Futebol

Crónica de jogo: Caminhou o Benfica, voou (para o título) o FC Porto

Hulk festeja o golo do título
Foto
Hulk festeja o golo do título José Manuel Ribeiro/Reuters

Não houve estádio cheio (longe disso), não houve bandeiras na claque do FC Porto e não houve sequer Pinto da Costa no “banco”. Mas houve campeão. Um campeão que entrou com o turbo, sofreu quando foi preciso e bateu sem remissão (1-2) um Benfica abnegado mas errático, capaz apenas de compor uns arabescos pouco contínuos. O jogo teve de tudo um pouco, do mais horrível (bolas de golfe, erros de arbitragens e profissionais que nem sempre se respeitaram) ao quase fantástico (três golos, emoção e alguns bons lances). Faltou foi fair-play a quem apagou a iluminação do relvado e ligou os jactos de água pouco depois do apito final. A escuridão e o banho não esconderam nem lavaram o mérito do novo campeão.

O FC Porto saiu ao campo em estado de excitação, com vontade, como se estivesse atrasado para a festa do render da guarda. E, depois de alguns ameaços, acabou mesmo por marcar no primeiro remate, logo aos 9’. Hulk conduziu a bola, perdeu-a, mas Javi García foi pouco lesto, permitindo que o brasileiro lha roubasse e soltasse Guarín. Sem ângulo para mais, o colombiano tentou centrar, acabando a bola por entrar na baliza depois das mãos de manteiga de Roberto a terem desviado de forma atrapalhada. Um autogolo do espanhol, porque a bola nem sequer ia na direcção da baliza. Um erro de palmatória, mas que premiava a intensidade do jogo portista e a sua organização e qualidade.

Ao Benfica, nesta fase do jogo, custava-lhe fazer os deveres, faltava-lhe precisão, ritmo e ninguém encontrava o caminho da baliza. Talvez porque lhe faltasse a habitual referência na área, uma vez que Jorge Jesus decidiu não arriscar de início em Cardozo (teve problemas físicos durante a semana) e substitui-o por Jara. A outra surpresa foi a colocação no lado direito da defesa (Maxi está lesionado) de Airton, uma opção falhada. O brasileiro passou as passas do Algarve face a Varela e saiu com cãibras.

Um problema a juntar a vários outros, porque Javi García foi um jogador errático durante muito tempo, enquanto Gaitán e Salvio tardaram a entrar num jogo em que o Benfica cedo ficou carregado de amarelos. Não havia sequer sinal da habitual capacidade de fazer a diferença nos duelos individuais, como se os jogadores benfiquistas estivessem atormentados por um adversário que parecia estar em todo o lado.

Estava o jogo neste pé quando, aos 16’, Jara caiu desamparado na área portista. Ficou a ideia de que Otamendi não fez falta, terá sido também essa a opinião de Duarte Gomes, que depois respeitou a indicação do árbitro assistente e confirmou o penálti. Saviola empatou e o Benfica reentrava no jogo, mas sem grande mérito.

O golo do empate deu tranquilidade ao Benfica que, pouco a pouco, se foi soltando, acabando por ganhar algum ascendente num jogo que, até aí, corria fácil para o FC Porto. E seria também numa fase em que o adversário estava melhor que o FC Porto marcaria o seu segundo golo. Guarín progrediu, lançou Falcao, este libertou-se de Sidnei, mas acabou por derrubado por Roberto. Hulk aproveitou o penálti para marcar o seu 21.º golo.

O jogo prosseguiu dividido, com o Benfica a fazer muito barulho na área de Helton. Por vezes dava a sensação de perigo, advinhava-se o remate, pressentia-se o golo. Mas era falso alarme na maioria das vezes, porque do outro lado estava uma equipa que raramente se descompõe e que lhe ganha claramente em equilíbrio.

Jorge Jesus decidiu mudar as coisas ao intervalo. Deixou Aimar e Jara no balneário, trocados por César Peixoto e Cardozo. O Benfica passava a jogar em 4x4x2 clássico, mas se ganhou alguma acutilância na frente (fruto da verticalidade de Coentrão e do assumir de jogo, finalmente, de Gaitán), também ficou mais desequilibrado defensivamente. É verdade que Helton impediu Saviola de empatar, mas, antes e depois, Falcao desperdiçou duas boas situações, a segunda de forma escandalosa, quando aproveitou uma fífia de Sidnei e, isolado, atirou ao lado.

Seguiu-se a expulsão de Otamendi, que voltou a ver um amarelo numa decisão exagerada do árbitro. Villas-Boas reordenou a sua equipa com as substituições, passando a jogar em 4x1x3x1, sem nunca se descompor defensivamente. O Benfica tentou carregar, mas só criou perigo numa cabeçada de Cardozo, que acabaria expulso após uma entrada violenta sobre Belluschi.

Os adeptos benfiquistas começaram então a desertar, os portistas a cantar olés enquanto o FC Porto imitava o tiki-taka do Barcelona. Tudo parecia resolvido, mas este jogo não parecia ter fim. O Benfica foi uma vez mais lá à frente, Helton evitou o golo com uma grande defesa, antes de a bola esbarrar num poste. Depois, foi Cristian Rodríguez que se isolou, mas Roberto voltou a salvar. Finalmente, desesperado pelo apito final, João Moutinho não foi expulso após uma entrada a pés juntos. Seguiu-se a festa e, também, mais cenas tristes.

Ficha de jogo

Benfica 1
FC Porto 2

Jogo no Estádio da Luz, em Lisboa. Assistência Cerca de 40.000 espectadores.

Benfica

Roberto 4, Airton 4 (Jardel 5, 61’), Luisão 6, Sidnei 5, Fábio Coentrão 7, Javi Garcia 5, Sálvio 6, Gaitan 6, Aimar 6 (César Peixoto 5, 46’), Saviola 6 e Jara 5 (Cardozo 3, 46’). Treinador Jorge Jesus

FC Porto

Helton 6, Fucile 5, Rolando 7, Otamendi 6, Álvaro Pereira 6, Fernando 7, Guarín 8 (Cristian Rodriguez -, 81’), João Moutinho 7, Hulk 6, Falcao 5 (Maicon 5, 73’) e Varela 6 (Belluschi 6, 73’). Treinador André Villas-Boas

Árbitro

Duarte Gomes 4, de Lisboa.

Amarelos

Aimar (3’), Airton (13’), Otamendi (16’ e 70’), Fábio Coentrão (21’), Roberto (25’), Fucile (32’), Javi Garcia (68’), Álvaro Pereira (81’), Jardel (88’), João Moutinho (90+4’).

Vermelho por acumulação

Otamendi (70).

Vermelho directo

Cardozo (86’).

Golos

0-1, por Roberto, aos 9’ (p. b. )


1-1, por Saviola, aos 18’ (g. p.)


1-2, por Hulk, aos 27 (g. p.)