Agora somos todos transexuais

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O escritor britânico Mark Simpson viu que os homens estavam a mudar nos anos 90 e chamou-lhes metrossexuais. Depois apercebeu-se da ligação entre desporto, publicidade e pornografia e falou em "sporno". Desta vez diz que há um pouco de Pamela Anderson em todos nós e por isso somos "transexy". Está tudo explicado no seu novo livro e nesta entrevista

Apesar de se biografar como jornalista, não se lhe conhece produção noticiosa de relevo. Ensaísta é certamente, com êxito assinalável e forte queda para a auto-promoção. Nos últimos 20 anos, tornou-se cronista de todas as sexualidades, à boleia da ironia, do humor e de um refinado gosto "kitsch". Chegado aos 45 anos, orgulha-se de ser reconhecido como o autor da palavra "metrossexual". Escreveu assim num famoso texto de opinião dado à estampa pelo "Independent" em Novembro de 1994: "O homem metrossexual é solteiro, ganha bem e vive ou trabalha na cidade, que é onde estão as melhores lojas. É o segmento de mercado que mais pode crescer na próxima década. Nos anos 80 andava nas revistas de moda, nos anúncios televisivos e nos bares gay, agora está em todo o lado."

A palavra haveria de ficar esquecida até ao início dos anos 2000 e só então começou a circular em larga escala. Foi graças a ela que Mark Simpson ganhou fama e brilhou fora de um Reino Unido que o conhecia "grosso modo" como biógrafo oficioso de Morrissey, ex-vocalista dos Smiths.

O texto de 1994, e outros 38 publicados até 2009 ("The Independent", "The Guardian", "GQ", "Out", etc.), podem agora ser lidos num só volume: "Metrosexy: A 21st Century Self-Love Story", à venda no "site" da Amazon e apenas disponível para os aparelhos Kindle. O livro junta os textos "mais pertinentes e engraçados" de Simpson, qualifica o autor em entrevista ao Ípsilon, através de email. "Engraçados" é o termo, porque "quando se trata de abordar assuntos como sexo, sexualidade ou género é absolutamente necessário ter sentido de humor", diz. Além disso, ser lúdico na escrita é uma forma de compensar o facto de estarmos perante uma pessoa muito sisuda no dia-a-dia - palavras dele.

Metrossexualidade, sporno

Mas voltemos à metrossexualidade, antes de conhecermos outras ideias que o autor inventou entretanto. "O mundo estava cada vez mais mediatizado no início dos anos 90 e isso tinha efeitos na masculinidade. Tinha-se tornado muito mais narcísica, exibicionista e 'objectificada', no sentido que lhe atribuem as feministas", recorda. "A masculinidade tinha deixado de ser sempre heterossexual e nunca homossexual, sempre activa e nunca passiva, sempre desejosa e nunca desejada, sempre observadora e nunca observada. Ter sido o primeiro a aperceber-me disto dá-me um certo prazer, mas acho que ninguém me vai agradecer", ironiza.

Teremos entendido realmente o fenómeno? Talvez não, indica. A metrossexualidade "foi uma revolução banalizada pelos média". "Trataram o tema como se fosse, literalmente, uma questão de superfície: homens que cuidam da pele e usam pochete e por aí fora. Mas a metrossexualidade não se resume a homens que querem parecer mulheres ou gays; é, antes, a hipótese de os homens poderem ser tudo o que quiserem, de si para si mesmos."

Ainda assim, será possível desligar a metrossexualidade da voragem consumista actual? "Julgo que os homens sempre tiveram grande propensão para a sensualidade e sempre desejaram ser desejados, só que ao longo da História foram vistos como guerreiros ou trabalhadores ou construtores de impérios, não era suposto que se preocupassem com a beleza", começa por responder. E acrescenta: "Claro que o sistema de produção e reprodução do capitalismo primitivo foi substituído por imperativos de sensualidade e consumismo especialmente pensados para os homens. Até na China isso se vê. Depois de um período de rápido crescimento da produção, o consumismo é agora fomentado pelo Partido e encarado como a nova fase do desenvolvimento chinês. O comportamento hiper-metrossexual é muito comum entre os homens chineses da nova geração, chama-se a isso 'fenómeno herbívoro'", conclui.

