Crítica

A Árvore da Vida

A liturgia "malickiana" tem sido edificada há três décadas, desde que o realizador iniciou os trabalhos de construção da sua invisibilidade (a seguir a "Days of Heaven", 1979) e depois com seu regresso, 20 anos mais tarde, já mito, com "A Barreira Invisível". Se há coisa que "Tree of Life" explicita é, por um lado, um efeito de intimidação que Malick e os seus filmes são capazes de produzir - do estilo: se estamos perante algo de tão fora da normalidade, a nossa relação com isso só pode ser...extraordinária; por outro, que o cinema de Malick parece ter criado a sua liturgia e aí cristalizado, e nesse sentido "Árvore da Vida" é uma autocelebração. Nesta nova missa os rituais são os mesmos, a câmara faz tangentes a vultos que não chegam a ser personagens (Sean Penn não chega a ser actor), e apesar das várias vozes não há contracampo. Só ele fala. Malick? Deus? Uma oportunidade, então, para regressar a um objecto descarnado como "Badlands", já extraordinário e ainda não autocelebratório: um impossível "Bonnie & Clyde", um filme que, ironicamente, estava contra os mitos. Estávamos em 1973, ainda não podíamos saber...