Crítica

O sítio certo

Longe das academias e das cantorias, vinca com firmeza o seu percurso vagamente insólito

Um piano nas mãos de um leigo é, regra geral, visto como um elemento potencialmente hostil. Ou se trata de alguém devidamente validado para lhe percorrer as teclas - e para isso existem escolas clássicas e de jazz - ou então o instrumento é visto quase como capricho de cantores com egos obesos, inebriados pela formulação matemática que diz que sentarem-se naquele banco preto e pousarem as mãos no teclado confere automaticamente prestígio, seriedade e relevância. É quase como um atestado de dignidade e maioridade musical: tocar piano é sinal de distinção, e ninguém pode alegadamente ser medíocre depois de por ali passar até a canção mais tenebrosa do mundo.

O novo disco de Tiago Sousa - longe das academias e das cantorias - vinca com firmeza o seu percurso vagamente insólito. Compositor tardio ao piano, Tiago não esconde as referências da música erudita ao mesmo tempo que parece herdeiro do universo experimental do rock - quando as bandas percebem que podem ser ambiciosas nas suas intenções de composição sem com isso tratarem as guitarras como se pudessem fazer as vezes de toda uma orquestra.

Foi uma virtude do rock menos alinhado nas duas últimas décadas: deu a sensação de que estava a crescer até esbarrar e assimilar/ser assimilado pelas gentes clássicas. Mas aquilo que Tiago Sousa faz não é rock. Não é tão fácil assim de explicar.Entra o piano em modo circular, ouvidos à escuta para decidir se é erudito ou popular, uma melancolia fina que não ajuda à categorização e que exige uma audição impoluta, sem que etiquetas de uso corrente criem ruído e distraiam do essencial. E Tiago Sousa vai alimentando estes círculos até se transformarem noutros, trazendo à baila Debussy, mas também Bernardo Sassetti (de "Ascent"), em temas instrumentais desacelerados, belos e dolentes, e até em hipnóticas evocações indianas. Depois vêm clarinete e percussões, camadas que se vão avolumando sem que a música ganhe peso ou robustez.

Permanece delicada e tímida, ao mesmo tempo que exigente e segura. Tiago Sousa faz isto como se não pudesse fazer outra coisa, como se a música não pudesse ser senão esta, como se cada nota tivesse demorado vários anos a procurar o melhor sítio onde se enfiar e daí se recusasse a sair.

Com isso, concretize-se, ganhámos uma das melhores surpresas do 2011 musical. E não custa a imaginar que, depois de editado internacionalmente pela norte-americana Immune, em Maio, o nome vulgar de Tiago Sousa passe a equivaler a um exótico sinónimo de música obrigatória um pouco por todo o mundo - onde houver um piano e não existir uma pauta.