Sempre atento às mudanças que a cultura mediática imprime à sexualidade masculina, Simpson chegou a 2006 com mais um neologismo na ponta da língua: "sporno" (deveríamos traduzi-lo por "desporno"?). Ele explica: "O 'sporno' é uma intensificação da metrossexualidade, como se tivéssemos passado de um filme erótico para um filme pornográfico gay. É uma forma orgulhosa e ainda mais assertiva de se ser metrossexual." Publicidade da Armani com Cristiano Ronaldo ou David Beckham praticamente nus? Calendários de parede com o rabo dos jogadores franceses de râguebi? A selecção de futebol de Itália em boxers nos anúncios da Dolce & Gabbana? Eis o "sporno" em todo o seu esplendor. "O que me parece notável e escandalosamente visível nas imagens 'despornográficas' é ânsia com que estes heróis desportivos se apresentam como autênticas galdérias. A indolência e a voluptuosidade dos homens ficou à solta depois da era da metrossexualidade e tão depressa não voltará a fechar-se no armário."

A revista do "New York Times" escreveu em Dezembro de 2006 que "sporno" era uma da "ideias do ano", mas o fenómeno, sustenta o autor, é "exclusivamente" europeu", já que "a componente protestante da cultura americana é muito forte e a noção do 'homem a sério' é um fetiche quase religioso".

A dúvida é: como explicar que atletas de modalidades consideradas homofóbicas, como o futebol e o râguebi, protagonizem uma aproximação inédita à estética gay? Simpson entende que o râguebi "não é assim tão homofóbico, porque exige um contacto físico permanente entre homens". Quanto ao futebol, é homofóbico, sim, mas sabe que a imagem padrão do homem heterossexual é uma poderosa fantasia gay. "Ao escolher futebolistas para protagonizar publicidade 'despornográfica', a indústria da moda está a tirar partido da homofobia que rodeia o futebol. Mesmo a carreira mediática de David Beckham baseou-se, em certa medida, na exploração da homofobia futebolística. Se o futebol não fosse homofóbico, a ideia do jogador que admira os seus admiradores gay, que usa sarongue [tecido com que mulheres e homens na Malásia cobrem as pernas] e é casado com uma mulher que anda de ténis, não seria tão apetecível para os média."

Por outro lado, Simpson reconhece que "Beckham e Ronaldo também ajudam a afrontar convenções e preconceitos". Conclusão: "Há um intervalo de tempo entre a pansexualidade oferecida pelas imagens 'despornográficas' e a mudança de atitude nas bancadas e nos balneários. Mas vai acontecer." Essa pansexualidade é o melhor sinal de que "estamos perante a falência das categorias gay e 'hetero'. É como se a sexualidade tivesse deixado de determinar o estilo de vida."

E a realidade transgénero, onde se encaixa? Quando cada vez mais países têm leis sobre a identidade de género, quando o actor Daniel Craig aparece travestido num anúncio do Dia Internacional da Mulher, quando o manequim de 19 anos Andrej Pejic desfila como homem e mulher para Jean-Paul Gaultier ou quando a revista espanhola "Candy" ganha tempo de antena na imprensa internacional, por ser a primeira publicação sobre a cultura transgénero - que se pode dizer? Pode-se dizer que quem ainda fala em androginia pouco mais conhece que o David Bowie de 1972. "Por causa da cultura cada vez mais mediática em que vivemos tudo se tornou hiper-real, sobretudo os géneros", explica o escritor britânico, deixando de parte a questão concreta da transexualidade e dissertando sobre o primado dos cuidados estéticos. "A utilização intensiva das operações plásticas, que por homens quer por mulheres, nomeadamente celebridades, comporta um certo apagamento das diferenças entre sexos. Não acho que os homens e as mulheres estejam a tornar-se andróginos, embora isso também se verifique, o que se passa é que a necessidade de destacar as características femininas ou masculinas através de operações plásticas ou esteróides, por exemplo, cria uma aparência excessiva a que chamo 'transexy' [transexual e "sexy"]. As diferenças entre os géneros tornaram-se tão artificiais e exageradas que hoje somos todos travestis com laivos de Pamela Anderson. Somos transexuais que mudam constantemente de homem para homem e de mulher para mulher."

Tudo dito, não pode a conversa terminar sem uma pergunta à boa maneira do século XX: de entre as figuras pop, qual a mais sensual, desafiante e mística neste momento? A resposta só aparentemente é ambígua: "Não conheço ninguém que encaixe nessa descrição, mas acho que Tom Hardy foi de longe a melhor coisa que vi no filme "A Origem" ["Inception", de Christopher Nolan, 2010]. Há algo muito estimulante nesta estrela de Hollywood. É casado, mas dono de uma personalidade bissexual. É como se a todo o tempo nos dissesse: 'Amor, não tenhas medo da grandeza'.".