Elas querem escolher o final das suas histórias de amor

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David Dalladay, marido de Nicky, calça-lhe os sapatos; ela observa a sua figura no espelho do quarto

Debbie e Nicky não se conhecem pessoalmente. Mas têm muito em comum. O amor a tempo inteiro dos homens por quem se apaixonaram. Uma doença que todos os dias lhes rouba mais um pedaço de autonomia. E uma causa: ambas fazem campanha pelo direito a "morrer com dignidade". No Reino Unido, o debate sobre o suicídio assistido continua aceso. Em Portugal, o presidente do Conselho de Ética não vê vantagem nesta discussão.

Nas entrevistas e reportagens, dos jornais e das revistas, ela aparece sempre como "o rosto da luta pelo direito à morte". E a maneira como o rosto dela se ilumina com um sorriso quando lhe perguntamos o que acha da forma como os media britânicos a tratam não deixa margem para dúvidas: sente-se orgulhosa. "Luto para que o suicídio medicamente assistido seja legal neste país."

Debbie Purdy, 47 anos, casada, sem filhos, vive numa pequena moradia cor de areia, de dois pisos e janelas grandes. É uma casa igual a todas as outras nesta rua tranquila de Bradford, em Inglaterra. Com uma pequena diferença: em vez de degraus, junto à porta branca, há uma rampa de cimento. Debbie movimenta-se devagar numa cadeira de rodas entre a sala, dominada por uma figueira que vai quase até ao tecto, e a cozinha onde, num dos armários, diz que guarda dois cartões de crédito.

Um dos cartões é dela. O outro do marido. Não lhes tocam, apesar das dívidas que por estes dias os atormentam. Estes dois cartões de plástico estão reservados para um único fim: pagar uma viagem até uma clínica na Suíça onde ela poderá ter acesso a uma dose de 15 miligramas de pentobarbital de sódio - que mata em 20 minutos.

Debbie não tem a certeza se esse dia chegará mesmo. Mas quer garantir que terá como pagar a sua última viagem se entender que a sua vida "se tornou insuportável". Nesse dia, o marido estará ao seu lado. É o que está planeado.

Debbie, foi bailarina no Japão, jornalista de música em Singapura, vendeu jóias na Noruega "e queria mudar o mundo". Também queria ser a primeira mulher a chegar ao cargo de primeiro-ministro no país. "Mas a Margareth Thatcher estragou-me os planos."

Fala de forma determinada. Outras vezes, faz voz de menina - agora, por exemplo, quando lembra uma das primeiras perguntas que fez ao médico, há 16 anos, depois de receber a notícia de que tinha esclerose múltipla. "Posso, ainda assim, fazer mergulho? Posso? Posso?"

A esclerose múltipla é uma doença do sistema nervoso central que interfere com funções como a visão, a locomoção e o equilíbrio. Não tem cura e Debbie sofre da forma mais incapacitante, a chamada esclerose múltipla primariamente progressiva.

Foi num dia de Agosto de 1994 que, pela primeira vez, o corpo deixou de lhe obedecer. Sem aviso, as pernas cederam. "Estava em Leeds, com um amigo, de repente caí no chão, não conseguia levantar-me. Tinha regressado da Ásia havia pouco tempo - a Ásia do clima quente, onde as pessoas vivem na rua, abrem as janelas e fazem barbecues na praia... não estava particularmente feliz em Inglaterra, neste clima chuvoso, onde se vive dentro de quatro paredes e as janelas estão sempre fechadas. Achei que aquilo podia ser só um sinal de que deveria ir-me embora outra vez."

Quando o primeiro médico que visitou lhe disse: "Não há nada de errado consigo, devia era consultar um psiquiatra", ela acreditou. Tinha 31 anos, as pernas tinha voltado a funcionar. O estranho episódio naquela rua de Leeds estaria destinado a cair no esquecimento.

Em vez de ir ao psiquiatra, Debbie regressou a Singapura e à sua revista de música. E poucas semanas depois pediriam-lhe para ir a um bar entrevistar Omar Puente, um talentoso músico cubano que tocava violino numa banda de jazz. Ele não falava uma palavra de inglês. O facto de ela também não falar espanhol não impediu a entrevista. Nem o início de uma história de amor que nasceu, por aqueles dias, em Singapura e dura até hoje.

