Passos Coelho defende redução de feriados, apoiado pela CIP e criticado pela esquerda

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Passos Coelho em campanha preferiu não discorrer sobre o tema dos feriados nelson garrido

Em vez de reduzir as férias, como sugeriu Angela Merkel, o líder social-democrata prefere cortar nos feriados. BE, PCP e UGT criticam a proposta. O PS manteve o silêncio

Pedro Passos Coelho entrou na campanha eleitoral lançando mais uma proposta polémica. Numa entrevista à Lusa, no dia do arranque oficial da campanha eleitoral, defendeu a redução do número de feriados e que alguns destes dias festivos sejam encostados aos fins-de-semana.

Questionado sobre se concorda com a ideia defendida pela chanceler alemã, Angela Merkel, de que é preciso reduzir os dias de férias em Portugal, Passos Coelho contrapôs: "Nós precisamos é de reduzir o número de feriados, isso sim." E acrescentou: "De resto, tenho muita pena de que aquele projecto que foi apresentado por duas deputadas independentes do PS não tivesse sido levado adiante." Uma referência à proposta de Maria do Rosário Carneiro e Teresa Venda que acabou por ser travada pela direcção da bancada socialista.

"Nós temos demasiadas datas com feriados que muitas vezes ocorrem ao longo da semana em períodos que quebram por inteiro a produtividade de todo o país. Podemos na mesma celebrar esses feriados, sem que isso se torne um empecilho para a capacidade de produzir mais e de sermos mais competitivos", considerou Passos Coelho. Para o líder social-democrata, é possível haver "maior racionalidade" e "não sobrecarregar em excesso o calendário do trabalho semanal com feriados que seja perfeitamente possível encostar ou ao fim de semana ou a pontes mais curtas".

O presidente do PSD adiantou que vai "com certeza" apresentar uma proposta nesse sentido, ressalvando que não pretende "acabar com os feriados em Portugal" e que "ninguém deixará de celebrar o Natal", nem datas como o 25 de Abril ou o 1.º de Maio. E recordou o caso da Páscoa deste ano, em que, "em plena negociação do pedido de ajuda externa, estava a equipa externa toda a trabalhar intensamente e o Governo a dar dispensa de ponto na Quinta-Feira Santa", o que permitiu "cinco dias" de descanso aos funcionários públicos. "É um absurdo", considerou.

Mas nas acções de campanha eleitoral do dia, preferiu não se alongar sobre o assunto. Primeiro, em Leiria, Passos Coelho disse que não falava da proposta para "não haja quem inverta as propostas do PSD". Uma hora depois, a umas dezenas de quilómetros de distância, em Pombal, Passos não quis concretizar mais do que dissera, e justificou a ideia com a necessidade de manter a produtividade. "Quero apenas reafirmar o que disse: Portugal precisa de olhar para os feriados que calham a meio da semana, e de um modo geral, não sempre, poder encostá-los mais ao fim-de-semana, de modo a não quebrar a produtividade ao longo da semana". O líder do PSD acredita que o país o perceberá, por que o "país inteiro sabe que vai ter de trabalhar muito para pagar os desvarios destes anos".

"Velha como a exploração"

As reacções vieram da esquerda, à excepção do PS, que ignorou o tema. Logo pela manhã, Jerónimo de Sousa reagiu à proposta classificando-a como "tão velha como velha é a exploração". Na aldeia de Baleizão, no distrito de Beja, onde esteve para assinalar os 57 anos do assassinato de Catarina Eufémia, lembrou que o PSD já havia defendido a redução do número de feriados, em 1994, quando Cavaco Silva era primeiro-ministro com maioria absoluta - a proposta foi então travada pelo Presidente da República, Mário Soares. E que a defesa dessa ideia era a "demonstração clara que afinal os direitos conquistam-se, mas não são eternos".

Mariana Aiveca, deputada do BE, considerou que o presidente do PSD "não está a acertar no alvo e está a direccionar o seu ataque sobre os trabalhadores". Aiveca lembrou que Portugal "tem mais tempo de trabalho anual do que os alemães" e defendeu que o "problema da competitividade não se resolve pela redução de férias ou feriados", mas pela criação de valor nas empresas, modernização e acréscimo de formação. A dirigente bloquista defendeu ainda que é um erro "baixar salários" e "aumentar o tempo de trabalho", já que não é assim que se resolve um problema "estrutural" do país, que é a falta de "competitividade e produtividade". Com esta proposta, Passos Coelho, segundo os bloquistas, "não responde à questão essencial".

Mais suave, o secretário-geral da UGT, João Proença, considerou que a redução do número de feriados, proposta pelo PSD, "não é prioritária", lembrando que Portugal é o segundo país da União Europeia (UE) em que se trabalha mais horas. "Portugal está em segundo lugar relativamente aos países que mais trabalham na UE, logo a seguir à Inglaterra. Isto é um dado real, do que as pessoas efectivamente trabalham, com pontes ou sem pontes", afirmou João Proença à Lusa.

O secretário-geral da UGT salientou também que é preciso ter presente que os feriados em Portugal têm um significado específico associado ao dia em que são celebrados, pelo que torná-los móveis, juntando-os aos fim de semana, poderá desvirtuá-los. "Será que vamos comemorar o 25 de Abril no dia 26 ou no dia 24, ou outros feriados de profundo significado religioso ou outro? É isso que é também fundamental ter presente", acrescentou.

Já o presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), António Saraiva, elogiou a "sensatez" da decisão do líder do PSD, Pedro Passos Coelho, que propôs a redução do número de feriados para diminuir o absentismo em Portugal. "Achamos a proposta coerente com o que tem vindo a ser dito pelo PSD e por nós próprios, que já tomámos essa posição quando da visita do Papa", afirmou. O representante dos patrões salvaguardou que defende estas ideias, "sem colagem" a nenhum partido. "Os nossos eleitores são os empresários, mas neste caso elegemos e elogiamos esta sensatez de Pedro Passos Coelho".