"No Paquistão, os cristãos vivem a sua religião no segredo"

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Manifestantes pedem a libertação de Asia Bibi Hussain Jan / Demotix/corbis

Por causa de um copo de água, Asia Bibi foi condenada à morte no Paquistão. Por causa de Asia, uma jornalista francesa foi semanalmente à prisão ouvir a sua história. O livro saiu agora em Portugal. A sua autora diz que a responsabilidade do Ocidente não acaba nas guerras do Afeganistão e do Iraque. E que uma lei como a que proíbe a burqa, em França, pode ser causa de aumento do ódio contra os cristãos nos países de maioria muçulmana.

Asia Bibi está presa no Paquistão, há dois anos, por ter retirado um copo de água de um poço, enquanto trabalhava no campo. Acusada por mulheres muçulmanas de conspurcar a água que lhes pertencia, reagiu, defendendo-se, e à sua fé cristã. O facto valeu-lhe a acusação de blasfémia e a pena de morte. Não pode ver ninguém, à excepção do marido (que vive escondido, tal como os filhos do casal) e do advogado.

Correspondente da France 24 em Islamabad durante três anos, Anne-Isabel Tollet recolheu o depoimento de Asia Bibi, durante dois meses. O livro foi agora publicado em Portugal com o título Blasfémia (ed. Alêtheia).

Asia Bibi não é caso único numa região onde tem crescido a violência contra os cristãos. Na Índia, desde 2008 que a violência anticristã não tem parado, sem consequências para os autores dos atentados. Contam-se já, só no estado de Orissa, pelo menos 100 mortos, mais de 50 mil desalojados em 415 aldeias, além de 230 igrejas e seis mil casas destruídas.

No Nepal, as minorias religiosas - cristãos, muçulmanos, budistas e baha"ís - mobilizaram-se nos últimos dias para contestar um projecto de lei antiblasfémia, semelhante ao que levou à condenação de Asia Bibi.

Anne-Isabel Tollet, de 37 anos, olha para o que se tem passado e diz que a invasão do Afeganistão e do Iraque levou ao aumento do anti-americanismo. E afirma que a responsabilidade do Ocidente não acaba nas guerras: uma lei como a que Sarkozy promoveu em França, proibindo a burqa, é vista na região como manifestação de islamofobia.

O livro quer agitar consciências, diz a jornalista. Publicado até ao fim do ano também nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Canadá, além de França, Portugal e Itália, o depoimento pretende "ajudar à libertação de Asia Bibi e, sobretudo, evitar que outros sejam condenados da mesma maneira injustamente, e à pena de morte".

Como foi possível fazer este livro? Asia Bibi está na prisão, impedida de ver alguém, à excepção do advogado e do marido...

Foi possível tomando o marido como intermediário. Eu colocava as questões ao marido, que as transmitia à sua mulher. Cada semana, à saída do centro penitenciário, eu tomava nota das respostas, a quente, porque queria que fossem o mais fiel possível ao que Asia tinha acabado de dizer ao seu marido.

Sem qualquer outro registo...

Sim. O marido não sabia escrever. Fui a Sheikhupura, onde ela estava presa, cada vez que ele a ia visitar. Assim, eu estava segura de que ele tinha ainda todas as respostas na cabeça e as transmitia com o máximo de detalhes e sensações, de impressões sobre como ela estava. Pode ver-se no livro que, como todos nós, ela vive dias mais difíceis que outros, sobretudo ao nível moral.

Qual é a situação neste momento? Ela continua a aguardar a execução da sentença.

Sim, continua condenada à morte, esperando o resultado do recurso que apresentou no Tribunal de Lahore. E esperando que seja inocentada ou que esta condenação à morte seja comutada em pena de prisão.

Há pressão sobre o Governo paquistanês para que decida rapidamente a apreciação do seu recurso. Não há data, ainda, e isso pode demorar anos. As condições em que ela está são tão terríveis na prisão que, mesmo que não seja assassinada, pode morrer de fadiga ou doença. Não é sustentável viver assim.

Asia Bibi não é o único caso de cristãos perseguidos. Por que é que o caso dela se tornou especial?

É a primeira mulher condenada por blasfémia no Paquistão. E também porque dois políticos, emblemáticos, tomaram a sua defesa e foram assassinados por causa disso. Ela tornou-se, apesar dela, o emblema desta lei de blasfémia.

É importante sublinhar que a lei da blasfémia condena, em primeiro lugar, os muçulmanos. É terrível, desde logo, para eles: em 1000 condenações, 800 são de muçulmanos. E é utilizada para ajustes de contas pessoais, para eliminar um rival, para vinganças, por não se gostar de alguém...

