João Penalva a três vozes

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RUI GAUDÊNCIO

Pinta, esculpe, faz fotografia, escreve, foi cantor, actor, bailarino. A exposição que abre hoje, no CAM da Gulbenkian, em Lisboa, é uma retrospectiva importante de um dos artistas mais internacionais da arte portuguesa. Trabalhos a três vozes: a do texto, a das imagens ou objectos e, finalmente, a muito importante voz criativa do espectador

João Penalva (n. Lisboa, 1949) é um contador de histórias. Está-nos sempre a contar coisas sobre pessoas, objectos, cidades e paisagens. Entrar numa sua exposição é como entrar num filme: as suas obras, constituídas quase sempre por uma relação intensa e complexa entre imagem, objectos e texto, obrigam a movimentos de aproximação e afastamento, a fazer cortes, a focar pormenores, a ler as legendas, a percorrer como um "travelling" as linhas desenhadas pelos textos e imagens nas paredes. Neste universo todos os elementos são importantes e a linha de separação entre ficção e realidade é ténue e está sempre a ser transgredida pelo artista quando constrói as suas intensas e imensas alegorias.

A transgressão de territórios é a sua mais frequente metodologia e, como diz, Pednalva é "fascinado" pelas questões do género artístico: interessa-lhe questionar o que é a pintura, a escultura, o cinema. Um incessante colocar de questões possibilitado pelo seu imenso virtuosismo: Penalva pinta, esculpe, faz fotografia, escreve, foi cantor, actor, bailarino e, como escreve a curadora da exposição Isabel Carlos, "encarna e circula por todos estes papéis."

Quando, por exemplo, pensa na distinção entre pintura e escultura lembra-se da história que um professor em Londres lhe contava: "as pinturas são aquelas coisas que quando não há luz morrem." Uma ironia que Penalva torna mais densa quando a aplica à escultura: "quando contei essa descrição a um amigo escultor ele acrescentou que as esculturas são aquelas coisas que quando se apagam as luzes as pessoas se matam." Esta anedota ilustra bem a ironia que caracteriza os seu trabalhos.

Pode dizer-se que o grande acontecimento do trabalho de João Penalva não está nem nas imagens que faz, nem nos textos que escreve, nem nas intensas atmosferas criadas para as suas peças, mas sim no espaço que surge entre o que é apresentado e proposto pelo artista e a leitura que o espectador faz de todos esses elementos. Como disse ao Ípsilon: "é indispensável que o espectador não seja passivo, mas também é preciso dar-lhe o material necessário para que a sua criatividade surja naturalmente. O filme paralelo que quero que o espectador faça depende daquilo que eu lhe dou." Exige um espectador criativo, dinâmico e fluido que se disponha a fazer exercícios imaginativos e a compor a histórias a partir dos elementos fragmentários que o artista fornece.

O produzido e o encontrado

Desta forma pode dizer-se serem trabalhos a três vozes: a voz do texto, a das imagens ou dos objectos e, finalmente, a muito importante voz criativa do espectador. Esta última surge a partir da acção de leitura (ou se se preferir: interpretação) dos elementos que o artista coloca à disposição e que apresentam inúmeras possibilidades de sentidos e leitura. Que se possa ler uma imagem como se lê um texto, ou seja, que se possa tirar o mesmo tipo de conclusões e mensagens é um aspecto relevante no dispositivo criativo deste artista. Por isso esta é uma "uma exposição legendada e a legenda é muito importante" afirma.

O Japão, tema comum em muitas das ficções de João Penalva, é um caso exemplar da forma como se lê as imagens: "o meu acesso à cultura do Japão foi sempre mediado pela legenda. E esse espaço criado pela legenda cria três vozes diferentes: a voz do filme, a voz sem personagem da legenda e a voz de quem lê a legenda." O fascínio por este país deve-se ao facto de "ser um país com uma linguagem que não falo e com uma cultura a que só tenho acesso de uma maneira visual: é sempre um filme sem legendas passado numa língua que não falo." Nestas afirmações fica claro que a imagem é o elemento que toma a dianteira na formação das narrativas: "Os textos são sempre escritos por mim, mas começo quase sempre pela imagem."

