São José Lapa

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São José Lapa, 66 anos, actriz pedro cunha

Vejo os homens como seres iguais aos do meu sexo. O que é interessante é ver que cada ser humano é diferente e por isso não se pode generalizar. Mas continuo a não perceber muito bem algumas coisas do lado deles.

Nos últimos 100 anos, desde que a mulher se tornou um ser independente, na Europa e em parte das Américas, onde as coisas começaram a equalizar-se, o homem ocidental também é um pouco feminista. Deu power à mulher para algumas coisas mas diminuiu noutras. Por vezes não actua, ou não toma posição, e passa a uma zona neutral, mas elas estão em força em muitos campos.

Onde elas não estão, isto está péssimo: nos bancos, no FMI, por exemplo, há poucas mulheres. O power do capitalismo selvagem está na mão dos homens machos. Se elas estivessem em determinados lugares a situação seria diferente, porque elas sentem, sentiram secularmente, sabem o que é a dificuldade de amamentar, dar carinho e trabalhar, três tarefas ao mesmo tempo. Elas sabem que as decisões têm de ser diferentes.

Elas não se metem tanto na coca como os meninos das agências de rating. O economista Paul Krugman diz que eles são um bando de jovens entre os 20 e 30 anos, alcoolizados e com quilómetros de coca. Elas tendem a não ter o mesmo trajecto, vêem que as coisas são de outra qualidade.

No teatro, as grandes diferenças não estão no género mas nas gerações. Os jovens procuram sucesso igual a dinheiro igual a aparecer nas capas das revistas - há uma minoria que não, não quero ser injusta. Mas as produtoras, para os fazerem render, vão buscá-los à zona do belo, dos desfiles de moda ou dos modelos fotográficos, o que é tão lícito como outra coisa qualquer desde que seja honesto. Esse tipo de jovens só pensa nisso, são esses os valores. E na outra geração, hoje com 40, 50, 60, não era isso que nos movia. São maneiras de estar muito diferentes. Os homens dessa geração levaram por tabela e muitos são feministas.

Peço desculpa aos homens, há muito melhores actrizes do que actores. Provavelmente, porque elas estão a bater o pé ao longo da vida e vieram acima com mais força. Estou a falar de teatro, não falo em telenovelas, aí é uma questão de produção e pouco mais. Lembro-me de uma entrevista da Meryl Streep, quando ela entrou nos 50 e fez uma quantidade de filmes com pouca graça, estava a modificar o corpo, a engordar, e queixava-se de que não havia papéis femininos interessantes. A própria Bette Davis passou um, período sem trabalho, dos 50 para os 60, alcoolizou-se, e então pôs um anúncio nos jornais a dizer "actriz que recebeu dois Óscares pretende trabalhar".

Aqui no Espaço das Aguncheiras, que dirijo com a minha filha Inês - cada vez mais é ela quem toma conta disto - temos trabalhado com muitos jovens das escolas de Sesimbra, temos feito ateliers sobre as questões de género, da sexualidade, da reprodução, da contracepção, da violência doméstica. Tem sido esse o trabalho que nos permite sobreviver durante este tempo, uma vez que não temos apoio do Ministério da Cultura para outras actividades (sabia que 80 por cento do orçamento do Ministério é para pagar às pessoas que lá trabalham?) E a Câmara também está sem dinheiro, nem conseguiu mandar arranjar um gerador que aqui temos para a electricidade... Não queiram saber o que é o trabalho de um espectáculo à luz de geradores, levar cabos e cabos, e durante dez anos ir buscar gasóleo, a força que é preciso fazer, tenho um braço em mau estado por causa disso ... Agora resolvi pagar do meu bolso a electricidade da EDP, vamos inaugurá-la em junho, finalmente.

O que é que me atrai num homem é o mesmo que em qualquer ser humano. A parte física é importante, evidentemente. Na parte do desejo, é uma química que muita gente procura explicar mas é inexplicável, é uma combinação de vários factores. Mas aquilo que torna um ser humano sedutor é a sua inteligência, a sua forma agradável e harmoniosa. Não pode ser uma forma decadente, negativa e destruidora.

Sou seduzida por um ser harmonioso, virado para o lado solar, que procure que toda a gente esteja bem. É alguém que tem de optar do ponto de vista da polis, da sua visão. Se quer estar com quem ofende ou humilha ou oprime os mais fracos, de maneira nenhuma é sedutor.

Às vezes, o que atrai é, como dizia a Marguerite Yourcenar, um gesto, uma mão que se levanta, a maneira como coloca a mão. Como aquela velha canção dos irmãos Gershwin que diz "The way you wear your hat/the way you sip your tea/the memory of all that/no, no, they can"t take that away from me"...

Sabe-se lá o que é, sabe-se lá.

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A partir de uma entrevista com a actriz