de savana, sem medicamentos, sem comida, sem qualquer contacto com os seus superiores. No relato, as notícias da incompetência, da desorganização, do desespero acabam temperadas por exemplos de obstinação, de coragem e de solidariedade entre europeus e africanos presos num destino comum. A memória procura manter o tom frio de um relatório, com datas, horas, nomes e factos, mas a cada passo cede ao horror do medo das feras, ao sofrimento dos carregadores famintos, às feridas dos soldados em combate.

Jacinto nasceu em Maio de 1881 em Alijó, Alto Douro, e ofereceu-se como voluntário para Moçambique aos 37 anos. A 15 de Maio de 1917, desembarcou em Macímboa da Praia, o quartel-general das Forças Expedicionárias (FEP). A partir daqui, o comando do FEP planeava criar três colunas para instalarem uma linha defensiva no Norte de Moçambique. Duas partiram a pé para o interior, ocupando posições na província de Cabo Delgado; a terceira, a Coluna do Niassa, na qual José Jacinto foi alistado na qualidade de provisor (responsável pelos mantimentos e remédios), fez uma viagem de barco até à foz do Zambeze, subindo depois o rio em lanchas a vapor até Chindio. Aí percorreria uma curta distância de comboio, no interior do actual Malawi, para depois entrar em Milange, já em Moçambique, fazendo depois uma viagem a pé de mais de 800 km até ao Niassa.

A estratégia procurava dar resposta às fragilidades defensivas da fronteira do Norte, que tinha sido facilmente violada pelas forças alemãs do capitão Von Strummer em Maio desse ano. Os alemães tinham arrasado as fortificações portuguesas e penetrado sem oposição até ao território dos maúas, já nas imediações da Zambézia. Tinha sido, no entanto, uma operação secundária: o que movia os alemães comandados pelo lendário general Von-Letow era a guerra contra os britânicos. Apesar da exiguidade das suas tropas (1800 europeus e 12 mil indígenas), Letow desenvolveu uma estratégia militar que combinava tácticas de guerrilha e a velocidade dos movimentos que lhe garantiram superioridade. Moçambique era neste cenário um mero ponto de fuga ou de reabastecimento.

Em Milange, a coluna teve de se preparar para percorrer entre 25 a 30 km diários pela floresta rumo ao Norte. Em 15 dias, os carregadores ficaram "em estado deplorável", as febres alastraram e a comida começou a faltar. No final do mês de Junho, começaram a deixar para trás munições. A carência só foi suprida com a chegada de uma coluna errante, que vivera meses da pilhagem, formada pelo alferes Almeida Negreiros, 250 soldados irregulares e carregadores com alimentos.

A coluna aproximara-se entretanto das terras dos maúas, suspeitos de simpatia pelos alemães. Os primeiros horrores da guerra registam-se aqui. Numa noite, aparecem três emissários do régulo maúa, que, com a restante população, se encontrava refugiado nas montanhas. São considerados espiões e entregues a tropas indígenas, para aplicação do devido castigo. "Abstenho-me de relatar os horrores por que passaram no meio de um batuque de guerra infernal", conta José Jacinto. Acabariam enforcados. As missões das tropas irregulares, mais habituadas às agruras da guerra, faziam surtidas até às montanhas promovendo espectáculos de selvajaria que incomodaram José Jacinto. "Durante três noites, foi um horror ao qual foi preciso pôr cobro, por os irregulares castrarem as vítimas e transportarem os seus apêndices para o seu acampamento, no qual faziam festas em sinal de regozijo".

Luta pela sobrevivência

Além do terror da guerra, as condições dos carregadores foram piorando. As mulheres grávidas "ficavam ao abandono", os velhos, "verdadeiros esqueletos, amparados a um pau e amarrados pela cintura em grupos de cinco, eram guardados por um soldado irregular, que, munido de uma tira de pele de hipopótamo, os fazia caminhar". Em vez de uma coluna, as doenças, a fraqueza e as privações tinham transformado as forças do Niassa numa legião de famintos em luta pela sobrevivência. Os europeus encabeçavam a coluna, deixando os carregadores e os irregulares que os vigiavam horas de caminho para trás. A 16 de Agosto, a cabeça da coluna sabe que "uma grande matilha de leões tinha atacado o gado e os guardas". Na madrugada seguinte, "deparou-se-nos um sinistro macabro": corpos de soldados e irregulares esquartejados, sobreviventes refugiados em cima de árvores em estado de choque. A coluna estava a desfazer-se.

Exaustos, estropiados e em choque, os sobreviventes chegam a Nanguar a 29 de Setembro, 102 dias e 879 quilómetros depois de Milange. Aí, a Coluna do Niassa deveria juntar-se à força que chegaria de Porto Amélia para formarem o destacamento de Nanguar, com 3069 homens. Na reorganização que entretanto se realizou, José Teixeira Jacinto é nomeado comandante da 2.ª Companhia Indígena da Beira.