Rouba-lhe um beijo

Omar é o homem de calções que nesta tarde chuvosa em que os visitamos em Bradford está na cozinha a preparar legumes e massa para Debbie. Tem um sorriso brincalhão - um sorriso que perderá daqui a uma horas, quando ela não estiver por perto -, volta e meia passa por Debbie, curva-se sobre ela, sentada na sua cadeira de rodas, rouba-lhe um beijo. Também se zanga com ela quando ela não come. E ela não come porque quando começa a falar "nunca mais se cala", explica ele.

Alguém toca à campainha. Debbie tem um comando pendurado num dos braços da cadeira de rodas que lhe permite abrir a porta à distância. É o homem da companhia do gás que ela cumprimenta efusivamente. Depois, a conversa continua: tem cada vez menos controlo sobre o seu corpo - "primeiro comecei a usar muletas, depois, de vez em quando, uma cadeira de rodas, depois uma cadeira permanentemente, depois uma cadeira eléctrica" quando perdeu a força nos braços. "Todas as semanas há qualquer coisa que perco."

Consegue agarrar uma caneca de café e levá-la à boca e é com essa caneca de café quente nas mãos que fala torrencialmente de tudo o que hoje faz para "ajudar a mudar o mundo", à sua maneira. "Sou membro da Sociedade de Esclerose Múltipla, activista da Dignity in Dying [organização que defende o direito à morte assistida], participo em conferências, colaboro com escolas de Medicina. Mesmo quem não concorda com as minhas ideias não me vê como uma vítima de cadeira de rodas. Mas como alguém que tem opiniões, como uma voz que é ouvida."

E Debbie é ouvida. Desde logo, sempre que se fala de morte assistida no Reino Unido - há quatro anos, iniciou uma batalha legal para garantir que Omar não teria problemas com a Justiça britânica se um dia a levasse à Dignitas, a clínica na Suíça onde se paga cerca de seis mil euros por um suicídio assistido.

No Reino Unido, como na generalidade dos países do mundo, Portugal incluído, é crime ajudar alguém a morrer. A pena pode ir até aos 14 anos de prisão. Em Portugal, o Código Penal prevê cadeia até três anos para quem "incitar outra pessoa a suicidar-se ou prestar-lhe ajuda para esse fim".

Já na Suíça, a lei permite, em certos casos, o suicídio assistido. E, até meados do ano passado, 135 britânicos tinham recorrido à Dignitas. A mesma clínica onde em 2009 morreu uma portuguesa de 67 anos, com cancro, a quem os médicos tinham dado menos de um ano de vida.

O seu nome nunca foi revelado. Foi noticiado que não conseguia suportar as dores e que temia ficar incapacitada ao ponto de não conseguir deslocar-se para pôr fim à vida. É, até hoje, o único caso tornado público de um português a recorrer àqueles serviços, diz Laura Santos, professora na Universidade do Minho, autora do livro Ajuda-me a Morrer. Os amigos que a acompanharam regressaram a Portugal e nunca nenhuma autoridade os questionou, garante a professora, que conhece a família.

"A minha vida é um horror"

Nicky Dalladay, 49 anos, tem esclerose múltipla há 26. A sua condição física é bem mais complicada do que a de Debbie. Vive em Loughton, a cerca de uma hora de comboio do centro de Londres, num bairro onde todas as casas têm garagem e jardins com árvores floridas.

Espera-nos na cozinha, junto a uma porta de vidro que dá acesso a um pequeno jardim primorosamente cuidado. Tem o portátil à sua frente. Em cima da mesa está ainda um maço de Marlboro - há anos que tenta deixar de fumar -, um cinzeiro, uma caneca alta com desenhos de ovelhas e uma palhinha, pela qual vai sorvendo café. Não é capaz de folhear um livro, usar uma caneta ou um talher. Consegue agarrar no cigarro.

Também ela é uma activista da Dignity in Dying - organização que se apresenta como apartidária e laica e alega ter 25 mil apoiantes activos, entre os quais vários notáveis como o escritor Ian McEwan e o actor Patrick Stewart. A Dignity in Dying defende que doentes adultos, no pleno das suas capacidades mentais, devem poder ter a ajuda de um médico para pôr fim à vida se entenderem que já não conseguem viver dignamente. O que significa mudar a lei do país.

Nicky não é uma figura pública. Mas por estes dias tem-se desdobrado em entrevistas porque acaba de publicar um livro com o relato da sua última grande viagem com o marido, David - chama-se My Travels with Wheely (Wheely é o nome carinhoso que dá à sua cadeira de rodas). Foi em 2006 e passou pela Tailândia, o Vietname, a Austrália, a Nova Zelândia e a América.

