Empresário tinha 85 anos

Salvador Caetano: Morreu um dos últimos portugueses que subiram a pulso

Luís Efig`
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Luís Efig`

Salvador Fernandes Caetano, que morreu ontem aos 85 anos, era um homem de poucas falas, que fugia da ribalta, mas encarava os problemas e apontava-os a dedo quando lhe pediam. "Neste país, a corrupção é cada vez maior e tudo passa", dizia ao PÚBLICO, em 2003, numa das poucas entrevistas que deu.

O facto de mostrar alguma desilusão com o rumo nacional também não o impedia de acompanhar a par e passo a vida do grupo que fundou, a Salvador Caetano, mesmo quando a liderança já estava nas mãos dos filhos e do genro, José Ramos. "Estou aqui todos os dias, quero saber o que se passa e nada se faz sem que eu saiba, mas não interfiro na gestão corrente", afirmava, aos 76 anos de idade, nessa mesma entrevista. Militante do PSD, não tinha "papas na língua": considerava que a justiça "precisava de uma remodelação completa" e que o país tinha "associações [empresariais] a mais" e "a maior parte não funciona".

Ninguém pode criticar Salvador Caetano, aliás, por lançar críticas e nada empreender por seu turno. José Abreu Teixeira, que trabalhou com o empresário durante 45 anos, lembra que nesta história não há berços de ouro ou heranças de família. "Era um self-made man, tinha a quarta classe e tudo o que fez foi à custa de trabalho, perseverança e leitura", recorda este ex-administrador da Caetano Bus, que começou a trabalhar com Salvador Caetano nos anos 1960, recém-formado em Engenharia. Teixeira atribui àquele "grande industrial" o papel de mentor: "Foi responsável pelo menos por 50 por cento do que sou hoje, da minha personalidade."

Ajudante de pintor aos 11

O envolvimento nos negócios começou desde cedo: aos 11 anos, Salvador Fernandes Caetano teve o primeiro trabalho como ajudante de pintor; aos 18, estabeleceu-se por contra própria numa oficina; dois anos depois abre a primeira empresa com dois sócios, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Seria a nova fábrica de carroçarias de madeira para autocarros que acabaria por dar origem, já sem os sócios, à Salvador Caetano, Indústria Metalomecânica e Veículos de Transporte, em 1949.

Já na altura, mostrava ser "um empresário com vistas largas e um homem de futuro": nos anos 1950, no concelho de Gaia, as pessoas trabalhavam três ou quatro meses e depois iam para a lavoura, mas Salvador Caetano tinha a preocupação "de dar trabalho às pessoas, arranjar maneira de mantê-las permanentemente ocupadas", lembra José Abreu Teixeira.

Foi desta forma que, nos anos 1960, o empresário iniciou contactos para representar a Toyota em Portugal, mesmo sem formação noutras línguas. Não foi isso que lhe tolheu os passos: viajou para Londres, onde aprendeu inglês, o que veio a tornar-se essencial na comunicação com o grupo nipónico. E em 1968 torna-se representante exclusivo da Toyota, um ano depois de ter assegurado o primeiro contrato de exportação de autocarros para Inglaterra.

Foi já no início dos anos 1970 que nasceu a fábrica de Ovar, que viria a montar veículos comerciais. Entretanto, os japoneses adquiriram 27 por cento da Salvador Caetano, em 1972, um passo que o empresário sempre esperou que desembocasse na produção de um veículo da Toyota em Ovar, para todo a Europa. "Espero que sim", afiançava já em 2003, quando questionado se acreditava realizar esse sonho. Mas nunca foi derrotado por não concretizar essa ambição.

Ao longo dos anos, torna-se importador e distribuidor da BMW, expande o fabrico de autocarros, e alia-se noutros negócios a empresários como Laurindo Costa (hoje já falecido, accionista da Soares da Costa), Rodrigo Leite (Tertir), Belmiro de Azevedo (Sonae). É também um dos fundadores do BCP e BPI. Ao comemorar os 50 anos de actividade, em 1996, tinha criado ou adquirido meia centena de empresas.

Outros que o conheceram lembram que era "implacável nos negócios" e que "as relações familiares ou de amizade de nada valiam quando era preciso fazer sangue". Mas foi essa resistência que se estendeu ao lado da vida privada: durante anos lutou contra a doença, fez várias operações no estrangeiro. E assim teve tempo para preparar o futuro cuidadosamente, dividindo os bens pela família para que nada corresse mal depois do fim (ver caixa). Abreu Teixeira lamenta que não haja outros assim: "Se Portugal tivesse meia dúzia de empresários como ele, seria um país muito diferente." com Rosa Soares