A revolta já chegou à classe média chinesa

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Milhares de pessoas exigiram nas ruas o encerramento de uma petroquímica REUTERS

Há instabilidade social e há uma "crise de legitimidade". Já houve regimes a sobreviverem a mais, mas em Pequim há razões para o nervosismo

Há incidentes que se repetem. Localizados e breves, começam e logo terminam, dez ou cem detidos depois, alguns carros da polícia incendiados entretanto. São pequenas explosões. Em 2009 houve 90 mil protestos na China. Mas há incidentes mais únicos, com consequências difíceis de antecipar. Há protestos que são mais do que isso, como o que no domingo juntou dezenas de milhares em Dalian e levou o Governo a ordenar o encerramento imediato de uma fábrica de produtos químicos cujos riscos a população temia.

Ainda na sexta-feira houve notícia de um protesto violento, com milhares de pessoas a saírem em revolta contra os polícias municipais que feriram uma mulher que estacionou mal a sua bicicleta. Os abusos das autoridades são um dos gatilhos mais frequentes dos protestos. Questões ambientais ou de riscos para a saúde estão por trás de outros. A subida dos preços dos alimentos e da habitação também tem contribuído.

A regra é que estes protestos acabam sem motivarem decisões por parte das autoridades, como o encerramento da petroquímica de Dalian. Também há acidentes de comboio que são só acidentes de comboio. Mas como escreveu David Pilling no Financial Times, o acidente no comboio de alta velocidade da China em Julho "não foi um desses".

A colisão entre dois comboios em Wenzhou, no Leste do país, fez 40 mortos e o regime tentou controlar a cobertura jornalística. A tentativa fez ricochete e durante alguns dias a censura foi impossível. Muito por causa dos serviços de microblogues (idênticos ao Twitter), cada vez mais populares, mas não só.

Este não foi um acidente qualquer e por causa dele o Diário do Povo escreveu que os chineses querem um crescimento económico que não esteja "coberto de sangue". "Será que as estradas nas nossas cidades podem não se desmoronar de repente? Será que não podemos viajar em comboios seguros? Queremos dizer: "China, por favor abranda. Não vás tão depressa e não deixes as almas das pessoas para trás"", foi o desabafo em directo de Qiu Qiming, pivot da televisão estatal.

Os passageiros do TGV

Wenzhou foi diferente por várias razões. As escolas que desabaram e enterraram crianças no terramoto de Sichuan, em 2008, afectaram famílias pobres e rurais. Mas os passageiros das linhas de comboios de alta velocidade são membros da nova classe média. A que beneficiou do extraordinário crescimento económico, a que tem mais recursos para contornar a censura dos media oficiais e usa redes sociais como o Weibo, um dos serviços idênticos ao Twitter disponíveis no país. E a linha de comboios de alta velocidade é uma tecnologia que o regime promoveu como símbolo da China moderna que se quer grande no mundo.

"Realmente, não entendo o que o Governo pensa que pode esconder", foi uma mensagem lida pela Reuters no Weibo, entre um aceso debate, com muitos chineses a acusarem o Governo de sacrificar a sua segurança em nome do desenvolvimento frenético.

O debate no Weibo também levou os media tradicionais a desafiarem a dura censura habitual - pelo menos até chegar a ordem para reduzir a cobertura do acontecimento. O semanário privado Economic Observer publicou na primeira página um editorial em forma de carta a uma menina de dois anos encontrada com vida nos destroços quando o Governo assegurava que já não havia sobreviventes. "Como vocês mentem as pessoas recusaram desistir de saber a verdade."

O partido vai nu

Na sexta-feira, o Governo anunciou a suspensão de todos os projectos de construção nos caminhos-de-ferro. E a China CNR Corp, empresa estatal, tirou de circulação 54 TGV "para testes sistemáticos por causa de determinados problemas técnicos". O acidente de Wenzhou poderia "perfeitamente ter sido evitado", afirmou Luo Lin, o chefe da equipa que conduz o inquérito à colisão, citado pelo Diário do Povo.

O TGV só foi inaugurado na China em 2007, mas a expansão tem sido alucinante. "A rede de comboios de alta velocidade da China, construída em menos de uma década, é a maior do mundo. Esperava-se que os seus comboios viajassem a uma velocidade que envergonhasse a tecnologia japonesa. Em vez disso, este acidente expôs presunção, incompetência e corrupção num único e trágico embate de metal. Desde a Praça de Tiananmen, há mais de 20 anos, que talvez o Partido Comunista não aparecesse tão nu diante do povo", escreveu ainda David Pilling no Financial Times.