Não se trata tanto de ser cristão ou muçulmano. E, como a lei é muito dura no texto, isso traduz-se por anos na prisão ou, como no caso de Asia Bibi, pela condenação à morte.

As más notícias continuam: o filho do governador do Punjab foi raptado há dias. Há uma lei que permite situações como a de Asia Bibi e há uma situação de perseguição e discriminação...

Sim e está tudo ligado. O filho do governador do Punjab foi raptado porque os extremistas querem pressionar o Governo paquistanês a trocar o filho do governador pelo assassino do seu pai, que está na prisão.

Esse assassino, Mumtaz Qadri, recebeu um apoio enorme no Paquistão, nomeadamente dos fundamentalistas. O filho poderia servir de forma de pressão para que o assassino seja libertado.

Quando se lê o episódio que provocou a prisão de Asia, percebe-se a questão cultural: as pessoas entendem como blasfémia a defesa que ela faz da sua fé. Houve manifestações de 50 mil pessoas de apoio à lei. Esta é uma questão cultural, religiosa ou política?

É um misto de tudo isso. Parece-se muito o Paquistão, porque o país é uma república democrática islâmica. O Direito paquistanês repousa sobre a sharia, mas diluída pelo Direito britânico, porque o país foi uma colónia inglesa.

Quando o país foi fundado em 1947, por Muhammad Ali Jinnah, não havia [lei da] blasfémia. Ao contrário, a Constituição dizia: somos um país aberto, uma república que aceita todas as religiões e onde cada um deve respeitar os outros, mesmo se há uma maioria de muçulmanos.

Mas a situação mudou...

Em 1986, um ditador que chegou ao poder [Zia-ul-Haq] inscreveu a lei da blasfémia na Constituição. Dez anos depois, o primeiro-ministro Nawaz Sharif acrescentou o artigo segundo o qual quem cometa blasfémia contra o profeta Maomé pode ser condenado à morte.

Isto mostra como houve uma radicalização da sociedade paquistanesa. Através das manifestações que tiveram lugar quando se falou de reformar ou mesmo abolir esta lei. Os religiosos fundamentalistas bateram-se para que a lei seja mantida.

Há então, também, uma questão religiosa?

A sorte dos cristãos é ao mesmo tempo política e religiosa. Os cristãos representam uma ameaça, são considerados cidadãos de segunda categoria, sobretudo nas aldeias mais remotas, onde não há educação. Não podemos dizer que sejam perseguidos no quotidiano, porque Asia Bibi vivia bem até este drama. Mas é preciso fazê-lo sendo discreto, vivendo a religião no segredo...

Ela utiliza uma expressão terrível: "Quando se é cristão no Paquistão, devemos baixar os olhos..."

É isso. Ou seja, não mostrar a fé, ser discreto e, assim, tudo irá bem. Com Asia Bibi, quando as mulheres muçulmanas começaram a criticar a sua religião, ela defendeu-a. Para as muçulmanas, foi uma afronta, ainda por cima porque elas se sentiam superiores: como é que uma cristã pode responder desta maneira?

Nem importava a resposta. Utilizaram a lei da blasfémia porque ela assenta sobre a denúncia. Não há inquérito judicial e a voz de um cristão, numa situação de palavra contra palavra, conta menos que a de um mullah.

Ela diz também que os cristãos são discriminados ao nível do salário. Essa situação é generalizada?

É assim por todo o lado, incluindo nas grandes cidades. Os cristãos são muito pobres e não têm direito a empregos de escritório. Há uma pequena elite que tem acesso a isso, mas a maioria está restringida a pequenos trabalhos artesanais. São os cristãos, por exemplo, que varrem as ruas, trabalho considerado indigno para um muçulmano. Não têm dinheiro, não têm acesso à educação, vivem numa grande pobreza e na discrição da sua fé.

Depois de três anos no país, sente que os movimentos extremistas estão a ganhar poder?

Sim. Sente-se uma verdadeira radicalização da sociedade paquistanesa, directamente ligada à guerra conduzida no Afeganistão. Depois de Outubro de 2001, quando os americanos atacaram o Afeganistão, houve um aumento do anti-americanismo e, por extensão, do anti-ocidentalismo. Houve incursões no território paquistanês, nas zonas tribais, e o território paquistanês foi violado impunemente pelos americanos.

A sociedade paquistanesa tem ódio do americano e do ocidental e isso não ajuda à sorte dos cristãos, porque estes são suspeitos de ser pró-ocidentais. Desconfia-se que eles apoiam os ocidentais por serem cristãos, porque partilham a mesma religião. Por isso, o destino deles é mais difícil no Paquistão desde há alguns anos.

