Artista fala em condições desumanas na prisão

Ai Weiwei desafia Governo chinês e fala da sua detenção no Twitter

DR/Ai Weiwei
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DR/Ai Weiwei Imagem publicada por Ai Weiwei no seu Twitter no dia 7 de Agosto

O artista chinês Ai Weiwei, dissidente do governo, saiu em liberdade no dia 23 de Junho mas para isso ficou proibido pelo regime chinês de dar entrevistas, viajar e usar o Twitter durante um ano. A verdade é que não foi preciso esperar tanto para ouvir Ai Weiwei e a sua versão da história. O artista voltou a usar o Twitter este fim-de-semana e garante ter sido detido ilegalmente pelas suas opiniões.

No início de Abril, Ai Weiwei foi detido no aeroporto de Pequim quando tentava viajar e só depois de um longo período de silêncio e sem se saber o seu paradeiro é que o governo chinês explicou os motivos. Evasão fiscal, alegaram as autoridades. Censura, alegou o mundo.

Sempre crítico do governo chinês, antes de ser detido Ai Weiwei usava a internet para exprimir as suas opiniões e denunciar a censura e a pressão do governo chinês a todos os que não pensassem da mesma forma. Por isso, as autoridades proibiram que o voltasse a fazer mas já no final de Julho o chinês deu sinais de querer voltar ao activo, juntando-se ao Google+. Agora, voltou ao Twitter e não foi brando nas palavras. Em apenas três tweets, Ai Weiwei falou dos seus colegas detidos e das torturas que sofrem na prisão.

“Hoje encontrei-me com Liu Zhenggang. Falou sobre a detenção pela primeira vez... Ele sofreu um ataque cardíaco repentino no centro de detenção e quase morreu”, lembra o artista no seu Twitter, defendendo que o amigo, e também artista, apenas foi preso pela sua ligação a Ai Weiwei. “Pela relação que tinham comigo, Liu Zhen Gang, Hu Ming Fen, Wen Tao, Zhang Jin Song, foram presos ilegalmente e sofreram danos mentais arrasadores e tortura física”.

O “The Guardian” conseguiu contactar Ai Weiwei depois desta série de tweets e o próprio garantiu ao jornal britânico que não podia dar entrevistas, confirmando apenas a autoria dos tweets. “Foi a primeira vez desde a minha libertação que me encontrei com o meu colega. Fiquei tão chocado quando o vi. Ele teve um ataque cardíaco e o seu corpo ainda não se mexe bem. Trataram-no muito mal e quase morreu nesta detenção desumana”, disse o chinês ao jornal, revelando que muitas pessoas com ligações a si foram muito mal tratadas. “Como é que a sociedade e o sistema fazem este tipo de coisas e usam o nome da justiça?”

A polícia de Pequim nunca respondeu nem explicou a detenção dos quatro amigos de Ai Weiwei, que foram presos pouco tempo depois do artista e libertados só depois do artista.

Ai Weiwei começou por usar o Twitter – que está bloqueado na China, apenas acessível para quem consegue “furar” a firewall – no fim-de-semana para falar de si e do seu peso. Temas supérfluos, acompanhados por fotografias, como por exemplo uma dos seus pés em cima de uma balança.

Questionado pelo “The Guardian” sobre se estaria preocupado com a repercussão dos seus tweets, Ai Weiwei respondeu: “Eu estou preocupado com tudo. O que é que vou fazer?”

Para Nicholas Bequelin, um investigador na Ásia da Human Rights Watch, não existe nada na lei que impeça verdadeiramente Ai Weiwei de falar. Mas alerta: “Quando se está sob fiança, o risco de ser novamente detido é muito maior.”

Notícia actualizada às 14h39