A cultura é cara? Experimentem a ignorância

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Porque continua a ser tão difícil fazer passar esta ideia simples de que o investimento na cultura fica muito mais barato do que o não-investimento? Talvez porque, a pretexto dos valores intrí­nsecos e da opacidade (verdadeira) da criação artística, o seu financiamento apareça como obscuro, por não ser comunicado, publicitado ou defendido com a clareza desejável para o comum cidadão contribuinte

O ­título deste artigo foi retirado de uma tabuleta pendurada na vitrina da livraria Gwrizienn, situada na comuna de Bécherel, na Bretanha. Esta é uma das 18 livrarias - a maioria alfarrabistas - que, com uma padaria e dois cabeleireiros, constituem o comércio local desta comuna francesa nascida na Idade Média e que actualmente tem uma população de 750 habitantes. É um dos lugares de peregrinação dos bibliófilos europeus, que, a par dos compradores ocasionais e das vendas pela Internet, a transformaram num caso de sucesso económico e de auto-sustentaçCo dos comerciantes e da localidade. Mas nem sempre foi assim. Tudo começou em 1989, e se esta "Cidade do Livro" - uma das oito localidades francesas que reivindicam a designação - mereceu destaques recentes, nomeadamente no jornal "Le Monde", tal se deve à persistência, à organização, à imaginação na escolha, na diversidade e na promoção dos acervos (que vão da banda-desenhada ao livro bretão), ao espírito de entreajuda e de agrupamento de livreiros e à defesa da singularidade dos seus mercados, tanto junto dos grandes monopólios como das direcções regionais do Estado francês. Tudo isto faz o sucesso destes livreiros que, "sem venderem a alma ao diabo, são livreiros felizes", como os próprios dizem.

Este não é um exemplo único de capacidade de criação, de produção e de comunicação na área da cultura. Só no caso dos livros, poderíamos apontar muitos outros exemplos, como Fontenoy-la-Joûte, com 15 livreiros e 300 habitantes, e, a uma escala bem maior, o sucesso e a importância cultural do Festival de Literatura de Edimburgo ou da febril Flip (Festa da Literatura de Paraty), em que, durante quatro dias, 30 mil a 40 mil leitores ocupam uma pequena vila turística e piscatória pagando para ouvirem falar de livros. Qualquer destes casos, contudo, implica uma relação com o dinheiro, está atravessado pelas leis da economia e envolve custos para os leitores e investimentos dos livreiros, dos patrocinadores e das diversas instâncias dos Estados dos países onde acontece. Mas um dos muitos exercícios importantes a fazer a partir deste caso de estudo prende-se com a necessidade inescapável de haver investimento e custos na cultura. Imagina-se quão pobres, quão entediantes, quão menos importantes seriam a França, a Escócia, o Brasil e o mundo sem estes lugares de formação e preservação da cultura? Quanto mais custaria, de facto, a ignorância provocada pela inexistência destes como de outros lugares: festivais de cinema, cinematecas, mostras de dança, museus, centros de interpretação, lugares de observação científica, tantos outros lugares de formação da humanidade? E, contudo, porque continua a ser tão difícil fazer passar esta ideia tão simples de que o investimento financeiro na cultura fica muito mais barato do que o não-investimento?

Uma das razões fundamentais deve-se ao facto de o termo cultura ter perdido a sua eficácia. Assim, quando se fala de cultura, a pergunta imediata pode ser: mas que cultura? E a seguir é fulcral reconhecer que o impacto da cultura é muito subjectivo e portanto o seu valor intrínseco de difícil prova. É necessário, por isso, começar por encontrar o vocabulário certo e adequado aos dias de hoje, o que exige também outro tipo de argumentação. Uma mudança de vocabulário a exigir de imediato a muitos dos artistas e autores é a passagem de uma postura reactiva e de uma linguagem de vitimização para uma atitude pró-activa e com uma linguagem mais consonante com o equilíbrio entre direitos e deveres.

