1941-2011 Raúl Ruiz Uma vida descansada

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Daniel Rocha
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Filmou Proust, filmou Stevenson, filmou Racine - Ruiz fez da literatura a matéria essencial do seu trabalho. Com uma longa história de afinidades com Portugal, morreu num momento alto dessa história, em pleno sucesso mundial de Mistérios de Lisboa, a sua adaptação de Camilo. Estava agora a filmar As Linhas de Torres, outro filme português e feito em Portugal

Raúl Ruiz era uma máquina de fazer filmes. Entre produções profissionais e produções amadoras ou semi-amadoras, realizou, desde os anos 60, mais de uma centena de títulos. Filmografias desta dimensão eram comuns entre os pioneiros do mudo, mas são raríssimas entre os cineastas contemporâneos, se não for mesmo um caso único. Nem ele próprio sabia dizer com precisão o número de filmes que tinha feito. E acrescentava: "Fazer filmes é uma maneira de descansar". Só podemos acreditar nisso, e concluir que Ruiz teve uma vida descansada.

Era chileno, natural de Puerto Montt, radicado em Paris desde 1973 (o ano de Pinochet) e com uma longa história de afinidades com Portugal. Morreu num momento alto dessa história, em pleno sucesso (mundial, pode dizer-se) de Mistérios de Lisboa, a sua adaptação de Camilo Castelo Branco, e numa altura em que se preparava para arrancar com a rodagem de outro filme português, e feito em Portugal, As Linhas de Torres. Nunca no nosso país se tinha falado tanto de Raúl Ruiz, e os Mistérios tinham conquistado um público novo para a sua obra. Mas a história de Ruiz com Portugal era, como dissemos, longa e antiga, remontava aos anos 80 e a uma série de filmes feitos cá (Le Territoire, La Ville des Pirates, Les Destins de Manoel), com actores portugueses e um produtor português, Paulo Branco, com quem voltaria a colaborar inúmeras vezes.

Foi com os filmes europeus que, nos anos 70, se tornou conhecido e apreciado, posto nos píncaros pela crítica (sobretudo, e primeiro que as outras, a crítica francesa). Mas antes disso fez obra no Chile, uma obra que se tornou difícil de ver e que faz um bocadinho figura de "continente desconhecido" na filmografia ruiziana (a retrospectiva que se anuncia ainda para este ano, na Cinemateca, deverá contribuir para revelar esse "continente"). Eram filmes, e por boas razões, com uma presença muito mais forte da política do que na sua obra europeia, mas já plenamente abertos aos cruzamentos referenciais, aos labirintos narrativos, à relação com a literatura que foi sempre um aspecto essencial do seu cinema (em La Expropriación, de 1973, a política mistura-se com Shakespeare e com o mais célebre monólogo do Hamlet). Ruiz foi um cineasta da literatura (o que não quer dizer um "cineasta literário"), alguém que fez da literatura a matéria essencial do seu trabalho - e, neste sentido, terá sido um dos últimos. Filmou Camilo, filmou Proust (Le Temps Retrouvé, de 1999), filmou Stevenson (L"Ile au Trésor, de 1985), filmou Racine (Berenice, de 1983), filmou Pierre Klossowski (L"Hypothèse du Tableau Volé, de 1977, para muitos a obra máxima de Ruiz). E sobretudo fundiu, cruzou, aproximou universos, pô-los em diálogo, relevou os imaginários da literatura (também da pintura, também da música), para os converter em imaginários de cinema, o seu eclectismo referencial procurava mais isto do que o simples bricabraque cultural. Ruiz foi também isso: um grande cineasta da imaginação e do imaginado, do sonho, do "outro lado do espelho" (e, consequentemente, da infância, da infância do espírito, aberta a todo o tipo de monstruosidades e maravilhas, as monstruosidades e as maravilhas que, em cada filme de Ruiz, coexistem como duas faces da mesma moeda).

Era casado com Valeria Sarmiento, também ela cineasta. Adoecera gravemente durante a rodagem dos Mistérios de Lisboa e esteve, então, por um fio. Há dois meses, imerso na preparação de As Linhas de Torres, declarava-se "surpreendentemente bem". Morreu ontem, aos 70 anos, em Paris. A rodagem do próximo filme ia começar em breve. Ruiz morreu como sempre viveu: a fazer filmes. Em descanso.