O livro é o relato de alguém que está preso a uma cadeira de rodas, mas que não perdeu o espírito de descoberta, apesar dos muitos dissabores que a aventura implicará - coisas como chegar a um hotel onde previamente tinha reservado um quarto para deficientes e deparar-se com uma banheira na qual nunca conseguirá entrar, ou ter de ser colocada dentro de um avião com o auxílio de um monta-cargas. "Gostava de acreditar que o livro servirá para mudar alguma coisa. Nos hotéis, nos aviões, mas não só. Para que as pessoas de cadeira de rodas deixem de ser tratadas como cidadãos de segunda ou terceira", diz. Ao seu lado, numa prateleira do móvel da cozinha, está o livro de capa colorida. Nicky ditou cada página para um gravador, depois usou um programa de transcrição automática para o computador e corrigiu tudo, letra por letra.

De 2006 para cá, o seu estado degradou-se. Hoje aquela viagem não seria possível. E nem lhe passa pela cabeça voltar a meter-se num avião. Passa os dias junto a esta porta de vidro, na cozinha, com vista para o jardim. "É muitoooo aborrecido. Quando acordo de manhã, sei exactamente tudo o que vai acontecer. Serei eu e o David e tudo é muito planeado, muito clínico. A minha vida é um horror." Às vezes tem alguma dificuldade em falar, as palavras saem-lhe menos claras. E não consegue esconder uma certa revolta. "Duas vezes por ano vou ao hospital, à consulta de neurologia, por rotina. Já nem me tocam. Para quê?"

David tem mais 13 anos do que ela. É ele que faz tudo lá em casa. A comida, as limpezas. "É um super-homem. Antecipou a reforma apenas para cuidar de mim. Mas ele não vai poder fazer isto para sempre. O que é chegar ao limite para mim? É ter de ser internada num lar e ter outras pessoas a fazerem o que o David tem de fazer por mim hoje... Esse é o limite. Não seria viver. Seria existir, simplesmente. Eu quero poder escolher como acabo. E eu não quero que a minha vida acabe num lar."

Tal como Debbie, se quisesse pôr fim à vida sozinha, não poderia. "Nem uma lamela de comprimidos consigo abrir", exemplifica Debbie. E Nicky não agarra uma simples caneca.

"Isto nunca vai passar"

Por tudo isto, Nicky pediu, recentemente, uma reunião a um "MP" - um "membro do Parlamento" cujo nome não quer revelar. "Avisou-me logo: "Não me vai fazer mudar de ideias." Por razões pessoais e religiosas, era contra o suicídio assistido. Disse-lhe que queria, simplesmente, explicar-lhe como era um dia típico na minha vida. Cada coisa pela qual eu tenho de esperar, sentada, que o David faça. À medida que fui falando... ele punha as mãos na cabeça. Não me orgulho de todas as coisas que tive de dizer..."

Perguntamos-lhe se nos pode ler essa carta. E ela lê, no ecrã do computador.

"É de manhã e preciso ir à casa de banho. Peço ao meu marido para me ajudar. Ele agarra nas minhas pernas e pousa-as no chão. Puxa-me e senta-me na cadeira de rodas, empurra-me até à casa de banho. Quando acabo chamo-o outra vez para me ir buscar. Preciso de um duche. Já não posso tomar duche diariamente, mas hoje preciso. Estive com o período nos últimos dias. É ele que me limpa e que me muda os pensos higiénicos. Mas começo a cheirar mal. Depois de me carregar para o duche ele esfrega-me o corpo e o cabelo. Quando acaba pega em mim, tira-me do chuveiro, senta-me, limpa-me com uma toalha e veste-me a roupa interior. Depois agarra-me de novo e senta-me na cadeira de rodas. Empurra-me até ao lavatório. Lava-me os dentes. O nosso dia ainda mal começou, mas já passou uma hora, quase uma hora e meia, desde que acordámos."

O cigarro de Nicky arde no fundo do cinzeiro. David, um homem magro, de ar sereno, prepara mais um café no balcão de pedra da cozinha enquanto a mulher lê a carta. Conheceu Nicky quando ela tinha 20 e poucos anos, faziam teatro, apaixonaram-se e partilharam outras paixões, como viajar. Na sua volta ao mundo com a Wheely ela era o elemento optimista do casal; ele o homem organizado e obcecado em chegar cedo a todo o lado. Os amigos acompanharam as suas aventuras à distância - através dos relatórios periódicos que o casal enviava por email.

