Sétimo andar com Thoreau

Inspirado por Beethoven; Mozart; Chopin ou Debussy o percurso de Tiago fez-se primeiro nas fileiras dos batalhões pop/rock dos Goodbye Toulouse ou Jesus the Misunderstood
Foto
Inspirado por Beethoven; Mozart; Chopin ou Debussy o percurso de Tiago fez-se primeiro nas fileiras dos batalhões pop/rock dos Goodbye Toulouse ou Jesus the Misunderstood

Fundador da netlabel Merzbau, Tiago Sousa tornou-se, aos poucos, num caso singular da música portuguesa: um piano sem morada certa (nem clássica, nem jazz) que se inspirou em Thoreau para o disco que promete (fora de portas) tornar o seu nome finalmente invulgar

Durante dois anos, uma mesma ideia: a de que o retiro numa cabana junto a Walden Pond, um lago no Massachusetts, conduzisse a uma declaração de independência pessoal, a uma experiência reveladora de como o homem vive em sociedade, de como cada um deve bastar-se a si mesmo na sua sobrevivência e na sua construção individual. E depois, então, oferecer-se ao mundo como produto semi-acabado, mantendo sempre as características da permeabilidade e da mutabilidade. Mas sem que isso, em momento algum, comprometesse as suas fundações - nada de traições com a subtileza de um hara-kiri. Dessa experiência, o filósofo Henry David Thoreau fez nascer o livro "Walden ou a Vida nos Bosques".

Durante dois anos, uma mesma ideia: a de que o retiro artístico num sétimo andar no Barreiro, junto ao piano oferecido anos antes pela avó, e sob a influência da leitura de Thoreau, conduzisse a um espelho musical da declaração de independência do autor norte-americano, como se as palavras de um e as notas extraídas ao piano pelo outro fossem dois lados de uma mesma moeda de libertação. Depois, então, oferecer ao mundo uma música que embarca no mesmo desejo de simplicidade e descoberta. Dessa experiência, o músico português Tiago Sousa fez nascer o álbum "Walden Pond's Monk".

Mas o exercício de Tiago Sousa, diz-nos o próprio, é puramente estético: "Pegando na filosofia e na literatura do Thoreau, tentei ir buscar os elementos que mais me diziam e com os quais me identificava, fazendo uma apropriação desses valores e transformando-os numa obra musical". Não adianta, por isso, procurar uma narrativa em "Walden Pond's Monk", nem procurar correspondências directas entre palavras e notas. Nas linhas e nas entrelinhas de Thoreau, Tiago descobriu-se "em questões como a emancipação individual e a necessidade de nos centrarmos em nós próprios para causarmos modificações na sociedade".

O grito emancipador e de independência não se queda pela filosofia e tem, na vida artística de Tiago Sousa, uma aplicação prática na adopção de uma postura que lhe garanta, a cada passo e a cada segundo, duas coisas simples de nomear (mas nem sempre tão simples assim de preservar): total liberdade artística e necessidade de trabalhar de acordo com um ritmo criativo próprio, sem as urgências habitualmente impostas por terceiros.

Das águas de Walden Pond, Tiago Sousa sorveu ainda uma ideia de despojamento que se liga naturalmente ao vocabulário que explora no piano. Desde "Insónia" que faz de uma carregada melancolia minimalista a sua dama de ocasião, recorrendo às obras de Thoreau ou William Burroughs como motes criativos, não pretendendo no entanto realizar quaisquer estudos sobre a obra destes autores. No fundo, quer encontrar-se nos outros, para depois se projectar de novo no mundo, passando a incorporar ideias e reflexões trazidas ou inspiradas por este ou aquele - "É uma necessidade de tornar aquilo também meu, uma afirmação também minha".

Erudito? Não, acidental

Tiago Sousa, receptor de umas quantas aulas de piano dadas pela avó, não gosta de grilhetas. E, portanto, torceu o nariz e franziu o sobrolho ao academismo bafiento e aos manuais pejados de regras, contra-regras e pancadas na mão para corrigir o ângulo do cotovelo em relação ao teclado, às oito horas por dia de corcunda na tentativa de domar o instrumento com exercícios de repetição. "Queria simplesmente partir à aventura, correndo os riscos inerentes. Tenho perfeita noção de que um professor de conservatório que vá ouvir os meus discos vai ficar arrepiado", diz-nos sem remorsos. "Não é por aí que me rejo. Preocupa-me tocar pessoas que não estão preocupadas com o formalismo mas que querem simplesmente experimentar alguma coisa; se consigo transmitir essa experiência através da música, tanto melhor. E sempre me liguei muito mais a uma lógica do acaso e da experiência empírica". O problema, no seu entender, começa no método de aprendizagem das escolas, que "conduz a um certo embrutecimento, no sentido de não inspirar criativamente nem estimular o sentido crítico". Tiago queria procurar as suas respostas, não as do colega do lado.

Inspirado por Beethoven, Mozart, Chopin ou Debussy - "um património que não foi conquistado por uma qualquer erudição, mas essencialmente por um acidente de percurso" - a verdade é que o percurso de Tiago fez-se primeiro nas fileiras dos batalhões pop/rock dos Goodbye Toulouse ou Jesus, the Misunderstood. Daí que, apesar das referências primordiais e daquilo que em "Walden Pond's Monk" se ouve, não se reconheça em qualquer catalogação de música erudita. "O meu método não é erudito, está muito mais próximo da música popular - na qual o rock se poderá integrar e mesmo até alguma música experimental a partir dos anos 70 e 80. Não é minha pretensão escrever uma sinfonia para uma grande orquestra ou escrever peças de piano para um intérprete depois tocar. Faço música para eu tocar com músicos com os quais queira fazê-lo, e nesse sentido o método é muito mais ligado a essa facção rock". A ideia de lhe cair no colo uma encomenda para um quarteto de cordas não cabe, de todo, no mundo que criou para a sua música.

"Walden's Pond Monk" não quer doutrinar, "não obriga que todas as pessoas que oiçam o disco depois leiam o livro ou vão viver para as montanhas". E não se entrega a algo em voga nos últimos tempos: perda de soberania. Editado pela norte-americana Immune, Sousa diz que tentará sempre que o poder decisório nunca lhe salte das mãos. Por mais troikas que venham.