E se Fukushima tivesse sido em Portugal?

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Escola Prática de Engenharia do Exército, em Tancos, tem ENRIC VIVES-RUBIO

Hipotético acidente afectaria mais de 1,6 milhões de portugueses nas primeiras 48 horas, dos quais 1671 teriam de receber cuidados de saúde

Se o acidente da central japonesa de Fukushima tivesse acontecido em Portugal, que áreas seriam perigosas? Quem teria de receber cuidados de saúde ou ser evacuado? Poucos dias após a fuga de uma nuvem radioactiva de Fukushima, o acidente foi simulado em território português pelo Centro de Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica e Protecção Ambiental, na base militar de Tancos.

Tudo ficção. Mas este exercício pode aplicar-se a acidentes no transporte de materiais radioactivos, para fins médicos ou científicos, em Portugal. Ou às centrais de Espanha e ter uma ideia das consequências que o país enfrentaria em caso de um acidente grave num dos reactores espanhóis.

Para a hipotética central em Portugal, escolheu-se um local arbitrário: Tancos, por ser aí, na Escola Prática de Engenharia do Exército, que fica o centro, que dispõe de software da NATO, desde 2005, destinado à simulação de cenários de risco nuclear e radiológico (e biológico e químico).

Nesse software constam algumas centrais nucleares. Uma delas é a de Fukushima, com dados sobre os seus reactores ou o combustível do núcleo. A equipa do capitão de Engenharia António Ferreira, que chefia aquele centro, introduziu no software dados sobre o acidente a simular: danos severos no núcleo de dois reactores de Fukushima, com fuga maciça de radiação. "O próprio software dá estimativas do material libertado", explica António Ferreira, tendo em conta a gravidade seleccionada do acidente.

O sismo de 11 de Março no Japão, seguido de um tsunami, causou uma crise em Fukushima, com fugas radioactivas. Há mais de um mês que se tenta arrefecer os núcleos dos reactores. O raio de segurança já foi alargado até aos 30 quilómetros da central.

Pôr a central de Fukushima no centro de Portugal implicou introduzir várias informações no software, como as condições meteorológicas no país na altura do acidente (velocidade e direcção do vento, humidade e pressão atmosférica); cartas com o relevo, a vegetação ou os rios; e a densidade populacional. No caso desta simulação, o resultado é para as 48 horas seguintes à fuga. "Mas podemos analisar a nuvem radioactiva hora a hora, durante o tempo que quisermos", explica António Ferreira. Tudo depende da rapidez com que se quer obter resultados.

A hipotética nuvem iria propagar-se até Santarém e Lisboa e, ao aproximar-se da costa, os ventos iriam empurrá-la para norte, até perto de Coimbra. Bastaria que as condições meteorológicas fossem outras e o trajecto mudaria. Entre os resultados vêem-se as áreas de perigo, com a nuvem fictícia a afectar 12 mil quilómetros quadrados e mais de 1,6 milhões de pessoas.

A nuvem teria cores distintas para as diferentes doses de radiação que a população acumularia no organismo se permanecesse 30 dias nessas áreas. Aqueles que teriam sempre de receber cuidados de saúde imediatos seriam 1671 - ou 0,1 por cento do total da população afectada. E se ficassem nessa zona um mês, acumulariam uma dose de radiação de 250 milisieverts (mSv). Qualquer um de nós está exposto por ano, em média, a dois a três mSv.

Ainda nesta simulação, mais de 40 mil pessoas teriam de ser descontaminadas. Mais de 38 mil (2,3 por cento da população afectada) teriam de ser realojadas, senão ao fim de um mês receberiam 50 mSv de radiação. Outras 143 mil pessoas teriam de se abrigar em casa, para evitar a acumulação de 10 mSv passados 30 dias. Aliás, a legislação portuguesa, de 2002, sobre intervenções no caso de acidentes nucleares e emergências radiológicas, estabelece aqueles níveis de radiação (10 e 50 mSv) para as medidas de abrigo e evacuação.

Por fim, mais de 1,4 milhões de pessoas podiam ter uma vida normal, mas a radiação na zona teria de ser monitorizada, como está a fazer-se em Tóquio, a 250 quilómetros de Fukushima.

