"Estamos a ganhar a batalha da renegociação da dívida"

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MIGUEL mANSO

Louçã acredita que a reestruturação da dívida poderá ser uma solução concretizável. Para já, o BE conseguiu pôr o assunto na agenda. "Há uma semana era tabu absoluto"

O coordenador do Bloco de Esquerda (BE) e cabeça de lista por Lisboa, Francisco Louçã, entende que as eleições vão assinalar o início de um novo ciclo político. Esta "gigantesca transformação" da política nacional começou com a "criação de raízes sólidas", traduzida na aproximação do Bloco ao PCP, a socialistas e a independentes. Louçã avisa: "Que tenham cuidado os partidos que dão por certo que têm nas mãos a política durante toda a sua vida. Esses partidos estão a chegar ao fim do seu prazo."

O PCP anunciou que irá apresentar uma proposta de renegociação da dívida quando forem reiniciados os trabalhos no Parlamento. O BE poderá acompanhar essa iniciativa?

Não conheço a proposta. A renegociação é um debate que tentamos conduzir com enorme energia. Há uma semana era tabu absoluto. [Ontem] o grupo do euro já discutiu uma renegociação limitada da dívida da Grécia, depois de ter negociado o juro. O Eurogrupo e o Conselho Europeu estão a discutir a renegociação do juro da dívida irlandesa. E Passos Coelho chegou a admitir no debate comigo que tem de haver uma renegociação, pelo menos, do juro. Estamos cada dia e rapidamente a ganhar a batalha de renegociação da dívida.

Isso não significa que o Governo que sair das eleições opte por essa solução.

Há três partidos que têm o mesmo programa. Paulo Portas diz todos os dias que faz Governo com um e faz Governo com outro e como ele é tão importante para fazer Governo. O PSD ataca o PS sobre questões de formação profissional e apresenta uma proposta nitidamente em cima do joelho sobre o único campo onde há uma pequena margem de negociação, que a taxa social única. O PS, se porventura sabe o que propõe, esconde como um tabu religioso o que vai fazer. Portanto, não dizem nada aos portugueses. Tenho a certeza que as sondagens vão sempre dizer enganadoramente que haverá empate técnico.

As sondagens não têm sido favoráveis para o BE.

As sondagens são feitas por institutos que diziam que Cavaco Silva teria 72 por cento nas eleições. Nestas eleições o mapa político muda todos os dias. E mudará mais com a confrontação de uma solução em que os três partidos criam um muro de silêncio à sua volta e discutem tudo menos o que importa. Há pelo menos uma certeza: Portugal é o único país da Europa em recessão no próximo ano e porventura o único do mundo. Ou seja, eles asseguram que o resultado da sua política é a destruição da economia e uma incompetência generalizada. Da semana passada para esta a percepção pública da renegociação da dívida mudou de tal modo...

Notou isso onde?

Entra pelos olhos dentro que medidas elementares de protecção da economia passam por alterar este curso. Se a nossa dívida não for os 160 mil milhões de euros daqui a um ou dois anos, mas for mais 30 mil milhões de juros e mais outro agravamento e juros que disparam de novo para um país que não tem capacidade de pagar, isso significa a bancarrota. Colocamo-nos no único lugar onde há sensatez, apresentando medidas para combater o défice fiscal e orçamental, criar emprego e reestruturar a economia para combater o endividamento. Qualquer português sabe que eu tenho razão quando digo que a recessão significa que Portugal sai com uma dívida maior e incapaz de pagar.

Se o PS ganhar as eleições, sem maioria, quais as condições que o BE poderá apresentar para integrar uma coligação governamental?

Essa hipótese não existe. O PS só quer fazer um acordo com o PSD e o CDS. Poderá ter dificuldades em fazê-lo, mas só quer isso. O PS já não é um partido do arco social-democrata. Define-se como um partido do centro e às vezes, nos dias feriados, é de centro-esquerda. Está amarrado a um acordo com as políticas liberais mais agressivas que Portugal jamais conheceu. Alguém podia imaginar, de entre os fundadores do PS, que o PS viria a propor a privatização dos Correios? Ou que a inadaptação passasse a ser uma causa justa para o despedimento?

Porque é que os dirigentes históricos do PS não contestam publicamente essas opções?

Terá de perguntar-lhes. Mas estou certo de que há muitos socialistas que compartilham estas preocupações. Uma parte importante dos eleitores socialistas sente como uma traição profunda o facto de Sócrates ter entregado a José de Mello o hospital de Braga. Não se trata de um defeito do PS, mas um feitio desta forma de governação, determinada a uma acumulação de vantagens, de benesses e mordomias, que vivem na órbita do Estado. José Sócrates terá 95 anos e ainda estaremos a pagar as auto-estradas e as parcerias de contratos com a Mota-Engil, por exemplo. O Estado não pode ser refém destes interesses particulares, como tem acontecido ao longo do tempo.

Qual será um bom resultado para o BE?

Ter mais votos e mais deputados.

Acima dos 10 por cento?

Dar um passo importante para que o BE possa contribuir para um Governo de esquerda. Queremos mais votos, mas também queremos acumular mais força para responder a uma situação difícil que exige uma alternativa à esquerda. Nos próximos três anos a política vai transformar-se muito mais. O que estamos a fazer é a criar raízes sólidas de uma transformação gigantesca da política portuguesa. Que tenham cuidado os partidos que dão por certo que têm nas mãos a política portuguesa durante toda a sua vida. Esses partidos estão a chegar ao fim do seu prazo.