Villas Boas versus Domingos

O menino da Foz e o gaiato de Leça

Villas-Boas e Domingos cumprimentam-se após o jogo do campeonato no Dragão
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Villas-Boas e Domingos cumprimentam-se após o jogo do campeonato no Dragão nFactos/Gabriel Tavares (arquivo)

Um é um menino da Foz, na linhagem e até no perfil e na fisionomia "very british". O outro saiu de uma família que vivia no limiar da pobreza em Leça da Palmeira, então ainda longe de estar na moda. O primeiro é bisneto de viscondes, o segundo teve de passar por um regime alimentar especial quando, aos 13 anos, foi viver para o lar dos jogadores do FC Porto.

As origens, vivências e gerações (há uma diferença de nove anos a separá-los) diversas acabaram, naturalmente, por se reflectir nos seus perfis psicológicos. André Villas-Boas (33 anos) e Domingos Paciência (42 anos) são diferentes em quase tudo, menos nas personalidades fortes, na autoconfiança, nas ideias próprias e na vontade de ganhar.

Claro que há pontos de contacto que ajudam a perceber boa parte das qualidades que partilham. São ambos portistas confessos, e tanto Domingos Paciência como André Villas-Boas cedo aprenderam a beber a cultura que emana do Dragão. Mas, enquanto o primeiro foi um jogador de elite, Villas-Boas teve de conviver com a frustração de não ter passado dos campeonatos distritais. Mas isso não impediu que ambos tivessem sido prematuros na decisão de investir na carreira de treinadores.

Nesse aspecto, Villas-Boas foi mesmo inigualável, numa história repetida até à exaustão nos últimos tempos (até por também ter começado por incluir Domingos, ainda que indirectamente), e que, como é sabido, envolveu a vizinhança com Bobby Robson, que achou piada à desfaçatez do jovem e aceitou tornar-se no seu patrono.

Foi um primeiro sinal do descaramento que Villas-Boas revelou em vários momentos importantes na sua curtíssima carreira. Depois de ter concluído o 12.º ano no Colégio do Rosário, no Porto, de ter decidido que já não ia seguir o curso superior ligado ao jornalismo e de ter aproveitado as portas que Robson lhe abriu para tirar alguns dos melhores cursos de treinador da Europa, Villas-Boas foi coordenar o futebol jovem das selecções das Ilhas Virgens, escondendo dos dirigentes que só tinha 21 anos.

De regresso a Portugal, começou a trabalhar como adjunto nos escalões de formação, mas também não demorou muito a questionar os seus superiores sobre o motivo por que não lhe era entregue a responsabilidade principal de uma das equipas. E não foram muito diferentes as razões que levaram às desinteligências com José Mourinho e restante equipa técnica do "Special One". Durante todo o tempo em que estiveram juntos, raras vezes foi dada a Villas-Boas a possibilidade de fazer trabalho de campo, porque não é isso que Mourinho exige a quem manda observar os adversários. E o jovem adjunto não aceitava bem aquilo que via como uma desconsideração. De tal forma que, certo dia, ter-se-á virado para Mourinho e restante equipa técnica e dito algo como isto: "Quando eu for treinador principal, vou ser melhor que vocês todos juntos."

Esta frase terá deixado os nervos em franja a alguns dos restantes membros da equipa técnica, não tanto a Mourinho, que, durante uma primeira fase, até tentou a conciliação. Mas, a partir de dada altura, a rotura tornou-se inevitável. André Villas-Boas acabaria por sair para a Académica, mas esteve anteriormente também no pensamento do presidente do Sp. Braga, antes de António Salvador optar, curiosamente, por... Domingos Paciência.

As conversas com Domingos

Os sinais de que Domingos iria ser treinador quando pendurasse as chuteiras foram menos óbvios, até tendo em conta a sua pacatez. Mas também se revelaram e foram percebidos por quem tinha alguma confiança com o então goleador portista. No tempo em que os jornalistas, depois dos treinos, ainda podiam esperar pela saída dos jogadores e dos treinadores numa sala com sofás do antigo Estádio das Antas, era comum escutar Domingos a falar sobre questões ligadas à política desportiva, à capacidade técnica deste ou daquele jogador, ou até sobre opções e desenhos tácticos. Percebia-se que Domingos se estava a preparar e a documentar para quando chegasse a altura certa. Outros colegas (incluindo alguns que acabaram por vir a usar a braçadeira de treinador) preferiam outros temas, como as novidades automobilísticas...

