Entrevista

Nélson Oliveira: “Não sei por que os portugueses não têm mais oportunidades”

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Foto: Nuno Ferreira Santos

Nélson Oliveira, avançado do Benfica, foi considerado o segundo melhor jogador do Mundial sub-20. Em entrevista ao PÚBLICO, o jovem de 20 anos confessa que o prémio não o mudou e que é apenas “um rapaz que quer ser jogador”. E pede mais oportunidades para os jogadores portugueses.

Acabou de dizer aos seus colegas das camadas jovens do Benfica que ainda não é um jogador, mas um rapaz que quer ser um jogador. O que falta para se sentir um jogador?

Ainda me falta tanta coisa. Sou um rapaz de 20 anos. Tenho muito para evoluir. Como é lógico, todos os rapazes da minha idade não são jogadores feitos, estão em aprendizagem. Até aos 24 anos, estamos sempre a aprender. Só a partir dos 24 anos somos mais maduros e estáveis. Por isso disse que sou um rapaz em aprendizagem que quer ser jogador.


O facto de ser o segundo melhor jogador do Mundial sub-20 dar-lhe-á mais oportunidades?

Acho que sim. É um facto que me abre portas, que pode ser muito bom no futuro.


Isso ajudou-o a ficar no plantel no Benfica?

Não. Já tinha a confirmação de que iria ficar no plantel do Benfica antes de ir para o Mundial.


Os Mundiais de sub-20 revelam grandes jogadores, como aconteceu com Messi e Maradona, mas há outros que depois não se confirmam. Receber a Bola de Prata é uma responsabilidade extra?

Dá-me uma responsabilidade extra, mas é algo a que não vou dar importância. Ter recebido o prémio de segundo melhor jogador do Mundial em nada alterou a minha pessoa e a minha forma de pensar. Vou continuar a trabalhar da mesma forma e a tentar evoluir.


Quando regressaram do Mundial foram unânimes: os jovens portugueses não têm tantas oportunidades como deveriam. Por que acontece isto?

Não sei a que se deve isso. O Benfica está a tentar contrariar esse aspecto e está a apostar em jovens portugueses. Penso que daqui para a frente vai ser feita uma maior aposta em jovens portugueses.


No Benfica e noutros clubes, tem havido apostas em jovens estrangeiros de 18/19 anos, como Di María e James Rodríguez. Acha que há menos resistências em apostar em miúdos que vêm do estrangeiro do que na chamada prata da casa?

Esse é um facto. Tem vindo a ser assim até aqui, mas a partir de agora vai começar a haver maior aposta dos clubes em jogadores portugueses.


Entre muitas explicações, há quem diga que os campeonatos de juniores são pouco competitivos e que os jogadores portugueses se ressentem quando chegam aos seniores. Sentiu isso?

No meu segundo ano de júnior, tive oportunidade de jogar meia época na I Liga, no Rio Ave, o que foi muito bom para mim. Acho que isso pode ter alguma importância, daí ser importante o aparecimento das equipas B.


Nessa experiência no Rio Ave e depois na época passada, no Paços de Ferreira, sentiu dificuldades na adaptação ao futebol profissional?

Senti muito mais dificuldades no tempo do Rio Ave, porque no Paços de Ferreira aquilo já não era novo para mim. Já sabia que ia encontrar um ritmo e a uma competitividade diferentes.


Voltando ao Mundial, a selecção partiu incógnita para a Colômbia e regressou como vice-campeã. Foi uma bofetada de luva branca em quem não acreditava nesta selecção?

Não falo em bofetada de luva branca, porque não vejo as coisas dessa forma. É verdade que a maior parte das pessoas não acreditava na selecção e nós limitámo-nos a fazer o nosso trabalho. Fizemos um grande trabalho e demonstrámos que o jogador português tem qualidade e que deve ser levado em consideração.


Qual foi a maior lição deste Mundial?

Foi que os favoritos se vêem dentro de campo e não fora, nos jornais e na comunicação social.


Paulo Bento anunciou os convocados para o jogo com Chipre. Em algum momento pensou que poderia ser chamado para a selecção A e não para a sub-21?

Não estava à espera de ser convocado. A selecção A está muito bem servida em termos de pontas-de-lança. Ao contrário do que as pessoas dizem, temos dois bons pontas-de-lança, o Hugo Almeida e o Postiga, que têm dado boa conta do recado. Não me passava pela cabeça ser convocado.


Paulo Bento já disse que o Nélson será um jogador de futuro. Espera chegar em breve à selecção A?

Espero continuar a trabalhar para o mais rapidamente possível lhe dar razão. Espero um dia representar a selecção A. É um dos meus objectivos e um dos meus sonhos.


Isso só será possível jogando no Benfica. Olhando para a concorrência de Cardozo, Saviola e Rodrigo, acha possível ter bastantes oportunidades?

Vou trabalhar para que as oportunidades surjam.


E, se não surgirem, preferirá ser emprestado, para ganhar mais experiência?

É no Benfica que quero evoluir. Se jogar menos, tenho de trabalhar para jogar mais.


Começou a jogar com que idade?

Comecei com nove anos.


Era daqueles miúdos que andavam sempre a jogar futebol?

Sim. Era muito viciado no futebol. Sempre que estava em casa jogava futebol com os meus amigos, organizávamos jogos no ringue mais próximo. Jogávamos futebol a toda a hora, mesmo na escola, nos intervalos das aulas.


Teve alguma influência na família para jogar ou o gosto nasceu espontaneamente?

O meu pai sempre teve o bichinho do futebol. Desde cedo me comprou bolas de futebol quando ia às compras. O presente que me dava era sempre uma bola.


Quando veio para o Benfica aos 14 anos é verdade que houve interesse do Chelsea e de clubes portugueses como o FC Porto e o Sporting?

Falou-se nisso, mas nem estava preocupado, porque 14 anos é muito cedo para ir para fora. Não vejo qualquer sentido em um miúdo de 14 anos ir para o estrangeiro quando tem condições como estas para crescer como jogador no seu país de origem.


Quem são as suas grandes referências no futebol?

A minha principal referência é o Cristiano Ronaldo, porque, além de ser um grande jogador, tem uma capacidade de trabalho fantástica e, na minha opinião, é o melhor do mundo. Há outro jogador da minha posição de que gosto bastante, que é o Ibrahimovic.


Há pouco, recomendou aos jovens jogadores do Benfica que continuassem a estudar, porque a carreira no futebol pode não correr como eles imaginavam. O Nélson fez isso? Continua a estudar?

Estudei até ao 12.º ano. Agora quero levar isto (o futebol) mais a sério. Antes tinha mais a preocupação de fazer o 12.º ano, porque é importante. Daqueles miúdos que estavam no auditório nem todos vão ser jogadores, daí ser importante não descurar os estudos. É sempre mais uma opção que temos caso não singremos no futebol.


Se a carreira de futebolista não tivesse corrido bem, o que iria estudar?

Gosto da área de Desporto. Talvez fosse professor de Educação Física. Teria de pensar, caso tivesse optado pela escola.


Do que é que um rapaz de 20 anos tem de abdicar para ser futebolista profissional?

Tive de abdicar de algumas coisas. Os futebolistas têm sorte, porque fazem aquilo de que gostam. Há muitas pessoas que não o podem fazer. Penso que os futebolistas têm de abdicar principalmente das saídas com os amigos à noite e, nesse aspecto, temos de ter certas regras. Não podemos sair como se fôssemos pessoais normais. Temos de sair menos vezes.