Sindicato só vai assegurar ligações às ilhas

Greve na TAP ameaça deixar em terra 320 mil passageiros

Parpública diz que postos de trabalho na TAP podem ficar em causa
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Parpública diz que postos de trabalho na TAP podem ficar em causa Manuel Roberto

A greve convocada pelos tripulantes, em protesto contra a redução de um trabalhador a bordo dos aviões, poderá deixar em terra mais de 320 mil passageiros da TAP, durante os dez dias de paralisação previstos.

No pré-aviso que o sindicato fez chegar à companhia, compromete-se a assegurar apenas as ligações aos Açores e Madeira. A continuidade da empresa, que prevê uma perda diária de cinco milhões de euros, pode estar em risco, alertou o accionista Estado.

A greve foi agendada para um período de pico da operação, durante o qual a TAP realiza, em média, 120 voos diários, nos quais transporta 35 mil passageiros. Tendo em conta que as frequências para as ilhas (nas quais viajam diariamente entre 2500 e 3000 pessoas) deverão ser efectuadas, em regime de serviços mínimos, os dez dias de paralisação vão afectar mais de 320 mil passageiros.

Ontem, o presidente da companhia de aviação, Fernando Pinto, confirmou que as perdas deverão chegar aos cinco milhões de euros por dia. Este valor diz respeito às receitas que vão ficar por arrecadar, se os aviões ficarem em terra. Falta ainda descontar a poupança com combustível e pagamento de salários, mas também somar as despesas extraordinárias com fretamento de aviões e tripulações de outras empresas e apoio aos passageiros (alojamento e alimentação).

Estes cálculos levaram o gestor brasileiro a alertar, numa conferência de imprensa convocada de emergência para reagir ao anúncio do sindicato, que a empresa "pode fechar" por causa destes protestos, que incidem sobre os dias 18, 19, 20, 25 e 26 de Junho e ainda 1, 8, 15, 22 e 29 de Julho. O mesmo discurso foi repetido mais tarde, num comunicado enviado às redacções, pela Parpública.

A holding que gere as participações do Estado) afirmou que "a greve anunciada coloca sérias restrições à continuidade operacional da empresa", acrescentando que põe em causa "os compromissos financeiros por ela assumidos e também a perenidade dos postos de trabalho que assegura".

Acusações mútuas

O conflito entre a TAP e os tripulantes começou em 2008, quando a possibilidade de reduzir o número de trabalhadores a bordo foi colocada, pela primeira vez, em cima da mesa. Desde então, as partes têm vindo a negociar um acordo, tendo inclusivamente assinado um entendimento há dois anos, no qual decidiam partilhar os proveitos da medida.

Em 2010, com as imposições de contenção de custos no Sector Empresarial do Estado (SEE), a redução da tripulação entrou no plano de corte de custos da TAP, que, tal como as restantes empresas públicas, está obrigada a emagrecer as despesas operacionais em 15 por cento. Esta medida permite uma poupança aproximada de 14 milhões de euros - de um bolo total de 145 milhões que a transportadora se propôs economizar.

Mais recentemente, a empresa e o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) iniciaram conversações para avançar com o emagrecimento da tripulação. Mas, ao terceiro encontro, as negociações foram suspensas. A TAP acusou o sindicato de pedir contrapartidas "fora da realidade" pela eliminação de um tripulante, como a obrigação de uma folga antes e depois do período de férias. E o sindicato acusou a TAP de ter fechado as portas ao diálogo. Na última reunião, "fecharam o dossier, disseram-nos boa tarde e viemos embora passado cinco minutos", relatou o presidente, Luís Parente.

É por este motivo, e por só terem sabido que a redução do tripulante iria efectivar-se a partir de Junho quando consultaram a programação de trabalho para este mês, que os dirigentes do SNPVAC dizem que a companhia de aviação tomou uma "decisão unilateral".

UGT aponta dedo à TAP

O secretário-geral da UGT, que esteve ontem presente na conferência de imprensa convocada pelo sindicato, acusou a empresa de "violação grosseira do direito à administração colectiva e do acordo tripartido" para a competitividade e o emprego, assinado entre o Governo e os parceiros sociais. "Consta nesse acordo que as medidas de austeridade não podem pôr em causa o direito à administração colectiva no SEE", rematou.

Tanto a TAP como SNPVAC mostraram-se disponíveis para negociar, mas nenhum assumiu que dará o primeiro passo para retomar o diálogo. Caso não cheguem a um entendimento em breve, a transportadora aérea viverá um dos maiores períodos de greve da sua história, já a partir de 18 de Junho.