Jeff Wasserstrom, autor de China in the 21st Century, What Everyone Needs to Know (Oxford University), não iria tão longe, mas não tem dúvidas em afirmar que "o acidente de comboio desencadeou uma "crise de legitimidade"", disse ao PÚBLICO. Muitos regimes resistiram a crises de legitimidade, lembra, numa conversa por email, mas "mais acontecimentos como este podem tornar-se num grande desafio".

Os 90 mil protestos por ano juntam quase todos pobres - ainda há 900 milhões a viver no campo, aos quais não chegam as melhorias de salários e o desenvolvimento a que se assiste nos principais centros urbanos. Já a colisão do TGV indignou os que têm beneficiado do regime. "China colide numa revolta da classe média", era o título do artigo de Pilling.

A revolta de jasmim

Muito se tem escrito sobre a possibilidade de uma Primavera Árabe chinesa. A culpa é mais do regime do que dos activistas. O artista Ai Weiwei foi dos poucos a expressar solidariedade com os manifestantes no Egipto e na Tunísia. Houve tentativas para marcar protestos através da Internet e a palavra "jasmim" (a revolta tunisina ficou conhecida como a revolução de jasmim) começou a aparecer aqui e ali nas redes sociais. Mas a resposta do regime foi desproporcionada: atacaram-se grupos religiosos, prenderam-se activistas, ocuparam-se ruas de Pequim à espera de protestos que nunca aconteceram.

"Eu não liguei nada à jasmim no início, mas as pessoas que têm medo divulgaram informação sobre como a jasmim é perigosa... o que me fez perceber que é a jasmim que os assusta mais do que tudo", escreveu Ai Weiwei no Twitter em Fevereiro, antes de ser preso por alegados crimes económicos.

"Eles estão preocupados, e vão tentar parar a História, o que é inútil. Não podem fazê-lo. Mas vão tentar enquanto conseguirem", disse a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, em resposta a uma pergunta de Jeffrey Goldberg, da revista Atlantic, sobre a reacção do regime à Primavera Árabe.

Aquilo que alguns viram como a reacção do Partido Comunista à Primavera Árabe foi lido por outros como uma antecipação à sucessão que se avizinha na hierarquia: o Presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao deverão deixar os seus postos no partido no próximo ano e os lugares no Governo no início de 2013. Ao mesmo tempo, a crise internacional e a inevitabilidade de abrandamento no crescimento económico terá deixado os líderes a temer pela saúde do acordo que mantém com a sua população - enquanto o país crescer e cada vez mais pessoas beneficiarem desse crescimento, ninguém vai exigir mais liberdades políticas.

"As elites do Partido Comunista ainda consideram que a sua principal ferramenta de legitimidade é a capacidade de assegurarem um crescimento económico estável através de um desenvolvimento orientado para as exportações. Mas claro que, com tantos protestos, a liderança percebe que só o crescimento não lhe vai garantir o poder eterno", disse ao PÚBLICO Lawrence C. Reardon, professor de Ciência Política na Universidade de New Hampshire e especialista em política chinesa.

O ponto de viragem

Jeffrey Goldberg, da Atlantic, quis escrever sobre a China no meio da Primavera Árabe porque partiu da "suposição de que os chineses são como toda a gente, não querem que lhes digam o que fazer e o que dizer". Mas na sua busca por respostas concluiu que, pelo menos a médio prazo, o regime vai sobreviver.

"Num certo sentido, a História acabou e depois a China começou a História outra vez. Pensámos que os soviéticos iam levar a História numa direcção diferente e eles não conseguiram, mas os chineses conseguiram um nível de desenvolvimento económico de que os soviéticos nunca se aproximaram", ouviu Goldberg de Orville Schell, analista do think tank Asia Society. "Uma das lições do sucesso do Partido Comunista Chinês na criação do capitalismo leninista pode ser que nada é inevitável", escreve Goldberg.

"Odeio dizer sobre seja o que for que é inevitável, mas a longo prazo algumas coisas são mesmo. Ou seja, em algum momento, o Partido Comunista vai cair, como qualquer regime. Não vejo sinais de uma mudança dramática no horizonte imediato, mas penso que a diminuição gradual das taxas de crescimento vai colocar um grande desafio ao Governo", sustenta Jeff Wasserstrom. Para Reardon, "o ponto de viragem ainda não aconteceu mas a população está tão preocupada com os problemas sociais que resultam do crescimento rápido que isso se vai tornar numa enorme fonte de instabilidade".