De facto, haverá muitas razões para a ineficácia dos argumentos tradicionais sobre o valor da cultura. Uma das maiores é confundir tudo num único argumento reduzido à expressão corriqueira do "dever do apoio às artes". Assim, sem justificação. Há ainda outros maus argumentos que contribuem para este bloqueio: o de que os desígnios de todas as actividades artísticas e/ou culturais são os mesmos e universais, tendo o mesmo tipo de consequências directas na vida dos cidadãos. Os direitos e deveres dos seus protagonistas são muito diferentes conforme os países, mas sobretudo conforme a área da expressão cultural. É um facto que, por mais que se queira insistir por hábito, por comodismo ou por corporativismo que o apoio financeiro à cultura artística deve ser um dever indiferenciado, há diferenças fulcrais entre o meio do cinema e o dos livros. Dentro destes dois meios, que aliás têm em comum o facto de poderem (ainda que não necessariamente) ser decorrentes de mecanismos industriais, há diferenças abissais: de custos de produção, de custos de divulgação, de mecanismos de difusão e de recepção, de custos nos mecanismos de distribuição intermédios, de número de cópias, de condições psicológicas e de tempos de recepção e de acolhimento por parte dos últimos destinatários.

O mesmo se poderia dizer das diferenças que existem entre meios equivocamente tão semelhantes como os museus de arte antiga e as colecções de arte contemporânea, a começar pela sua criação. Os museus de arte antiga de uma forma geral já "existem", e por isso têm tradições de funcionamento e de constituição de acervos que pouco têm a ver com a constituição dos novos acervos de colecções de arte contemporânea. Os saberes técnicos e de difusão exigem especificidades, e até as questões de natureza ideológica envolvidas são diferenciais e podem até ser conflituosas, como as condições de acolhimento e de conservação. Implica isto uma guerra de géneros artísticos ou um divórcio de comunidades? Não necessariamente, e até pode haver excelentes especialistas de banda-desenhada que o são também de história de arte antiga. Mas, primeiro, são raros e, segundo, sabem bem distinguir os problemas e as singularidades de cada género e a forma como comunicam com os seus destinatários sobre os mesmos. E esta mesma diversidade de géneros tem naturalmente reflexo na diversidade fria das receitas e dos públicos. Este é um facto que a linguagem política deve colocar como vantagem quando se abordam os ganhos da cultura. Quer isto dizer que deveria haver um Ministério da Cultura para cada um dos géneros em causa? Até poderia parecer que sim, não fora o facto de os Ministérios da Cultura não deverem ter como objectivo prioritário serem ministérios das artes, mas antes organizações de gestão transversal tendo como objectivo essencial possibilitar a fruição artística e cultural dos cidadãos, através do apoio à criação e difusão da cultura artística. Neste capítulo relativo à relação dos poderes do Estado com as artes e com as actividades culturais, é muitas vezes incompreensível e sobretudo pouco transparente para o cidadão contribuinte a forma como os apoios são dados (de uma forma geral em toda a Europa). A pretexto dos valores intrínsecos e da opacidade (verdadeira) dos projectos ou dos trabalhos, muitas destas decisões podem aparecer como obscuras, não sendo comunicadas, publicitadas ou defendidas com a clareza e a linguagem que seriam desejáveis para o cidadão comum.

É claro que há alguns valores intrínsecos às obras de arte e de culto que não podem ser contabilizados utilizando os mesmos critérios dos apoios financeiros à agricultura, à defesa, à saúde pública, e por isso mais necessário é que todos os intervenientes nas políticas culturais comuniquem bem os mecanismos de financiamento ou de selecção de projectos. Mesmo, repita-se, e repita-se até à exaustão, que toda a dimensão artística possa ser um encontro privado entre o cidadão e a obra, e mesmo que toda a obra e toda a actividade cultural impliquem um elevado grau de opacidade e até de mistério. Salvaguardando estas características e estes valores intrínsecos traduzidos radicalmente na arte conceptual ou na poesia experimental, no documentário ou no cinema de autor, nas monografias e nas iluminuras, no teatro beckettiano ou na escrita esotérica de Gabriela Llansol, etc., etc., a cultura artística, literária e científica pode contribuir para capacitar as pessoas para a sua vida privada ou profissional, para comunicar o que noutras linguagens se afigura incomunicável, e para múltiplas aplicações, entre as quais a de uma experiência privada e íntima de realização, que justificam que, no seu conjunto, a cultura custe dinheiro, e a todos