Nicky pára por alguns segundos. Inclina o pescoço sobre a caneca com desenhos de ovelhas, agarra na palhinha com a boca, sorve mais um gole. Continua a ler a carta que, diz, fez o "MP" mudar de ideias.

"Estamos agora na cozinha. Ele faz-me o pequeno-almoço. Não consigo agarrar numa colher, é ele que me põe os alimentos na boca. Depois vai buscar uma escova e penteia-me. Preciso de me assoar. Mas não consigo. David agarra num lenço, eu não tenho força..."

"Escorrego. Dou comigo no chão. Não consigo mexer-me e ele não consegue levantar-me. Deixa-me deitada no chão. Vai bater à porta de um vizinho para pedir ajuda. Fico ali, deitada no chão, a fazer um esforço para não chorar. Sinto-me absolutamente vazia, sinto-me a criatura mais inútil... "

David demorou, ele próprio, a concordar com esta ideia de Nicky de que o suicídio assistido pode ser, nalguns casos, uma solução. "O amor é uma coisa muito egoísta, queremos que o nosso companheiro esteja connosco, não importa de que forma, e ficamos felizes por estar a fazer coisas por ele porque o amamos. Mas o David acabou por me dizer que, se isto é algo que eu quero... então, que me apoia."

"Enquanto puderes, FAZ!"

Pouco depois de começar a namorar com Omar, Debbie voltou a Inglaterra e foi ao médico uma vez mais. Sentia que alguma coisa "não batia certo" depois do episódio de Leeds, que não mandava no seu corpo da mesma maneira. Mandaram-na fazer uma punção lombar e uma Ressonância Magnética, ficou à espera dos resultados. "Quando fui ter com o neurologista, ele disse-me: "Mal a vi achei que você tinha esclerose múltipla." E eu perguntei: "E então? Tenho o quê?" E ele respondeu... "É esclerose múltipla"." Foi um choque.

Chorou imenso. Achou que era o fim. Telefonou ao médico, no dia seguinte: ""Ainda posso mergulhar? Posso? Posso?" E ele respondeu: "Não sei, pode?" E com essa resposta deu o tom para o que se passaria a seguir. Ele não me estava a tratar como se aquilo fosse o fim do mundo. A ideia era esta: "Faz tudo o que puderes fazer até não conseguires fazer mais. Experimenta. Se calhar não vais conseguir fazer para o resto da vida, mas enquanto puderes, FAZ!""

Quando regressou a casa, só pensava: como é que ia explicar ao Omar - eles, que tinham começado a namorar havia tão pouco tempo e que não comunicavam com palavras, porque nem ela falava espanhol nem ele inglês - que tinha aquela doença?

Ainda telefonou para a embaixada espanhola em Londres. Perguntou-lhes: "Como é que se diz, em espanhol, multiple sclerosis?" Não ajudaram muito, lembra Debbie. E ri-se imenso desta história: "Em espanhol diz-se esclerosis múltiple. E enfim... não é muito diferente. Omar não ia saber o que era."

Ao telefone ele disse-lhe simplesmente "vem ter comigo" e ela foi ter com ele ao outro lado do mundo. Viajaram durante algum tempo... "Se não fosse a esclerose múltipla, se calhar não teríamos ficado juntos... quem sabe!" Ela ajudava-o a negociar o cachet nas tournées e ia aos concertos todos e aplaudia - hoje já quase nunca vai aos concertos dele, "porque ele fica preocupado, o que é mau, porque no palco tem de estar concentrado". Também já não consegue bater palmas. "As mãos não obedecem..."

A progressão da doença acabou por tornar inevitável o regresso a Inglaterra. Debbie e Omar casaram-se, ele tentou construir uma carreira no país, começou a dar aulas de música, em part-time, para ter tempo para cuidar dela, lançou um disco. Ela foi piorando. "Há dias em que acordo bem. Há outros em que não consigo sair da cama."

Recentemente, Debbie convenceu-o a deixar de dar aulas. Se se inscrever como desempregado e passar a ser o cuidador oficial dela, poderão ter mais apoios para além das 700 libras (perto de 800 euros) que recebem do Estado ao abrigo dos subsídios para pessoas deficientes - neste momento, o banco ameaça retirar-lhes a casa por falta de pagamento. "É de loucos não é?"

