Português construiu veleiros que recuperamo traço dos antigos lugres bacalhoeiros

Sean Paquito IV
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Sean Paquito IV

João Paquito esteve emigrado na África do Sul e construiu os seus barcos com as suas próprias mãos. O maior, e mais especial de todos, tem 38 metros

O Sean Paquito IV até podia ser um veleiro igual a tantos outros, não fosse a história e a paixão de quem o construiu com as suas próprias mãos. De facto, este barco de 38 metros de comprimento distingue-se entre os muitos veleiros que as reconhecidas marcas de construção naval vão lançando para o mercado pela evocação, assumida, dos antigos lugres bacalhoeiros portugueses. E por ser um barco feito por um homem só. Um português que emigrou para a África do Sul e que acabou por se lançar no mundo da construção naval como autodidacta.

Tudo começou em 1971, por ocasião de uma travessia de veleiros entre Capetown e o Rio de Janeiro. "Vendo tantos barcos a fazer a travessia, qualquer coisa em mim me disse que eu também tinha de ter um. Mas como tinha de trabalhar para sustentar a família, entendi que a melhor maneira seria comprar livros de construção naval, observar outros, e construir eu o meu barco", relata João Paquito.

Nessa altura, este emigrante era "soldador e serralheiro de profissão", experiência que até lhe facilitou a tarefa de concretizar o seu sonho. "O problema maior eram os meus amigos a dizer que eu nunca acabaria o barco", recorda. O destino acabou por confirmar que os seus amigos não tinham razão, pois João Paquito construiu não apenas um, mas seis barcos "cada vez de maiores dimensões". "Apenas eu, com a ajuda de dois empregados que limpavam e me davam as ferramentas de que eu precisava", atesta. A intervenção dos técnicos qualificados só ocorria na fase final, com "o arquitecto e os engenheiros que faziam o teste de flutuação e inclinação", refere ainda João Paquito.

A sua opção recaiu sempre por construir réplicas dos antigos bacalhoeiros portugueses, acima de tudo pela "beleza e linha destes barcos" cujo imaginário nos conduz "àquela era em que os homens tinham uma enorme coragem. Estes barcos eram realmente a bóia de salvação para as suas vidas naqueles mares", evoca.

O mais especial de todos os barcos que construiu foi, de facto, o Sean Paquito IV, que concluiu em 2009, ainda na África do Sul. João Paquito confessa que este veleiro "é o culminar de todos os outros" ao nível das especificidades técnicas e também da acomodação". Segundo garante, este é o barco dos seus sonhos, ainda que esteja, agora, a tentar vendê-lo, devido a várias vicissitudes da vida.

Depois de regressar a Portugal, o destino trocou-lhe as voltas - além dos seus 70 anos já convidarem à reforma, João Paquito e a família tiveram também de enfrentar o acidente e a consequente necessidade de cuidados especiais do seu filho -, obrigando-o a passar o Sean Paquito IV - actualmente atracado em Lisboa - para outro dono.

Apesar de, quando foi lançado à água, ter sido avaliado "por reconhecidos corretores internacionais em quatro milhões de euros", garante o construtor, o Sean Paquito está à venda por 700 mil. A conjuntura económica tem obrigado João Paquito a descer vertiginosamente o preço da sua última obra.