Artista chinês voltou a usar o Twitter apesar de estar impedido pelas autoridades

Ai Weiwei sofreu “uma enorme pressão” durante os 81 dias em que esteve detido

Ai Weiwei acredita ter estado "à beira da morte"
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Ai Weiwei acredita ter estado "à beira da morte" David Gray/Reuters

O silêncio foi longo e quebrá-lo é arriscado. Mas nesta semana o artista plástico chinês Ai Weiwei voltou a usar o Twitter e algumas pessoas próximas contaram pormenores do que aconteceu durante os 81 dias em que esteve detido. Foi interrogado mais de 50 vezes, impedido de falar e obrigado a dormir com as mãos sobre a manta.

Ai Weiwei foi libertado a 23 de Junho, mas as autoridades chinesas impediram-no de usar as redes sociais ou dar entrevistas. Mas aquele que é um dos artistas plásticos chineses mais famoso em todo o mundo está agora a desafiar as autoridades. Aos poucos, vão-se sabendo pormenores sobre o que aconteceu enquanto esteve detido.

Uma pessoa próxima, que pediu para não ser identificada, disse à BBC que Ai Weiwei, de 54 anos, acredita ter estado “à beira da morte”. As autoridades alegam que foi preso por evasão fiscal, mas a sua detenção gerou uma forte contestação. Estava a ser silenciada uma das vozes mais críticas do regime.

Durante a detenção e as dezenas de interrogatórios nunca foi feita qualquer pergunta sobre a situação fiscal de Ai Weiwei, mas houve muitas perguntas sobre alegados apelos a uma revolução e acusações de que estaria a tentar “subverter o Estado”, adiantou a fonte ouvida pela BBC. A detenção ocorreu em duas prisões diferentes, a na última a cela era um quadrado exíguo com quatro metros de lado, sem janela.

Sem poder sair, era aí que o opositor chinês procurava exercitar-se, a percorrer aqueles quatro metros vezes infinitas, durante cerca de cinco horas por dia, sempre vigiado por dois polícias. Foi “a situação mais dura que um ser humano pode enfrentar”, terá dito Ai Weiwei.

Uma outra fonte, ou talvez a mesma, disse à Reuters que Ai Weiwei confirmou ter sido submetido a mais de 50 interrogatórios e a uma “forte pressão psicológica”. Foi acusado de estar a planear protestos inspirados nas revoltas no mundo árabe, tinha de pedir autorização para beber água ou ir à casa de banho. E fora dos interrogatórios não podia falar.

Talvez Ai Weiwei acreditasse que o facto de ser filho do famoso poeta comunista AiQing o pudesse proteger, mas na altura da sua libertação foi-lhe dito que poderia enfrentar pelo menos 10 anos de prisão por “incitar à subversão contra o poder do Estado”. Foi também impedido de falar com jornalistas, reunir-se com estrangeiros e usar a Internet, e durante mais de um mês não desafiou essa proibição.

Na primeira semana de Agosto, no entanto, voltou a colocar mensagens no Twitter, as primeiras desde Abril. Referiu-se sobretudo ao que aconteceu a alguns dos seus amigos e a outros opositores. “Hoje encontrei-me com Liu Zhenggang. Falou sobre a detenção pela primeira vez... Ele sofreu um ataque cardíaco repentino no centro de detenção e quase morreu”. E foi ainda mais longe ao relatar atrocidades cometidas na prisão. “Pela relação que tinham comigo, Liu Zhen Gang, Hu Ming Fen, Wen Tao, Zhang Jin Song, foram presos ilegalmente e sofreram danos mentais arrasadores e tortura física”.