Crítica

Gerir o espaço

O "tanztheater" de Pina Bausch filmado por Wim Wenders resulta no melhor filme do seu realizador em muito tempo e num marco inescapável na utilização do 3D

Sim, nós sabemos que o 3D é uma das chaves que faz de "Pina" o objecto maravilhoso que é. Mas, por um momento, vamos ignorar esse lado de "atracção de feira" que o filme se afadiga em afastar sistematicamente. Porque puxar o 3D para primeiro plano é achar que é a técnica que faz o filme, e "Pina" é o melhor exemplo de ser o filme a fazer a técnica.


"Pina" é o culminar de um projecto de duas décadas de Wim Wenders trazer para o cinema o "tanztheater" da coreógrafa alemã Pina Bausch, falecida em 2009. O realizador disse repetidamente (e repete-o na entrevista onde o Ipsilon esteve presente) que nunca soube como fazer justiça à arte de Bausch até o 3D digital surgir na equação - e, face aos resultados, percebe-se porquê. O relevo estereoscópico permite "abrir" o palco, criar uma profunidade de campo que repõe no écrã o valor físico do corpo. Já não assistimos apenas ao registo de uma performance, mas sim a uma recriação de um movimento no espaço que explica porque é que Wenders disse que nenhum cineasta alguma vez foi capaz de explorar o movimento como Bausch o fez nas suas criações.

O que o realizador de "Paris, Texas" faz é, apenas, gerir o espaço. Com uma modéstia extraordinária (até improvável para alguém com a sua longuíssima, e aclamada, carreira), Wenders apaga-se por trás da obra da coreógrafa, cruzando quatro criações suas filmadas na Ópera de Wuppertal com solos dos bailarinos da companhia filmados em exteriores de Wuppertal, imagens de arquivo, momentos em que os bailarinos e colaboradores recordam Bausch e os conselhos que ela lhes deu. E essa gestão do espaço é crucial para que as peças da coreógrafa ganhem vida no écrã para lá de um simples registo de uma "performance" - é isso que torna "Pina" em cinema, em grande cinema, atento a cada gesto, a cada movimento, a cada emoção de um modo que só o cinema permite, mas sem nunca trair nem nunca nos fazer esquecer que a arte de Pina Bausch não é uma arte técnica mas sim profundamente humana.

E, por paradoxal que possa parecer, a utilização magnífica que Wenders faz do 3D é o que devolve a esta arte, transposta para o grande écrã, toda a humanidade que se perderia facilmente numa simples filmagem cinematográfica convencional, tornando o "tanztheater" em "tanzfilmtheater" com uma impressionante sensibilidade comum.

"Pina" podia cair muito facilmente numa espécie de "greatest hits" filmados de Bausch, mas em vez disso é o melhor Wenders em quase uma década, objecto tão inclassificável como a arte da coreógrafa: um filme que não é documentário, que não é espectáculo filmado, que não é cinema narrativo, mas que é isso tudo ao mesmo tempo. E que é magnífico.