Eles fecham o último capítulo do Bombarda

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Doente dos anos 1930; doentes com uniforme (1968); corredor do Bombarda com doentes, dois deles com colete- Colecção Dr José Fontes

O primeiro hospital psiquiátrico em Portugal, o Miguel Bombarda, fechou. Com ele se encerram 163 anos que são uma viagem à história da psiquiatria, na qual os seus habitantes passaram de "alienados" a "doentes mentais". Os seus últimos 24 moradores, que ali viveram quase meio século, mudaram-se para a nova casa. São doentes do passado num cenário do futuro. O Bombarda "era muita coisa, era tudo".

Ernesto não perde uma oportunidade para mostrar a fotografia emoldurada da mãe, que tinha no centro da sua mesinha de cabeceira no Hospital Miguel Bombarda e que agora transferiu para a da vivenda que é a sua nova casa. "A minha mãe é esta". Não se leva muito tempo a perceber que a alegria com a imagem que exibe não lhe vem de memórias passadas, tantas são as vezes que fala dela.

"A mãe está aqui, amor". Maria Júlia Martinho, de 85 anos, vê o filho todas as semanas e até o conseguiu ensinar a ir sozinho ter com ela a casa, de 15 em 15 dias. Não foi tarefa fácil. Foram dois anos de treino, todas as semanas, até que Ernesto, que tem 63 anos e sofre de debilidade mental, conseguisse fazer o percurso desacompanhado. Orgulhoso deste seu acto de autonomia - tanto quanto das suas idas à Leitaria dos Combatentes, o café à saída do hospital onde tomava todos os dias a bica e come um bolo - consegue apanhar o autocarro 777 para a Damaia, sair em Benfica e depois apanhar a camioneta para a Amadora. E lá está à espera a mãe, que o põe a dormir na cozinha por ser o único sítio onde tem espaço para o filho. Isto apesar de outro doente do hospital, o sr. Moutinho, lhe prometer, de cada vez que lá vai, "uma quantia avultada" que lhe vai resolver a vida, ou "um T3 para viver com o filho à larga". "Estou à espera", diz-lhe sorridente, numa das vezes em que foi ela a visitar Ernesto, ainda no Bombarda, no centro de Lisboa.

Depois de 20 anos com o hospital como casa, o que vai acontecer à rotina de Ernesto? É que da sua nova casa,no Restelo, em vez de dois transportes, é preciso apanhar três e agora é preciso saber ler algarismos. As paragens já não são de autocarro único e é preciso identificar números, que Ernesto não sabe distinguir.

Todos os hóspedes da nova casa vão ter de passar por muitas adaptações. Ernesto é um dos últimos 24 doentes a sair do Miguel Bombarda, o primeiro hospital psiquiátrico português, que abriu as suas portas em 1848 e as fechou a 5 de Julho de 2011. Somada e dividida a vida que esses doentes lá passaram, dá uma média de 40 anos, mas isto das médias esconde os 53 anos que lá viveu Luís e os cinco que lá esteve Clara. Os últimos cinco mudaram-se hoje, 5 de Julho, para a sua nova casa no abonado bairro do Restelo, em Lisboa, veja-se que na vivenda ao lado, há um carro preto luzidio com motorista à espera.

São um pequeno grupo que ficou dos cerca de 150 pacientes que viviam no Bombarda em 2007, quando se começou a arquitectar o seu fecho. "Não me deixem cair, não me deixem cair", diz, aflita, uma doente idosa encurvada, mal põe os pés no tapete de entrada da nova casa. "Levante os pés, devagarinho", diz uma técnica do Bombarda que a ampara do lado direito e a trata por Armandinha. No braço esquerdo apoia-a uma técnica da Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (Aeips), que gere a sua nova casa, e para quem ela ainda é a Dona Armanda.

A Aeips é uma instituição particular de solidariedade social a quem o Ministério da Saúde vai pagar para acolher estes doentes na primeira experiência-piloto de cuidados continuados em saúde mental, que se quer ver reproduzida pelo país para retirar os doentes dos hospitais psiquiátricos e pô-los a viver em pequenas residências na comunidade.

Tantos anos passaram juntos, doentes e pessoal do hospital, que este ritual de passagem é preciso para as técnicas se convencerem de que eles ficam bem sem elas. E sobretudo para os ir convencendo a eles, a disfarçar lágrimas mas a fingir que estão contentes, que é tudo pelo