Durante um mês, a companhia fez operações de vigilância e controlo em terras tão inimagináveis como as do régulo Puxa-Puxa, mas, no princípio de Novembro, Jacinto recebe a ordem que marcará a sua passagem pela guerra. Face a notícias de uma nova invasão de Von-Letow, o destacamento de Nanguar ocuparia posições na serra Mekula, nos montes de Oizulo, nos montes Macolos e em Muembe. A companhia de Jacinto teria de se dirigir aos montes Macolos, no extremo ocidental da colónia, já perto do lago Niassa, para vigiar a margem direita do rio Rovuma, numa "extensão de dois dias de marcha para cada lado". Esperava-o uma viagem de 400 a 500 quilómetros "sem panos para pagar a espiões", sem mapas, sem quinino, "sem nada". Conseguiu que um capitão lhe "cedesse" o filho de um régulo que o levaria até à serra Mekula. Aí, teria de fazer prisioneiros e encontrar alguém que conhecesse o terreno.

Em 20 dias de marcha, a companhia teve de fazer travessias duríssimas de rios, operações de sedução ou de intimidação de indígenas para obter alimentos, guias e informações. As febres palustres alastravam. Num momento mais difícil, os soldados doentes chegaram a pedir ao seu superior que os abatesse a tiro. Na noite de 23 de Novembro, a companhia instalara-se finalmente numa das encostas dos montes Macolos.

Não sobrou muito tempo para que se pudesse dedicar às operações de vigilância previstas. A 6 de Dezembro, chegam patrulhas da frente a avisar que "o inimigo tinha atravessado o Rovuma". Dois dias mais tarde, ofícios provenientes de Negomano e da serra Mekula confirmavam o desastre: a linha defensiva ruíra ao primeiro embate. "O inimigo tomou Negomano, apoderando-se de grande quantidade de víveres e material de guerra e fazendo prisioneira toda a guarnição", informava o capitão Curado, num ofício de 6 de Dezembro. Curado ordena a José Teixeira que retirasse "para um lugar que julgue conveniente". Enquanto a ordem era cumprida, refugiados da ofensiva alemã iam chegando. A 15, eram já 350, "quase todos com aspecto esquelético, devido à fome".

As rotas de penetração dos alemães, que "haveriam, 60 anos mais tarde, de ser recuperadas pela Frelimo", na análise de Armando Jacinto, não foram desta vez muito além dos postos de fronteira com o Tanganica. A estratégia de Von-Letow não contemplava uma ocupação, apenas a pilhagem do armamento e dos géneros das forças portuguesas. Um plano que foi cumprido à risca, em Negomano e em Nanguar, onde estavam depositadas grandes quantidades de munições. A facilidade com que os alemães derrotaram os portugueses criou uma péssima impressão aos aliados ingleses. "Depois desta derrota, nunca mais aceitaram portugueses em operações de combate. A única excepção, confirmada numa carta de Thomaz Rosa, chefe da FEP, foi o meu avô", diz Armando Jacinto.

Ao retirar dos Macolos, José Teixeira Jacinto "sabia que tinha de ir ter com os ingleses do outro lado da fronteira, senão seria trucidado", comenta o neto. Mas, ao chegar a Unango, o alferes sabe que as forças britânicas estavam a caminho de Moçambique para pressionar os alemães pelo flanco sul. Acedendo ao convite do chefe civil da localidade, Jacinto instala-se no forte - que, no final dos anos de 1960, seria chefiado pelo seu neto, na altura capitão. Uma pequena força avançada dos ingleses assistiu, estupefacta, à chegada da companhia de Jacinto. "O aspecto da força, mais os fugitivos, era desolador, pelo que fomos apelidados de "Companhia Pirata", todos com cabelo e barba de mais de dois meses por cortar, idem os fatos e o calçado dos europeus a cair aos pedaços e os soldados indígenas quase todos seminus", escreveu Jacinto.

Condecorado após a morte

No final do mês, as tropas nacionais integradas em brigadas comandadas por britânicos entram em acção. Até Março, participam em várias ofensivas contra os alemães ou em operações logísticas. Finalmente, a 15, após quase cinco meses sem qualquer contacto com as forças portuguesas, José Jacinto recebe um telegrama assinado pelo comandante Sousa Rosa: "Um abraço para todos vós e todos os camaradas. Felicito a vossa conduta". Uma "alegre notícia", que provava que "as forças portuguesas não tinham sido totalmente aniquiladas, como se dizia". Na primeira oportunidade, Jacinto trata de planear o seu regresso. Entrega o comando da 2.ª Companhia a Paulo Bernard Guedes e, no final de Março, parte para a sua última grande travessia com seis carregadores, um segundo-cabo, dois soldados indígenas e um guia.

Jacinto e os seus companheiros percorreram nessa última etapa cerca de 700 km até Murite. Como nas anteriores deambulações, o seu relato está repleto de referências a momentos de fome, de cansaço, de desespero. O caminho revelou-lhe a devastação da ofensiva alemã do ano anterior. Foi encontrando pequenos pelotões de portugueses, que o abasteceram, o alimentaram e lhe permitiram saber, via TSF, que a guerra na Europa estava a um passo do fim. Soube também que tinha sido promovido a tenente.

Declarado incapaz de continuar no activo por "fraqueza geral, paludismo, bronquite e uma hérnia inguinal direita", fica à espera de embarque para Portugal. Em Novembro de 1923, Jacinto passa à reserva com o posto de capitão e foi nessa condição que travou a sua última grande batalha: reclamar a condecoração de Cavaleiro da Ordem de Torre e Espada que tinha sido entregue a um capitão que se tinha limitado a trazer a sua companhia desde o Unango até Macímboa da Praia. O Exército reconheceria o erro em 1931, mas, por falta de verbas, o colar da Torre e Espada com Palma só seria entregue em 1947. Dois anos depois de ter falecido, aos 64 anos.