Os cursos de Domingos foram tirados em Portugal e é o próprio a reconhecer que muito do seu conhecimento é empírico: "Fui aprendendo com o tempo, seguindo os conselhos dos treinadores com quem trabalhei." Diz ainda ter ideias bem definidas sobre liderança: "Observo, tomo o pulso ao balneário e, a dado momento, tiro a conclusão, descubro aqueles que estão comigo por motivação. Não obrigo ninguém a ir atrás de mim, mas, naturalmente, opto sempre pelos mais motivados e pelos que querem ganhar." De resto, há quem considere que o balneário bracarense ficou bem mais unido quando o clube aparentemente desinvestiu em Janeiro, aceitando vender alguns dos melhores jogadores e dispensar outros.

Domingos esteve durante muito tempo disposto a renovar pelo Braga. Mas Salvador hesitou em demasia e acabou por se virar para Leonardo Jardim, que se vinha destacando no comando do Beira-Mar. Posteriormente, pressionado pelos adeptos e pelas vitórias da equipa, o presidente bracarense ainda ensaiou o "número" da proposta de última hora para a renovação, sabendo à partida que ela ia ser recusada. Não só por ser financeiramente desinteressante, mas porque Domingos jamais iria quebrar a palavra que dera ao Sporting.

Nesse aspecto, teve uma reacção distinta da de Villas-Boas, que, depois do convite do FC Porto, rompeu o compromisso que chegou a assinar com o clube de Alvalade. Na altura, foi recordado um episódio tido por similar, e que tinha envolvido Domingos há muitos anos. Terminada a ligação de dois anos ao Tenerife, o jogador seguia para Alvalade para se ir encontrar com os dirigentes do Sporting. A meio caminho, recebeu um telefonema de Pinto da Costa e voltou para trás. A diferença é que Domingos ia a Lisboa apenas para negociar, não tendo ainda nenhum compromisso assumido...

Villas-Boas responde à letra

Ambos os treinadores são frontais e sem papas na língua quando as circunstâncias os obrigam. Villas-Boas já respondeu grosso a Jorge Jesus e a Luís Filipe Vieira, bem como a outros protagonistas do futebol português. Mas mostrou humildade e sensatez quando pediu desculpa e reconheceu que as suas críticas tinham sido infundadas, um dia depois de ter arrasado o árbitro Carlos Xistra. Mas este episódio, na sequência do jogo Guimarães-Benfica, constitui uma amostra demasiado reduzida, e não chega ainda para concluir como irá ele reagir numa fase menos positiva da carreira.

Por estratégia ou por se querer distinguir claramente de Mourinho, Villas-Boas raramente aceita falar na primeira pessoa, preferindo sempre enaltecer os méritos dos jogadores e da organização do clube que tem por trás. Domingos é mais reservado do que André Villas-Boas, que gosta de brincar com os futebolistas nos treinos e no balneário. Este gosta de estar perto dos jogadores (por vezes quase se confunde com eles, algo em que é muito parecido com Mourinho), e essa sua natural forma de estar ajuda-o a criar empatia. Já se tinha notado na Académica e passou a ser ainda mais nítido quando Pinto da Costa o deixou sentar na sua "cadeira de sonho".

Quando o presidente portista se decidiu pela contratação de André Villas-Boas, Domingos não terá deixado de ficar com o seu orgulho algo ferido. Afinal de contas, tinha acabado de lutar pelo título nacional até à última jornada e conquistado o melhor resultado de sempre da história do Sp. Braga. Mas o ex-goleador portista já terá ultrapassado a frustração natural de quem jogou no clube 12 dos seus 14 anos de futebolista profissional. Para isso, muito terão contribuído os êxitos à frente da equipa bracarense, bem como algumas declarações de dirigentes dos mais diversos quadrantes. Uma das mais relevantes, ouviu-a de António Salvador, na festa que o Braga organizou no final da época passada: "Ao fim de sete anos, houve um treinador que comungou comigo a ideia de ser campeão". Acto contínuo, levantou-se para ir dar um abraço ao treinador. Mas nem isso impediu que, meio ano depois, Domingos se tornasse num técnico descartável...

Tanto Domingos como Villas-Boas são avessos à exposição mediática da sua intimidade e vida familiar. Por opção pessoal, o técnico portista não deu ainda uma única entrevista individual, remetendo os jornalistas para as conferências de imprensa, onde aceita responder mesmo às questões mais laterais. Domingos Paciência nunca teve, oficialmente, empresário, ficando a ideia que algo de idêntico se passa com Villas-Boas.