Debbie fala de tudo com um grande à-vontade. De vida e de morte, do dinheiro e da falta dele, dos pormenores mais íntimos da sua existência, da escova de dentes que deixou de conseguir manusear ("agora tenho uma eléctrica, não preciso de fazer nada, só agarrar"), das dores causadas pelos espasmos musculares, um dos sintomas da esclerose múltipla ("costumava tomar drogas para as dores, mas a mim causa-me obstipação, o que acaba por ser muito mais doloroso, por isso deixei de tomar tudo"), das idas à casa de banho ("até há uns meses conseguia transferir-me da cadeira de rodas para a sanita, sozinha, ainda que com um grande estrondo, hoje já não consigo"), daquela espécie de cabide gigante que tem pendurado no tecto do quarto e que a ajuda a sair da cama, de como descobriu o seu... cateter.

"Durante anos recusei ter um cateter simplesmente porque achava que a minha vida sexual era mais importante, mas a verdade é que não estava a beber água suficiente porque andava sempre a pensar: "Se bebo, tenho de ir à casa de banho e estou demasiado fraca para ir à casa de banho." Um dia a Janet, que é uma enfermeira, perguntou-me: "Por que é que não coloca um cateter suprapúbico?" E eu respondi: "O quêêêê??" Quando percebi o que era (são uns que podem ser introduzidos cirurgicamente através do abdómen), só lhe dizia: "Quero um desses! Quero um desses! Dê-me um desses!""

E enquanto fala, Debbie mostra o tubinho que lhe sai do abdómen.

"Não gosto de pensar na morte"

Foi o mediático caso de Diane Pretty, em 2002, que a fez pensar, pela primeira vez, na forma como poderia acabar os seus dias.

Diane Pretty, mãe de dois filhos, tinha uma doença neuro-degenerativa incurável que a paralisava do pescoço aos pés. Em 2001 pediu à Justiça britânica que o seu marido não fosse responsabilizado criminalmente se a assistisse na morte, uma vez que ela era fisicamente incapaz de suicidar-se. "Quero ter uma morte rápida, sem sofrimento, em casa, rodeada pela minha família."

O pedido foi recusado. O caso chegou ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem que, em Abril de 2002, fez saber que o direito fundamental à morte não existe.

"A lei roubou-me todos os meus direitos", reagiu ela, numa conferência de imprensa, em Londres. Precisou da ajuda de um computador para falar aos jornalistas. Acabaria por morrer numa clínica, dias depois, na sequência de problemas respiratórios.

Não há muitos países onde a "morte a pedido" seja legal. E há diferenças entre eutanásia e suicídio assistido. A eutanásia implica que alguém administra a um doente que pede para morrer uma dose letal de fármacos (é permitida na Holanda, desde 1995, na Bélgica, desde 2002).

Já no suicídio assistido, tal como a Suíça o admite, um doente terminal, ou com uma doença crónica, ou um tetraplégico, pode ter acesso a uma droga letal, mas é ele próprio, ainda que sob vigilância de um técnico de saúde, que a ingere - legalmente também é admissível a administração por via intravenosa, desde que seja o doente a carregar no dispositivo que liberta a droga, explica Laura Santos.

Todo o processo é acompanhado por médicos. E os últimos minutos de vida do doente são filmados, para garantir que ele agiu de livre vontade.

No final, a polícia é chamada e é feito um relatório da ocorrência. "Tudo é muito controlado, porque o procurador anda sempre à procura de um pretexto para fechar a Dignitas", diz Laura Santos. Os suíços concordam com o suicídio assistido, mas têm alguma dificuldade em aceitar que tantos estrangeiros os visitem por causa disso.

Há ainda a morte assistida, permitida nos estados norte-americanos do Oregon, Washington e Montana - aqui, explica a professora, os doentes terminais, com seis meses de vida, têm a possibilidade de pedir para serem avaliados e pode ser-lhes prescrita uma dose letal de drogas que levam para casa e usam quando entenderem.

O que as estatísticas do Oregon (59 mortes assistidas em 2009) mostram, diz Laura Santos, é que muitas pessoas que pedem as drogas acabam por não morrer de suicídio assistido. Ou seja, não as tomam. "O pedido funciona como uma espécie de seguro automóvel. As pessoas pensam: "Pode ser que a minha morte não venha a ser tão dolorosa assim, mas se for, tenho esta droga." E essa sensação de controlo dá tranquilidade. Todos sabemos como a ansiedade aumenta a dor."

Com a sua doença a progredir e a torná-la cada vez mais dependente, Debbie juntou-se à Dignity in Dying. Em 2007, e com o apoio desta organização, pediu aos tribunais ingleses que clarificassem se Omar também poderia ser acusado se a levasse à Suíça, onde o suicídio assistido é legal. E a resposta foi: sim, podia.

