Entre a quinta e o estúdio de gravações

Matthew Herbert explica em documentário álbum sobre a vida de um porco

"The story behind the album" está integralmente disponível no YouTube
Foto
"The story behind the album" está integralmente disponível no YouTube D.R.

Num mini-documentário publicado recentemente na Internet, Matthew Herbert explica o processo de gravação de um álbum em torno do ciclo de vida de um porco. Entre a pocilga e um estúdio de gravação, o músico britânico revela ainda excertos de temas que constam de "One Pig", que vai conhecer edição em suporte físico a 10 de Outubro. A pré-encomenda já pode ser efectuada no iTunes.

Perguntam-lhe várias vezes “Porquê?”. Por que gravou Herbert um álbum conceptual alusivo ao percurso de vida de um suíno? Em “One Pig – The Story Behind the Album”, um mini-documentário que o músico britânico disponibilizou recentemente na Internet, o compositor e produtor musical explica o processo de criação de cada faixa e responde a essa questão com outra interrogação: “Porque não?”.

Herbert quer explorar “as possibilidades de transformar o mundo em música” e gravar 24 semanas da vida de um porco soou-lhe a uma dessas possibilidades.

Através de sons registados numa quinta inglesa, manipulados depois em estúdio, quis “dar uma voz a um porco”, conforme sugere o título de um artigo que assinou no Huffington Post. “'One Pig’ é a história da vida de um animal anónimo de quinta, desde o nascimento até ao prato”. É esta a descrição do projecto no site oficial do autor do seminal “Bodily Functions” e colaborador pontual de Björk e de Róisín Murphy, ex-vocalista dos Moloko.

Desengane-se quem espera de “One Pig” uma banda-sonora de um programa do National Geographic. Em entrevista ao jornal El País publicada nesta sexta-feira, Matthew Herbert defende assim o seu projecto: “Queria fazer uma biografia, seguir uma vida desde o nascimento até à morte. Mas claro, com um humano é complicado. O porco é um bom exemplo: muitos odeiam-no, outros comem-nos até ao último pedaço. A música deixou de ser algo que impressione, mas porém pode-se gravar a vida e a morte, nem que seja uma metáfora, como dizia [o compositor austríaco] Mahler”.

No mini-documentário pode ver-se o suíno que Herbert seguiu de perto com um microfone e um gravador. Viveu entre Agosto de 2009 e Maio de 2011. A cada uma das nove faixas do disco calhou o nome de um mês que marcou um determinado ponto do ciclo de vida do animal. Por exemplo, “May 2011” diz respeito ao dia do banquete em que o porco foi servido.

Herbert recorda, ao El País, o carácter experimental das gravações: “Não procurava nenhum estilo. Gravas o que encontras. O nascimento é muito tranquilo, a mãe estava sempre a respirar e isso é o que há-de ser: música suave”. “November” saiu um tema dramático, assolado por “muito vento”. Já em “December” ouvem-se sons metálicos e pesados, uma citação musical de um período em que o animal se mudou para uma zona mais industrial da quinta.

Uma lei alimentar britânica, que não permite a captação de registos de morte, alterou o plano inicial de Herbert. Para que o ciclo de vida do suíno se encerrasse, e o álbum tivesse um fim sequencial, o autor de “One Pig” pensou numa alternativa: gravar o processo de confecção do suíno, por 12 chefes de cozinha, e de degustação, por cem comensais. No final do jantar, uma pedra entrou na engrenagem do processo. O computador no qual o artista tinha gravado grande parte dos sons foi roubado, restando apenas alguns registos guardados numa cópia de segurança. “Foi a vingança do porco”, brinca Herbert.

Herbert, um chef e um porco em palco

Um projecto idealizado em 2008, “One Pig” já foi apresentado ao vivo, a 2 de Setembro, na Royal Opera House, em Londres. O músico inglês recorreu a instrumentos construídos manualmente a partir do corpo de um porco e o concerto contou ainda com um chef a cozinhar em palco.

No dia anterior à estreia do disco em palco, podia ler-se no site oficial de Herbert que “a certa altura, iria haver um porco em palco, mas havia apenas um suíno disponível no país e aparentemente ele tinha outro concerto. Em alternativa vamos ter um ‘musical de pocilga’”.

As associações de defesa dos animais, incluindo a organização People for the Ethical Treatment of Animals [PETA], enviaram e-mails de protesto a Herbert, acusando-o de transformar a crueldade para com os animais em entretenimento. O artista acredita que os opositores ao projecto não entenderam o propósito: “Fizeram-no mais pela própria agenda do que pensando no projecto. É irónico: gravei sons de palestinianos a serem alvejados e ninguém protestou na altura”.

No artigo de Matthew Herbert publicado no Huffington Post escreveu, ironizando: “Ingenuamente, estava à espera de receber algum tipo de apoio de activistas do bem-estar animal. Afinal, estava a dar voz a um grupo de animais habitualmente sem voz, mas em vez disso recebi ira ácida e umbiguista”.

Para quem vem acompanhando a carreira de Matthew Herbert desde meados da década de 1990, quando se estreou nas lides musicais, este álbum não é exactamente uma surpresa. Herbert tem gravado discos conceptuais, amiúde discos que sustentam manifestos políticos, como “The Mechanics of Deconstruction” (2001), uma bala antiglobalização, ou “Plat du Jour” (2008), disco em que o artista estudou e traduziu musicalmente o mundo da produção em massa, da confecção e do consumo de alimentos. O álbum incluía canções construídas a partir de gravações de sons da água, de grãos de açúcar, de galinhas, ou de trincas em maçãs. Antes, em 1998, em “Around The House”, já tinha trabalhado sobre e com ruídos de electrodomésticos.

Herbert também já tinha namorado a chamada “música concreta” (construída com base em fragmentos de sons naturais e industriais), enjeitando caixas de ritmos, música pré-fabricada. “O grande dom de um músico é converter o mundo em música. O som pré-gravado parece-me, politicamente, a versão musical do consumo. As pessoas só o fazem porque soa bem. E creio que neste mundo em colapso já não é suficiente”, refere o artista ao El País.

Este é o último capítulo de uma trilogia alusiva ao número um, iniciada com “One One”, onde o artista dá a conhecer pela primeira vez a sua voz em disco (aí canta “Porto”, num álbum exclusivamente com títulos referentes a nomes de cidades). O segundo tomo, “One Club”, foi composto a partir de sons captados no Robert-Johnson, um clube de tecno de Frankfurt.