A invasão do Afeganistão mudou a situação dos cristãos?

Sim. Porque, sobretudo no Noroeste do Paquistão, vivem os pachtuns, o mesmo povo do Afeganistão. O que eles sentem é que estão a atacar os seus irmãos, as gentes das suas tribos, das suas famílias.

Em todas as guerras, há danos colaterais: casas queimadas, famílias que, no melhor dos casos, são deslocadas, mas que podem ser também feridas. E eles verificam que a coligação anda à caça aos taliban no Afeganistão e que a sua vida se tornou pior. E que há movimentos de deslocados e refugiados entre o Afeganistão e o Paquistão, que reforçam também a pobreza.

Falamos do Paquistão, mas a Índia, o Nepal e outros países da região registam também um aumento de violência religiosa e perseguições contra os cristãos. Qual é a razão profunda desta situação?

Creio que está directamente ligado às guerras dos americanos - o Iraque, o Afeganistão. Esse sentimento de todo-poderoso dos americanos, na forma como é sentido na região, exacerba os antagonismos e cada país refugia-se nos seus fundamentos e tem necessidade de encontrar a sua identidade.

Muitas vezes, a identidade passa pela religião. No subcontinente indiano, a miscelânea entre diferentes religiões acontece cada vez menos por causa desta necessidade de regressar à própria identidade, a agarrar-se à sua religião, tornando-se mais radical.

Para resolver o problema, os soldados ocidentais têm que sair do Afeganistão?

Será a opção correcta.

A Europa não tem sido demasiado tolerante com estes atentados à dignidade das pessoas?

O que é difícil para os países europeus é que eles podem dizer o que pensam, mas não podem impor nada. O Paquistão é um país muito orgulhoso, que tem a bomba nuclear, que deve continuar um parceiro diplomático importante para evitar que a situação se torne um barril de pólvora e que haja o risco de atentados através do mundo.

A Europa faz o que pode, passa a mensagem, mas não pode impor nada. Sem dúvida que, nos próximos anos, o problema será mais o Paquistão que o Afeganistão.

A Europa tem medo de fazer desta situação um choque de civilizações?

Sim. Não é preciso sublinhar as diferenças, porque isso reforça os antagonismos e a confrontação de um mundo que estaria dividido em dois, com os ocidentais cristãos e ateus de um lado, e os muçulmanos, do outro.

Os países ocidentais têm uma responsabilidade, também. Tudo o que se passa ao nível das leis, seja em Portugal ou em França, tem um impacto directo no Paquistão. Por exemplo, a lei [francesa] contra a burqa: a alta sociedade paquistanesa, que em grande parte estudou em Inglaterra e nos Estados Unidos e são pessoas muito evoluídas, não compreende por que há este receio, uma tal islamofobia. Toma isso como sendo contra ela.

Nota diferença nos últimos anos?

Em três anos que lá estive, vi essa evolução. No início, fui muito bem acolhida, muito melhor do que se fosse americana, porque, no espírito dos paquistaneses, havia ainda a ideia de que a França não se tinha envolvido no Iraque.

Depois, o Presidente Sarkozy foi eleito, reforçou o contingente francês no Afeganistão, veio a lei da burqa, depois as caricaturas do profeta Maomé... Tudo fez com que o conjunto dos países europeus seja julgado como inimigo do islão que é preciso combater, pelo menos na cabeça dos fanáticos prontos a tudo.

O que fazer para situar a questão no âmbito dos direitos humanos e não sobretudo no religioso?

Lendo o livro, vê-se que Asia Bibi respeita o islão e que se trata de uma questão de direitos humanos, que não são respeitados no Paquistão. A liberdade de pensar e de exercer a sua religião deveria ser aceite e, no caso de Asia Bibi, ela não fez mais que responder e defender a sua religião. Não há razão para ser condenada por isso. É uma questão de direitos humanos.

O que é preciso, no Paquistão, é que os políticos e o Governo sejam muito mais corajosos e não se deixem aterrorizar pelos extremistas nem comandar pelo exército - que é quem está no poder, embora não oficialmente.

Se o Governo tem a intenção de abolir uma lei e se se retrai por causa de 50 mil barbudos na rua que assassinam um ministro, este país nunca mais levantará a cabeça. Claro que não é desejável que outros políticos se façam assassinar, mas se todos se puserem de acordo [para abolir a lei], os fanáticos não irão assassinar todos os deputados e ministros. Deveria ser essa a atitude. Mas o que existe é o reino do terror: um punhado de extremistas que faz a lei, que não é representativo do conjunto da sociedade paquistanesa.