"Fiquei muito nervosa. De repente percebi que se calhar tinha de antecipar a minha morte. Que tinha de ir à Suíça enquanto conseguisse viajar sozinha, o que em breve deixaria de acontecer porque estava a perder capacidades rapidamente. As pessoas que me conhecem, os meus irmãos e irmãs, sabiam que eu não tinha levado o caso a tribunal porque estava deprimida e queria acabar com a minha vida. Eles sabiam que eu tinha levado o caso a tribunal porque queria viver mais tempo. E, de repente, a Justiça britânica estava a forçar-me a antecipar uma decisão."

Como David, Omar não é particularmente entusiasta da ideia do suicídio assistido. "Não gosto de pensar na morte. Mas não gostaria de chegar a um ponto em que tivesse de viver só para sofrer...", dirá o músico longe do olhar de Debbie, ao final do dia, já sem aquele sorriso...

Em 2009, os juízes da Câmara dos Lordes acabaram por considerar que a lei britânica (o Suicidade Act, de 1961) não era suficientemente clara. E que o CPS deveria definir que "factores de interesse público" devem ser tidos em conta quando os magistrados analisam estes casos.

As novas orientações foram publicadas no ano passado, depois de um longo debate público - no âmbito do qual o CPS recebeu mais de cinco mil contribuições. Não abrem a porta à eutanásia, sublinha o documento, nem descriminalizam a assistência ao suicídio. Simplesmente estabelecem que nem sempre é do interesse público julgar alguém envolvido num caso deste tipo.

Por exemplo, uma pessoa "motivada pela compaixão" que tenha uma "participação menor" no suicídio de alguém que lhe é próximo que, por sua vez, manifestou uma "intenção clara e informada" de o querer cometer, pode não ser acusada. Mas cada caso, insiste o CPS, deve ser analisado individualmente.

Nos jornais, "a vitória" de Debbie Purdy foi amplamente discutida. "Não foi uma vitória pelo direito à morte, foi uma vitória do meu direito a ter controlo na minha vida. Estas orientações prolongaram a minha vida. Se calhar, se não fossem elas, hoje estaria morta."

Prioritária é a vida

Mas há quem veja as orientações do CPS de forma radicalmente diferente. Richard Hawkes, chefe executivo da Scope, organização que representa pessoas com deficiência, foi um dos muitos que ficaram chocados: "Muitas pessoas estão assustadas com estas linhas orientadoras porque há o perigo real de serem pressionadas a pôr termo à vida", explicou à BBC. Há famílias que querem ver-se livre dos que consideram um fardo; pode haver quem queira conduzir alguém a um suicídio porque espera uma herança; pode haver a tentação de investir menos em cuidados paliativos porque a morte a pedido é mais barata. E estes são apenas alguns dos receios de quem critica o suicídio assistido.

Não é uma preocupação muito diferente da que é manifestada pelo chefe executivo do United Kingdom"s Disabled People"s Council, que congrega várias organizações de pessoas com deficiência. "Prioritário é preservar a vida e ajudar as pessoas que estão numa situação de doença, de fragilidade, a repensarem o seu futuro", diz-nos Jaspal Dhani, no seu escritório em Londres.

Aliás, por estes dias, anda superatarefado com a organização de um grande protesto nacional, marcado para dia 11 de Maio, contra os cortes que o Governo pretende fazer nos apoios aos deficientes. Quer juntar dez mil pessoas com deficiência nas ruas de Londres. Diz que o momento é dramático. "O fundamental é que o Governo resolva a falta de apoio adequado que está a levar tantas pessoas a quererem pôr fim às suas vidas." O fundamental, insiste, é não criar condições para que alguém possa sentir que a "sociedade não o deseja".

Mesmo Nicky Dalladay tem dúvidas sobre as guidelines do CPS. "O que se fez com as orientações foi dizer: "Ok, podem acompanhar-te até ao estrangeiro para morreres longe, devidamente acompanhada por um médico. Mas não te podem ajudar a morrer na tua terra, onde nasceste, onde tens os teus amigos e a tua família, no país onde pagaste impostos toda a vida"."

Michael Irwin, um médico de clínica geral reformado, que trabalhou durante décadas para as Nações Unidas, também não aplaudiu a "vitória" de Debbie Purdy. Mas não partilha nem os argumentos de Nicky, nem os das organizações de doentes. As razões deste homem de 79 anos são outras.

"Essas orientações foram uma desgraça. Muitas pessoas acreditam que a lei foi aliviada e que podem hoje, neste país, ajudar alguém a morrer e que não serão punidas por isso, o que não é verdade. E em breve vamos começar a ter nos tribunais casos complicados de resolver."

