O sexo pairava nas casas, levitava

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Em Trás-os-Montes há um escritor, Manuel António Araújo, a sonhar uma revolução sexual campesina que nunca existiu. Ou existiu e só agora ouvimos falar dela?

"A aldeia das mulheres" é a crónica de uma revolução sexual numa aldeia transmontana em meados do século XX. O padre vangloria-se de ser bom na cama - "porque nunca demoro menos de quarenta minutos para me vir" -, descobrirá o pecado depois de renunciar ao amor; o sacristão gigante e informador da Pide é um ejaculador precoce e consola-se com uma égua; as mulheres descobrem os orgasmos múltiplos, depois de perderem os maridos.

Manuel António Araújo, 55 anos, professor de literatura portuguesa e teatro na escola Fernão de Magalhães, em Chaves, escreveu um livro com sexo explícito que não choca e com cenas gráficas que não são pornográficas. "No livro há sexo entre homens e entre mulheres. Com a maior naturalidade; aliás, o narrador narra tudo com naturalidade, até as angústias de identidade sexual das personagens."

Manuel António Pina tem uma poética vigorosa, rude, por vezes grosseira: "Há cenas no livro da responsabilidade dum narrador muito cru e provocador; o autor não se revê em algumas cenas; há, aliás, palavras no livro de que não gosto. Mas o narrador tem muita força e não me pede licença."

O imaginário de "A aldeia das mulheres" deve mais às memórias de infância do que à lascívia adulta: "Na minha infância, houve cenas sexuais inesquecíveis, o sexo era talvez a única coisa boa, o único refrigério das gentes pobres e trabalhadoras. O sexo hipercoisificava-se secretamente. Os homens iam cedo dormir, o sexo tinha-se de graça e era bom. Falo dos adultos, mas o sexo pairava nas casas, levitava a partir do momento que os pais se deitavam. E havia as cenas domésticas que não esqueço: os porcos a cobrirem as porcas, com as pessoas a verem, o dono da porca ou a dona, a olhar o borrão (nome do porco cobridor) a cobrir a fêmea. Lembro-me duma cena sugestiva. Numa dessas cobrições, um homem chega-se e apalpa o rabo da mulher enquanto os animais praticavam a função; pensavam que eu era pequeno demais e não se coibiram, mas as crianças são, muito cedo, grandes demais, comparadas com as medidas mentais que os adultos lhes atribuem. A cena linda dum garanhão a montar uma égua também ficou a fazer parte das minhas competências visuais. Mas nada disso seria decisivo se eu não nascesse a gostar de sexo."

"No meu tempo havia muita poesia, nada era oferecido de mão beijada como hoje. Os jovens de hoje são uns desencantados, oferecem-lhes sexo como cerejas. Não sabem o encanto e o frio no fundo da barriga por causa dum beijo dado na penumbra duma rua ou no vão duma escada."

Pousos, a aldeia de homens emigrados para o Brasil existiu mesmo com a sua organização matriarcal e o amor livre, com um padre a gozar os prazeres da vida amorosa, crianças a descobrirem a inocência do sexo em soutos e grutas, e mulheres a esbofetearem-se no cúmulo da excitação? O livro está algures entre a imaginação e aquilo a que o autor chama o depósito das suas vivências: "Georg Gadamer [filósofo alemão] dizia que muito ou quase tudo da vida do escritor está na sua obra. Numa perspectiva gadameriana, poderei dizer que Pousos existiu. Numa perspectiva ficcional, fui buscar Pousos ao tal depósito, visto ter nascido numa aldeia transmontana e vivido onze anos em Trás-os-Montes. Ficcionei a ambiência matriarcal, muito embora deva dizer que houve, ao longo da minha vida, uma ou outra mulher, mulheres velhas, mulheres sábias, que me inspiraram o ambiente matriarcal; em bom rigor, gostava que fossem as mulheres a governar o mundo."

Pousos não existiu. Outra aldeia gerou a ficção: "Sou de Rebordelo, mas vivi a minha infância em Lebução, que é uma espécie de Éden. Fui muito feliz lá. Há coisas que se ganham na infância, que se introduzem na pele e não mais saem. Gosto muito de ver as galinhas a debicar erva, a debicar sementes, gosto dessa estupidez meio cubista das galinhas. Gosto do campo, gosto da água, gosto do cheiro a bosta de boi. O tempo da história no romance é esse tempo. Como diz Camilo, há muito do que eu era nesse tempo."

E as personagens, onde as encontrou, em que aldeia terão vivido? "Há muitas pessoas das quais fui tirando bocados de vida, bocados de ADN para compor cada uma das personagens. Digamos que a imaginação é o fermento dessa composição. A Carolina é a poesia do meu livro. A Carolina é a personagem da inocência. A personagem da ausência do pudor, e a ausência do pudor em 'A Aldeia das mulheres' significa inocência e pureza inatas. Simplício é a outra forma de ingenuidade. Carolina era ingénua por não ter contactos sociais; Simplício é um pouco ingénuo por não ser muito esperto. São as duas únicas formas de ingenuidade que há: a que resulta da ausência de vivências e a que resulta da ausência de esperteza."

"Frequentei, em criança, um colégio salesiano, um colégio de padres, onde fui muito feliz. Há no livro partes desse meu tempo, como muitas das vivências do padre Julião enquanto seminarista. Há no clero uma cumplicidade corporativa, mas não acho que seja uma cumplicidade reivindicativa, era mais uma cumplicidade teosófica, digamos. Deus existia para todos, mesmo para os padres que tinham cerradas dúvidas."

"A cena da Fatinha e da Lili [as duas crianças que morrem queimadas enquanto os vizinhos assistem do lado de fora de casa, por a porta estar trancada] é uma das raras cenas que tirei, quase completamente, dum facto real. Aconteceu em Rebordelo, eu era pequeno, mas tenho quase nos ouvidos os gritos lancinantes das mulheres, como lobas acossadas, rua fora, a pedir socorro num desespero arrepiante."

A tragédia reside também na figura de Lourenço, coronel de infantaria com "uma pele engelhada" no lugar do pénis e que para castigar o seu "corpo infame" de gostar de homens recorre à "opção socialmente correcta" de afundar-se "no corpo das mulheres, no pecado, no excesso, nas orgias" - como o próprio confessa à mulher antes de morrer com um cancro na próstata.

Diz Manuel António Araújo: "São assim os ditadores, e seus acólitos: uns desequilibrados: ou andróginos ou pervertidos."