Apoio à decisão

Por quê fazer estas simulações que têm incertezas? Porque podem ajudar a decidir para onde levar as pessoas e evitar realojá-las em sítios que a nuvem afectará. Ou quem terá de saturar a tiróide com iodo, para evitar a fixação do iodo radioactivo.

"Com estas simulações, não temos qualquer posição quanto à política nuclear usada para produção de energia nuclear ou quaisquer outros fins", frisa António Ferreira. Estes exercícios, diz, destinam-se a aumentar as capacidades do Exército em medidas defensivas e de gestão de incidentes nucleares, radiológicos, químicos e biológicos, em Portugal e noutros países para onde têm ido militares nacionais. "Usamos estas ferramentas no treino das nossas forças e em operações militares. Temos esta capacidade, que pode ser usada no apoio à protecção civil."

Não é capacidade única no país. A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) pode simular um acidente nuclear em qualquer ponto da Europa, diz o físico João Martins, da APA. É o sistema Rodos, criado em projectos comunitários desde 1989, após o desastre de Tchernobil (Ucrânia), por vários países. De Portugal participa a APA, que tem a coordenação técnica de uma emergência radiológica e nuclear no país (a coordenação global é da Autoridade Nacional de Protecção Civil, ou ANPC).

Nas simulações, o Rodos, criado para emergências nucleares, integra previsões meteorológicas, cálculos de dispersão atmosférica, dados das centrais nucleares europeias e da fuga radioactiva em questão, medições da radiação na zona do acidente e pelas redes de alerta de radiação no ar.

Os resultados vão para lá do trajecto da nuvem e da deposição de partículas radioactivas no solo e nas plantas. "Simula a contaminação na cadeia alimentar. As partículas podem entrar ou não na cadeia alimentar."

O Rodos estima ainda se chegou material radioactivo aos rios, lagos ou mar. E indica quando devem ser tomadas várias medidas, em que zonas e por quanto tempo, que podem ir desde a evacuação até à proibição do consumo de alimentos ou descontaminação de áreas habitadas. "Temos esta capacidade de modelação. É um sistema sofisticado de apoio à decisão, que modela desde a dispersão da nuvem até às consequências. Podemos tomar as medidas para proteger a população", garante João Martins.

Almaraz aqui ao lado

Mas se até aqui o exercício foi numa central imaginária em Tancos, a de Almaraz, junto ao Tejo, é uma realidade a 100 quilómetros da fronteira. Para uma central nesse mesmo local, o capitão António Ferreira e o primeiro-sargento engenheiro Vítor Bessa Jorge simularam um acidente grave no núcleo de um reactor.

Apresentaram a simulação na Conferência Internacional de Protecção Civil: Risco Tecnológico Nuclear, em Outubro, em Castelo Branco. "Esta simulação não é baseada na central de Almaraz", diz António Ferreira (porque na conferência estariam autoridades espanholas). "O que usámos foi a localização de Almaraz. Mas dá para ter uma noção [dos impactos]."

Também 1,6 milhões de habitantes, em Espanha e Portugal, seriam afectados por uma nuvem de Almaraz. Na simulação da dispersão da nuvem, neste caso até às 38 horas, com as condições meteorológicas médias de Outubro, em Espanha 0,5 por cento da população afectada teria de receber cuidados de saúde. Dois por cento seriam realojados, dez por cento protegidos e 87,5 por cento monitorizados - uma pequena parte em Portugal.

E com o Rodos, já se simularam acidentes em Almaraz? "Sim, usamos o modelo em vários exercícios, seja a nível bilateral com Espanha, seja comunitário", diz João Martins.

"Se virmos o que aconteceu a 100 quilómetros de Fukushima, é com isso que temos de nos preocupar com um acidente em Almaraz. Os efeitos mais gravosos são sempre entre 25 a 30 quilómetros da central", diz o físico. "Dificilmente haverá necessidade de abrigo em Portugal. Antes de a nuvem cá chegar, saberemos se essa medida será necessária." Muito menos, diz a ANPC, por escrito, deverá ser preciso deslocar habitantes em Portugal. "Os cenários das autoridades espanholas não prevêem isso. Depende das condições meteorológicas, mas é pouco provável."