Mais: "Sabemos que, muitas vezes, os chamados "suicídios-faça-você-mesmo" são mal sucedidos, com consequências gravíssimas do ponto de vista da saúde, para as pessoas que os tentam. É fundamental que haja um médico sempre presente, os médicos são os únicos que podem garantir uma avaliação correcta e que tudo corre bem." "Correr bem", neste caso, significa morrer de forma rápida, sem incidentes como "entrar em coma e ficar muito pior".

Há dias, jornais como o Evening Standard ou o Times publicavam a fotografia deste médico reformado. "Prendam-me!", era o título de uma das notícias. A história que contavam não é muito diferente de outras em que Irwin já esteve envolvido: no final de Abril, viajou até Zurique com Nan Maitland, uma activista pelo "direito à morte", de 84 anos, que sofria de artrite; ficaram num hotel de cinco estrelas; no dia 31 jantaram um restaurante luxuoso; no dia 1 de Maio a mulher deu entrada na Dignitas, pediu para retocar o verniz das unhas e bebeu o líquido amargo onde foi previamente dissolvido o pentobarbital de sódio. Deixou uma carta. "Tive uma vida maravilhosa e tenho a sorte de morrer no momento que escolhi."

Depois de regressar a Inglaterra, Michael Irwin queria, no essencial, uma coisa: que se falasse do caso. E falou-se.

"Ajudei-a a pagar as despesas"

Às nove e meia da noite do dia 5 de Abril, um dia depois de a história da morte de Nan Maitland ter chegado aos jornais, explicar-nos-á, ao telefone: "Amanhã vou estar toda a manhã num debate na televisão e à hora de almoço vou ter com os jornalistas do Times..."

Explica que espera que toda esta publicidade (enfim, nunca afirmou "prendam-me!", diz, essa parte já é exagero dos jornais) sirva para cumprir um desejo da sua amiga: ela queria que o debate que há anos existe no país sobre a legalização do suicídio assistido para doentes terminais fosse alargado. E que a lei que viesse a ser aprovada permitisse que qualquer pessoa idosa, com problemas de saúde, ainda que não terminais, pudesse também ter acesso ao suicídio assistido. Ele concorda e dá a cara por esse debate.

Para muitos, este caso expõe a "verdadeira agenda" do lobby pró-suicídio assistido. Em comunicado, a Care Not Killing Alliance, que congrega várias organizações antieutanásia, diz que "o verdadeiro objectivo" de quem quer mudar a lei de 1961 é "garantir que qualquer pessoa, independentemente da idade ou do estado de saúde, possa ser ajudado a pôr fim à vida". O que "é assustador".

Michael Irwin, que, em 2009, chegou a ser detido pela polícia depois de ele próprio ter pago parte da factura do suicídio de um homem com cancro, na Dignitas, está pouco preocupado com os críticos. "Vivemos numa sociedade hipócrita", defende. "Todos os anos há mais de mil casos de eutanásia voluntária no Reino Unido e outros tantos de eutanásia não voluntária, em que os médicos não consultam os doentes, e tomam eles a decisão, o que é algo com o qual discordo em absoluto." Irwin cita uma sondagem publicada em 2009, na revista Palliative Medicine, da autoria de Clive Seale, da Universidade de Londres, que aponta para que 0,21 por cento das mortes no Reino Unido resultem de pedidos de morte, por parte de doentes, e que 0,33 por cento sejam casos de "eutanásia não voluntária".

"Eu próprio já ajudei doentes a morrer, quando praticava", diz. E fala dos casos de sedação terminal em doentes que estão em grande sofrimento, à beira da morte. "Administram-se drogas continuamente, as pessoas entram em coma, retira-se a hidratação, é a chamada eutanásia lenta." E continua: "No fundo, o que precisamos é de uma lei que regule o que, em muitos casos, já é feito" e ponha ordem no que actualmente é arbitrário.

O debate vai chegar a Portugal

"Este debate, mais cedo ou mais tarde, vai ter de chegar a Portugal. Independentemente da lei que temos hoje, que é bastante conservadora", diz Rui Nunes, presidente da Associação Portuguesa de Biomédica e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

"É um tema que todas as sociedades democráticas acabam por debater em profundidade. E, se não o fizermos atempadamente - os profissionais de saúde, os académicos, os investigadores, os intelectuais, os órgãos de comunicação social -, o que pode vir a acontecer é que numa determinada circunstância social e política alguém se lembre de trazer isto à discussão, sem que os vários agentes sociais estejam devidamente informados."

