A tarefa do FC Porto está mais difícil do que há três meses

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Passaram três meses, mas a realidade mudou um pouco. Salta à vista que as deserções de André Villas-Boas e Falcao retiraram ao FC Porto poder ameaçador - até em termos mediáticos. Para isso ainda contribuiu a desestabilização natural provocada num plantel em que há muita gente assediada ou com vontade de o ser. Travar o tiki taka e Messi não é missão impossível. Mas não há nada mais difícil de conseguir no mundo da bola...

Na época passada, o Barça foi derrotado por seis equipas: Sevilha, Hércules, Bétis, Arsenal, Real Madrid e Real Sociedad. Desaires que foram vistos como excepções naturais ao longo de um ano desgastante. Mas alguns desaires sofridos durante a digressão de pré-época já foram tidos como prenúncio do esgotamento mental de um grupo que já havia ganho tudo. Depois de dois empates (Hajduk Split e Internacional de Porto Alegre), seguiu-se um tira-teimas perdido frente ao Manchester United (2-1) e uma goleada surpreendente consentida perante os mexicanos do Chivas (4-1). O recente duplo confronto com o Real Madrid também não foi fácil, mas a vitória na Supertaça serviu de catalisador e deixou claro que a equipa catalã ainda tem sede de vitórias. Afinal de contas, o título e a polémica com o irascível José Mourinho acabaram por funcionar como um suplemento motivacional.

Os percalços do Barça são consentidos, por norma, frente a adversários que reforçam o meio-campo e exploram bem as alas. Nos recentes confrontos com o Real, Guardiola lidou com momentos muito complicados, eventualmente como nunca tivera de se haver desde que em 2008 substituiu Rijkaard. Mas, para além de ser muito difícil imitar a qualidade pressionante atingida pelos madrilenos, voltou a ficar provado que ninguém o consegue durante o tempo suficiente.

A lesão de Piqué trocou um pouco as voltas a Guardiola, que já não ia poder contar com Puyol (para além do lateral Maxwell). O mais provável é que resolva o problema com a colocação de Abidal e Mascherano no centro da defesa. Outra hipótese seria recuar Busquets, experiência que nem sempre o deixou satisfeito. Surpreendente seria se apostasse nos jovens Fontás ou Bartra, mas com Guardiola nunca se sabe...

O Barcelona não gastou muito mais dinheiro em reforços do que o FC Porto. Os portistas vão em 42,5 milhões investidos, enquanto os catalães gastaram 55 milhões (quase compensados com os 47,7 milhões das vendas). A diferença é que o Barça concentrou todo o investimento em apenas dois jogadores. O chileno Alexis Sánchez saiu da Udinese por 26 milhões euros, valor que só é excessivo para quem não conhece a qualidade excepcional deste jovem (22 anos) atacante. Vai discutir com Pedro Rodríguez um lugar na faixa direita.

O regresso de Fàbregas ao Barça, de onde saiu quando era adolescente, funciona também como uma enorme mais-valia. O ex-jogador do Arsenal pode ocupar quase todos os lugares no meio-campo e Guardiola até parece disposto (como experimentou há dias frente ao Nápoles) a utilizá-lo como "9 mentiroso", como em Espanha se chama a função desempenhada por Messi no relvado.

Do meio-campo para a frente há soluções para todos os gostos. Vale a pena relevar a importância que ganha cada vez mais o miúdo Thiago Alcântara (filho do brasileiro Mazinho), que voltou a ser chamado à selecção principal. Com tanta oferta, discute-se se Guardiola não acabará tentado a usar um 3x4x3 igual ao de Cruijff (em que o catalão brilhava). Mas, frente ao FC Porto, irá manter-se o habitual e dinâmico 4x3x3.

Procurar interromper no estádio Louis II a hegemonia catalã seria sempre uma tarefa complicadíssima em quaisquer circunstâncias para o FC Porto. E ficou ainda mais complicado no actual contexto, em que há jogadores que chegaram tarde e outros ainda a apressar a integração. Notam-se dificuldades na zona de construção e na organização ofensiva.

Sem Falcao e ainda sem o substituto do colombiano (poderá vir a ser o brasileiro Leandro Damião, boa alternativa), o FC Porto perde finura e eficácia no ataque. Se a isso acrescentarmos a ausência de Álvaro Pereira (dava outra profundidade e consistência à ala) e a não titularidade de Fernando (Souza tem qualidade, mas ainda não é suficientemente fiável na posição 6), percebe-se por que razão parece o FC Porto ter hoje menos hipóteses de bater o campeão europeu.

Há 18 anos, Vítor Pereira dedicou a sua tese de licenciatura ao Barça de Cruijff, patrono e inspirador de Guardiola. O jogo de hoje tanto pode servir para mostrar que não é por se estudar muito o Barça que fica mais fácil ganhar-lhe, como para ajudar a libertar um treinador da sombra do seu antecessor. A primeira hipótese é a mais provável. bprata@publico.pt

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