"Que gritassem, pelo menos que gritassem"Na primeira pessoa

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Manuel Rocha foi agredido a 24 de Janeiro NELSON GARRIDO

Manuel Rocha é director do Conservatório de Coimbra, músico na Brigada Victor Jara, militante activo do PCP e candidato a deputado, mas da última vez que apareceu nos jornais foi por ter sido espancado. Coisas que fazem pensar, como explica, na primeira pessoa

Desde que se me partiu uma perna que passei a ver as coisas de outra maneira. Não por causa da perna, mas do que soube depois. Começou no hospital. Veio um amigo e contou uma história, outro e fez uma confidência, depois veio um conhecido e falou-me do assunto, a seguir um colega e até um médico - cada um com um caso novo, uma perspectiva diferente. De tal forma que, agora, quando começo a falar disto, vejo que preciso de um discurso também ele novo, que enforme o que descobri, que me ajude a localizar as novas realidades que estavam aí e eu não via.

Pronto. Gosto de pensar alto, do vaivém do raciocínio no diálogo com os outros, e era importante dizer isto - que há um antes e um depois, mas que o depois não tem propriamente a ver com o que aconteceu naquela noite. Bandidos são bandidos, só isso, bandidos. Foi isso que eu disse, escrevi e repeti nos dias a seguir àquela noite, foi isso que eu disse ao meu filho no dia seguinte e é isso que eu digo agora.

Vamos, então, aos factos. Fui à Estação de Coimbra B buscar um amigo, um maestro mexicano, que vinha de Lisboa, seriam umas 22h00 do dia 24 de Janeiro, uma segunda-feira. Parei o carro mesmo em frente à estação da CP, junto dos táxis. Quando voltávamos, um homem de 30, 40 anos, pediu-me lume. Disse-lhe que não fumava e ele mandou uma boca. Só me apercebi de que a coisa era mais séria depois de entrar no carro: ele colocou-se entre mim e a porta e impediu-me de a fechar.

Devo andar a ver filmes de mais: saí e cresci para ele, a protestar. Apanhei o primeiro pontapé. Dei-lhe um murro (nunca tinha dado um murro na minha vida) e, quando ele respondeu, caímos os dois, agarrados. Vieram outros. De repente, eram várias pessoas a bater-me, a pontapear-me. O primeiro pôs as mãos à volta do meu pescoço e tentou estrangular-me - uma sensação esquisita, muito esquisita.... Para me proteger virei-me de barriga para baixo. O resto foi o meu amigo que me contou: havia mulheres e crianças a bater-me e foi uma mulher que quebrou a minha perna. Agarrou-a com as duas mãos, torceu-a e quebrou-a: tlac!

De repente, tal como tinha começado, tudo parou. O meu amigo puxou-me, eu voltei para o carro (a porta continuava aberta), tranquei as portas e comecei à procura do telemóvel. Não o encontrei. Tinha caído, na confusão. Abri a janela e pedi às pessoas que chamassem a polícia. Tal como antes, ninguém chamou, ninguém fez seja o que for, ninguém disse nada. Os agressores continuavam ali - não fugiram, olhavam-me nos olhos, insolentes. O meu amigo pediu-me que arrancasse e foi o que eu fiz. Conduzi até ao hospital.

Costumo contar isto com umas brincadeiras pelo meio, para não parecer tão dramático. Mas foi. Um bocadinho. Por causa da violência gratuita, da brutalidade e da perna, claro - fui operado duas vezes e vou transportar durante cerca de um ano a régua e os sete parafusos que me endireitam o perónio. Mas, acreditem, também - e muito - por causa das pessoas que assistiram e não fizeram nada. Apresentei duas queixas contra desconhecidos, uma por agressão, outra por omissão de auxílio. As pessoas tinham razão para ter medo? Se calhar tinham. Mas que gritassem. Pelo menos, que gritassem.

Não disse que os agressores eram ciganos? Pensei que tinha dito. Ou que já sabiam. Não, não estou a omitir, não faço de propósito. Ou faço. Não sei. Quando o meu filho, de 14 anos, me foi ver ao hospital, eu disse-lhe que quem me atacou foram ciganos, mas frisei bem que não o fizeram por serem ciganos, mas por serem bandidos - e bandidos são bandidos, sejam ou não ciganos. Mas, ao mesmo tempo, sei que há coisas nesta agressão que são particulares: o ataque em grupo, o facto de participarem as mulheres e as crianças, o sentimento de impunidade... Quer dizer, não é normal os bandidos atacarem com crianças, quanto mais não seja para fugirem mais depressa; e também não é normal não fugirem.