Se imagens e palavras são os elementos primeiros das suas operações criativas, o contexto onde apresenta as obras não tem menor importância. Cada obra surge numa atmosfera precisa e rigorosa. Penalva prefere falar em contextos que são "criados e encenados. Evito a palavra teatro, porque as coisas só funcionam no teatro porque há uma distância que num museu ou numa galeria não existe. As minhas encenações são uma outra forma de teatro muito mais subtil porque não tenho aquela distância. Eu diria que enceno o contexto."

Uma dramatização que não distrai do essencial porque, como diz, "nada funciona separadamente." Uma ideia de obra de arte total onde todos os elementos são igualmente necessários, não existindo hierarquias: os pormenores não são maneirismos, mas exigências da ficção que Penalva quer que o espectador construa. Um método que garante a densidade e profundidade do todo. E é enquanto uma totalidade com partes constituintes indestrinçáveis que os trabalhos deste artista devem ser entendidos.

João Penalva recorre sempre a personagens enquanto elementos fundamentais das suas elaboradas ficções. A sua criação não procede de um método ou processo comum: "Os meus personagens são sempre criados para um contexto, surgem em função de uma peça. Mesmo que a peça não exista sem o personagem. Trata-se de um processo sem método, não é nada linear ou lógico."

As histórias não têm um tema dominante, mas são dominadas pelo acaso, pelo encontro e pelas descobertas que quotidianamente se fazem e que podem mudar a vida.

Numa das peças apresentadas na Gulbenkian surge um coleccionador para quem Panalva cria a biografia, os afectos e, claro, uma colecção de arte. No texto de apresentação de Loftur Ormsson podemos ler: "nasceu a 1 de Março de 1940, em Akureyri, no Norte da Islândia, sendo a sua família abastada e culta. Estudou medicina em Reiquejavique, sem, no entanto, ter terminado o curso. Aos vinte e dois anos mudou-se para Estocolmo, onde completou o curso de Engenharia Mecânica. Casou aos vinte e cinco anos, em Estocolmo, com Anna Horelli, filha de pais finlandeses, divorciando-se seis anos depois. [...] É coleccionador desde os dezassete anos, a sua colecção viria a somar, segundo as suas próprias contas 987 objectos [...]. Como coleccionador, Loftur Ormsson destingue-se dos demais pela peculiaridade do propósito que o levaria a colecionar: o desejo de, para cada objecto adquirido, lhe encontrar o seu par."

Uma história para a qual é escusado encontrar os pontos de contacto com a realidade: tudo pode ser e não ser ao mesmo tempo, pois a linha de separação entre a realidade e a ficção é ténue, porque não há distinção entre o produzido e o encontrado, entre a alegoria e a descrição dos factos do mundo. E esta indistinção intensifica a criatividade da experiências destas obras.

Como diz Penalva: "não me dá prazer reproduzir a realidade, mas sim integrar o que é real numa ficção. A ficção tem a vantagem de ser construída e de ser eu quem a fabrica. Uma ficção dupla porque é feita de imagens e palavras."

Mesmo sendo o texto uma dimensão fundamental do modo como faz as suas obras, não gostaria de escrever livros porque a maneira como escreve "é num contexto que não é comum: tenho a vantagem de ser artista visual e podendo eu juntar imagens e texto, porque é que eu haveria de querer escrever? A estrutura que criei no meu trabalho serve-me muito bem e não preciso de outra."

Esta estrutura é o que lhe permite construir uma obra que vive da permanente transformação dos textos em imagens e das imagens em texto: tudo elementos para serem lido e integrados num sentido que é criado a cada momento e individualmente por cada um dos seus leitores. E esta transformação é feita através da imaginação e, conclui João Penalva, "é isso que me interessa".