Cyrus Vance quis fazer do caso um exemplo de justiça

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Cyrus Vance Jr.
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O procurador-geral de Nova Iorque, Cyrus Vance Jr., sabia que, ao abrir um processo contra Dominique Strauss-Kahn e ao querer fazer dele um exemplo, estava a colocar a fasquia muito alta. E, ontem, o desmoronamento do caso arrastou consigo parte da credibilidade de Vance.

A imprensa não perdeu tempo ontem a lembrar-lhe isso. O procurador "encontra-se numa situação delicada" e a sua carreira profissional "poderá ser mais ou menos afectada", dizia Le Nouvel Observateur. O New York Times escreveu que o caso podia alterar "a fortuna política" do procurador.

O cargo de procurador-geral é, nos Estados Unidos, de eleição directa, e Vance enfrentará o escrutínio popular em 2013, depois de, em 2009, ter sido eleito com 91 por cento de votos para um mandato de quatro anos.

"Vance parece decidido a correr riscos quando pensa que o que está a fazer é justo", disse Roland Riopelle, antigo procurador, citado pela revista de economia Challenges. E a ideia de justiça equalitária está presente em todos os perfis que os jornais fizeram do procurador de 57 anos, filho de outro famoso Cyrus Vance, secretário de Estado de James Carter.

Cyrus Vance Jr. é descrito como um homem sério, habituado desde pequeno a mover-se nos círculos do poder, e que, recorda o Figaro, nos anos 80 era apresentado como a estrela em ascensão da procuradoria de Nova Iorque. É, além disso, considerado "sensível à causa feminina". Entre os muitos casos de que se ocupou, houve um que o marcou particularmente: o assassínio de Susana Jimenez, morta pelo antigo namorado. "Este dossier está na origem do interesse de Cyrus pelas medidas de prevenção na luta contra a criminalidade, particularmente no domínio da violência doméstica e íntima", conta o Figaro citando o site de Vance.

Apesar de ter nascido numa importante família política (tornou-se amigo de Caroline Kennedy, filha de JFK, e ter-se-á cruzado com o Presidente Lyndon Johnson em pijama quando passou uma noite na Casa Branca) e de ter estudado nas melhores escolas do país (Yale, Universidade de Georgetown), Cyrus Vance Jr. quis provar que conseguia vencer longe da esfera de influência do pai e, em 1988, mudou-se para Seattle, onde, em 1995, criou o seu próprio escritório de advogados, que se destacou na defesa com sucesso de 29 mil funcionárias da Boeing que acusavam a empresa de as discriminar por serem mulheres.

Vance regressou a Nova Iorque em 2004, dois anos depois da morte do pai, mas decidiu esperar até os dois filhos já serem crescidos para se candidatar a um cargo público. Ao ser eleito procurador por Nova Iorque, prometeu "agir com humildade" e reorganiza o gabinete para assegurar uma justiça de proximidade, criando várias unidades especializadas.

A Challenges descreve-o como "corajoso e intratável". Na procuradoria, Vance criou fama de duro - firme, honesto, credível, dizem os que trabalham com ele. Quando se candidatou ao cargo, disse acreditar que "todos merecem um sistema judiciário que seja justo e fundado na igualdade".

Ontem, ao sair do tribunal, justificou-se: o sistema americano visa "assegurar a igualdade" e os casos devem ser tratados "sem medo", "sem favoritismo". Alexandra Prado Coelho