Bloco aposta em dissidências no PS depois das legislativas

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BE espera construir uma plataforma de alternativa governamental NUNO FERREIRA SANTOS

Direcção do BE crê que as medidas impostas pela troika vão redefinir o espectro político. E esperam acolher dissidentes socialistas

O Bloco de Esquerda (BE) sabe que terá de trilhar um "caminho muito longo" para conseguir formar um governo de esquerda, admitiu ontem Francisco Louçã, no encerramento da VII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda (BE). Nesse trajecto, os bloquistas esperam assistir a dissidências no PS (e à consequente aproximação de socialistas ao Bloco), acreditando que isso aconteça no período pós-eleições legislativas e nas fases de aplicação das medidas de austeridade impostas pela troika.

Ao que o PÚBLICO apurou, os bloquistas entendem que o impacto da concretização das contrapartidas ao resgate financeiro servirá para separar as águas, operando uma redefinição do campo político.

Ao atrair militantes socialistas de renome para o seu campo, o BE espera ganhar força para construir uma plataforma de alternativa governamental que reúna também o PCP e independentes. Será esta a estratégia política da direcção do BE para os próximos tempos, existindo uma especial aposta em eventuais dissidências no PS. Nenhum bloquista ousa, por ora, em avançar com nomes, mas não terá sido por acaso que Louçã rematou ontem a sua intervenção com um "agora é preciso um 25 de Abril novo", tema sensível a um certo segmento de dirigentes socialistas que têm operado alguma demarcação da direcção do PS.

Ontem, ao princípio da tarde, no discurso de encerramento da convenção, Louçã não só assumiu que esse governo de esquerda que o BE quer formar tem pela frente "um caminho muito longo", como também salientou que serão necessários "mais" diálogos. "Todos os diálogos só demonstram que são precisos mais. Quem vai à luta e procura convergências será capaz de fazer uma esquerda grande", afirmou. E, pondo em prática já a missão de derrubar fronteiras, "convidou" a juntarem-se ao "compromisso" bloquista todos aqueles que "querem recusar a bancarrota, defender as pensões e os salários, lutar contra a brutalidade financeira e por uma economia de decência". De seguida, lançou várias perguntas, implicitamente dirigidas ao eleitorado e militantes socialistas: "A democracia precisa ou não de um governo que conduza uma auditoria à dívida pública e privada? Precisa ou não de um ministro das Finanças que proceda ao resgate da dívida para proteger a economia? Precisa ou não de um governo que defenda o emprego, proteja as pensões e vença a troika?"

No final da convenção, em declarações aos jornalistas, teve, porém, de desfazer um "equívoco": o BE não está disposto a firmar uma aliança governamental com o PS, com ou sem o "senhor troika", como denominou José Sócrates. O esclarecimento era também dirigido aos delegados do congresso, que, em diversas intervenções, exprimiram a sua surpresa por Louçã ter dito, anteontem à noite, que o governo de esquerda nunca seria feito com Sócrates (não excluindo, contudo, o PS). De manhã, houve quem pedisse encarecidamente à direcção do BE para "desmentir" a alegada abertura do BE a uma coligação com o PS. A resposta foi primeiramente dada por Pedro Filipe Soares, cabeça de lista por Aveiro, que acalmou os 548 delegados desta forma: "Aqueles que dizem que algum dia o PS poderá estar do lado da solução enganam-se. Aqueles que consideram que o Bloco sequer pensa isso enganam-se."

Apelo a eleitores PSD e CDS

Enquadrada na estratégia do BE está também a intenção de encostar completamente o PS à direita, fazendo equivaler os programas eleitorais do PS, PSD e CDS e lembrando que estes partidos assinaram o acordo com a troika. Louçã fê-lo na abertura da convenção - "[Sócrates] fez a maior viragem à direita que o PS alguma vez ensaiou na sua história" - e repetiu o guião ontem, ensaiando um dos capítulos mais importantes da narrativa da campanha bloquista.

Ao mesmo tempo, apelou ao voto útil no BE, pedindo sobretudo aos socialistas para penalizarem o seu partido nas urnas. "O que é que alcançará o voto no PS? Será um elogio ao programa da troika", respondeu, contra-atacando ainda um dos argumentos eleitorais mais utilizados por Sócrates (a defesa do Estado social) com a acusação de que o PS e o seu líder querem "desmantelar o Estado social".

Mas ontem, para além dos socialistas, Louçã abriu novas frentes na disputa de 5 de Junho: apelou ao voto de sociais-democratas, democratas-cristãos e jovens, apresentando argumentos diferentes. Ao eleitorado do PSD apontou que "aceitar a transferência brutal do ataque ao contribuinte [resultante do choque na competitividade fiscal, proposto no programa social-democrata] é "aceitar um ataque às suas famílias, aos seus direitos, aos seus salários". Acusou o CDS de "calculismo político" por acatar o congelamento das pensões, "abandonando os reformados".

E aos jovens, "sobretudo os abstencionistas", deixou um slogan: "Se gostaste de 12 de Março, faz o teu 5 de Junho."