Já Miguel Oliveira e Silva, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, tem uma opinião bem diferente. "Em Portugal não há acolhimento nenhum nem para a eutanásia nem para o suicídio medicamente assistido. Nem da parte da população em geral, nem da parte dos médicos." Diz que é uma questão de "cultura" diferente da de outros países. "Não me parece que haja nem grande sensibilidade, nem grande urgência, nem interesse, nem vantagem nessa discussão."

Rebate, de resto, quase ponto por ponto, os argumentos de pessoas como Michael Irwin. Diz, por exemplo, que a sedação terminal que Irwin considera ser eutanásia desregulada está longe de o ser. "A sedação terminal implica dar doses crescentes de analgésicos, morfina ou derivados de morfina, a um doente que tem dores insuportáveis, mas, ao fazermos isso, não estamos a fazer nada para antecipar a morte. Geralmente o doente entra em coma e, dependendo da doença, mantém-se a hidratação ou não - essa é, de resto, uma grande discussão ética médica, se a hidratação é obrigatória em doentes terminais. Numas doenças é, noutras não é. E, portanto, dizer que sempre que se retira a hidratação artificial a um doente se está a praticar um acto de eutanásia é um perfeito disparate - apesar de eu saber que há quem diga isso."

Rui Nunes também faz questão de separar as águas: sim, uma coisa é a sedação terminal, outra é eutanásia. "Mas há muita hipocrisia. Toda a gente aceita, com regras, a sedação paliativa terminal, mas depois chega à eutanásia e jogam as mãos à cabeça. Quando, no fundo, são os mesmos valores que estão em causa: a ponderação entre o valor da vida humana e o valor da qualidade de vida e da dignidade na morte."

Algumas sondagens feitas em Portugal apontam para um país que se divide entre dizer sim ou não à eutanásia. "E há quatro anos orientei um estudo da Faculdade de Medicina do Porto que mostrou que 40 por cento dos oncologistas inquiridos não tinham uma objecção de princípio em relação à prática de eutanásia", continua Rui Nunes. O resultado foi obtido com base nas respostas de 140 médicos. Mas é significativo, na opinião do professor.

Oliveira e Silva prefere centrar atenções naquilo que neste momento importa, na sua opinião: o testamento vital - qualquer cidadão saudável pode deixar expressas orientações para o caso de ficar numa situação de saúde extrema. O documento deverá ser aprovado na próxima legislatura. "Em relação a isso há um largo consenso dos partidos e eu sou completamente favorável."

Laura Ramos gostaria que se fosse mais longe. "O ideal seria que existissem cuidados paliativos integrais", para doentes terminais. A ideia: as pessoas beneficiariam desses cuidados e quando se sentissem demasiado esgotadas com o sofrimento ser-lhes-ia dada a possibilidade da morte por eutanásia ou por suicídio assistido.

Ela própria admite, um dia, recorrer à Dignitas. Já teve cancro por duas vezes. A mãe morreu com a mesma doença. Não tem a certeza se quer passar por tudo outra vez se o cancro voltar. "Só ainda não me tornei membro da Dignitas porque, se calhar ingenuamente, tenho acreditado que em Portugal a lei acabará por mudar."

Debbie Purdy também espera que a lei no seu país mude um dia. E tem ideias muito claras sobre como gostaria que as coisas funcionassem. "Devia haver uma espécie de tribunal, mas menos formal, com diferentes pessoas, médicos, assistentes sociais, enfermeiras, que analisariam os pedidos de suicídio assistido." Acredita que, em muitos casos, essa "comissão" poderia sugerir medidas para melhor a qualidade de vida dos doentes, seja em termos de acesso a cuidados paliativos, "porque haveria uma comunicação mais aberta entre médicos e doentes", seja porque as próprias famílias poderiam envolver-se mais, devidamente enquadradas por técnicos de diferentes disciplinas. Se, ainda assim, as pessoas insistissem no pedido, continua Debbie, este deveria ser aceite.

Na última página do seu livro, que deu por concluído no ano passado, Nicky Dalladay escreveu: "Nenhum de nós sabe o que nos reserva o futuro, mas uma coisa eu sei, a vida é para ser vivida." O que não significa não ter uma palavra a dizer no que diz respeito à morte. E o que Nicky - que não tem nenhum plano B, para ir à Suíça, como Debbie - espera é que a lei mude para poder morrer "em paz e com dignidade", no seu país, depois de se despedir das pessoas que ama.

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