Mini, média e grande ópera. Com um olhar para a música portuguesa

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"Madama Butterfly" para Março DR

A próxima temporada do Teatro Nacional de São Carlos, divulgada ontem em conferência de imprensa, faz uma aposta forte em títulos emblemáticos do repertório operático, que evidenciam uma clara vontade de captar o grande público. A abertura, dia 8 de Outubro, faz-se com o "Don Carlo", de Verdi, com encenação de Stephen Langridge, seguindo-se ao longo do ano a apresentação de óperas tão famosas como "Così fan tutte", de Mozart, "Madama Butterfly", de Puccini, e "Don Pasquale", de Donizetti. Mas também algum repertório menos comum (da autoria de Busoni e Rachmaninov) e a apresentação no Salão Nobre de uma ópera de Marcos Portugal, nos 250 anos do nascimento do compositor, e a estreia de quatro minióperas de dez minutos escritas por compositores portugueses contemporâneos.

"Todas as temporadas devem ter Verdi e Mozart, compositores basilares 2do repertório lírico", explicou Martin André, director artístico do teatro desde Agosto de 2010. "O Don Carlo não era apresentado no São Carlos desde 1977, é com grande satisfação que iniciamos a programação com esta produção de nível internacional e um elenco que tem no papel titular Fabio Sartori, um dos cinco grandes tenores do mundo, e Elisabete Matos como Elisabetta di Valois", referiu enquanto mostrava a maquete da produção, tentando exemplificar a mudança dos cenários.

"A temporada passada foi de transição, o compromisso possível dentro de uma planificação a curto prazo, pelo que é com orgulho que agora apresentamos uma verdadeira temporada, não obstante as limitações orçamentais", acrescentou depois de ter feito, juntamente com César Viana (vogal do conselho de administração do Opart), um balanço positivo em termos da adesão crescente do público, que culminou nas récitas completamente esgotadas da "Carmen" (em cena até 26 de Junho).

Martin André destacou também a produção do "Così fan tutte", uma produção da Vlaamse Opera (Bélgica) encenada por Guy Joosten, "que tem tido muito sucesso em várias casas de ópera europeias" (Janeiro) e "Madama Butterfly", dirigida por Antonio Pirolli numa produção da Real Ópera de Copenhaga (Março). Um programa duplo com "Turandot", de Ferruccio Busoni, e "Francesca da Rimini", de Rachmaninov, será pela primeira vez apresentado em versão encenada no palco do São Carlos (Maio) e "Don Pasquale", de Donizetti (Junho) encerra a temporada lírica na sala principal do teatro, onde será também apresentado o bailado "Romeu e Julieta", de Prokofiev, pela Companhia Nacional de Bailado (Dezembro).

Ópera em dez minutos

Além destas propostas, dominadas pela tradição e temática italiana, haverá uma ópera para crianças no Teatro Camões em Dezembro - "O Gato das Botas", do catalão Xavier Montsalvatge (1912-2002) - e dois espectáculos no Salão Nobre a cargo do Estúdio de Ópera. No âmbito de um projecto coordenado por João Madureira terão estreia absoluta quatro minióperas de dez minutos encomendadas a compositores portugueses seleccionados por concurso em torno da temática Amor, Traição e Morte (com encenação de Luís Miguel Cintra e a direcção musical de Pedro Neves) e os 250 anos do nascimento de Marcos Portugal (1762-1830) serão assinalados com "O Basculho da Chaminé", ópera cómica estreada em 1794 em Veneza e reposta (em versão portuguesa) no Teatro da Rua dos Condes. Com encenação de Pedro Wilson e direcção musical de Ricardo Bernardes, a iniciativa insere-se num programa mais vasto coordenado pelo musicólogo David Cranmer.

Alguns dos cantores do Estúdio de Ópera participam também nas restantes produções, nas quais há uma considerável percentagem de portugueses (Joana Seara, Lara Martins, João Merino, Eduarda Melo, Jorge Vaz de Carvalho, Mário João Alves, entre outros). Se no futuro o Estúdio de Ópera acabará por se diluir ou terá uma estratégia mais definida é algo que continua em aberto, tal como a reestruturação do Opart, que só poderá ser levada a cabo após a tomada de posse do novo governo.

97 espectáculos

Giovanni Andreolli assume oficialmente as funções de maestro titular do Coro, mas a maestrina da Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), Julia Jones, não terá o seu contrato renovado. "É normal os maestros titulares rodarem", diz Martin André, maestro de formação que irá assumir informalmente a liderança da orquestra. "Desaparece o cargo de maestro titular, vou dirigir cerca de um terço das óperas e concertos e os restantes são atribuídos a maestros convidados."

A temporada da OSP conta com 20 concertos, na sua maioria agrupados por ciclos temáticos (Homenagem a Liszt, ciclo W. Walton e Wagner, Rachmaninov e a Música Russa, na qual haverá intercâmbio com a Orquestra Gulbenkian). A parceria com outras instituições passa também pela encomenda conjunta (São Carlos, CCB e Casa da Música) de uma peça (Onze Cartas) a António Pinho Vargas, com estreia a 19 de Novembro.

Dez concertos no Salão Nobre (oito com a orquestra e dois com o coro), sempre com obras portuguesas em programa, e 14 concertos Foyer Aberto completam um total de 97 espectáculos. "Vemos a inclusão da música portuguesa como algo normal e não excepcional", diz César Viana, que anunciou ainda que está a ser preparada uma produção de La Borghesina, de Augusto Machado, para a próxima temporada.

Notícia substituída no dia 15/06 às 09h35
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