Estas pedras vão desaparecer

As dez pedras têm desenhos infantis inspirados naqueles que os pilotos militares fazem nos seus aviões e bombas
rui gaudêncio
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As dez pedras têm desenhos infantis inspirados naqueles que os pilotos militares fazem nos seus aviões e bombas rui gaudêncio

O artista turco Ahmet Ögüt apresenta na Kunsthalle Lissabon uma exposição que vai desaparecendo ao longo do tempo - usa pedras da rua pintadas com os desenhos que os pilotos de guerra usam nos seus aviões, e envia-as, a pouco e pouco, para a sua cidade natal de Diyarbakir. O que acontecerá com elas depois já não é com ele. O que em Lisboa é arte, em Diyarbakir será uma arma simbólica. Alexandra Prado Coelho

São pedras vulgares, de rua, apresentadas em pedestais pretos, cobertos a veludo. O turco Ahmet Ögüt apanhou-as em Estocolmo, Copenhaga, Amsterdão, Lisboa, pintou-lhes desenhos como os que os pilotos militares pintam nos aviões e nas bombas que lançam - desenhos infantis, bonecos de BD, animais de ar inocente - e colocou-as em dez pedestais expostos (a partir de hoje e até 14 de Maio) na Kunsthalle Lissabon, em Lisboa.

Mas só quem visitar a exposição logo no início conseguirá ver as dez pedras inspiradas na "nose art" dos pilotos militares. Gradualmente, elas vão começar a desaparecer, uma após a outra. Ögüt vai enviá-las para um amigo em Diyarbakir, Turquia, a sua cidade natal. Aí, o amigo deixá-las-á nas ruas, ao acaso.

Ögüt - que vive na Holanda, e em 2009 co-representou a Turquia, na Bienal de Veneza - gosta de trabalhar a ideia de que a leitura que fazemos da realidade depende do contexto. "Gosto desta ideia de uma obra de arte transformada numa coisa que não controlo totalmente", diz. "Quando deixo as pedras na rua não sei o que lhes vai acontecer. Mas isso também não depende da minha decisão."

As pedras (e a decisão sobre o que fazer com elas) podem ir parar às mãos dos rapazes que inspiraram este trabalho, intitulado Stones to throw, que estreia em Lisboa e é o primeiro em que Ögüt lida directamente com a sua cidade natal, algo que "há muito tinha vontade de fazer". No meio dos pedestais da Kunstalle, explica: "Queria chamar a atenção para o que se passa em Diyarbakir, em que muitos miúdos com menos de 18 anos têm sido presos por atirarem pedras. Não há uma lei que diga como se deve tratar os menores nestes casos. Atirar pedras é tratado como outra actividade ilegal e a idade deles não é tida em conta. É como se eles estivessem a usar as pedras como armas muito poderosas."

O que quis fazer foi usar os desenhos absurdamente infantis que os soldados pintam nos aviões e nas bombas e colocá-los em "armas sem poder". As pedras não podem destruir os tanques. "Eles atiram-nas não para destruir alguma coisa mas como prova de que existem, e resistem."

Se um desses rapazes encontrar uma das pedras enviadas de Lisboa pode escolher atirá-la (e o que pensará dela o soldado do outro lado?), ou guardá-la. Só que - e é aqui que a mudança de contexto muda tudo - não olhará para ela como uma obra de arte, como farão as pessoas que visitarem a Kunsthalle Lissabon. "Aqui, em Lisboa, a pedra vai parecer valiosa [é, aliás, por isso que está sobre veludo], mas se tiveres a sorte de a encontrar em Diyarbakir, podes pô-la no bolso e passa a ser tua."

Vigilância de 23 horas por dia

O que vale por uma razão em Lisboa vale por outra em Diyarbakir - o contexto altera a realidade e esta é uma das questões na obra de Ögüt. Outra das peças que o artista traz a Lisboa brinca também com as diferentes percepções da realidade: "Somebody else"s car" (de 2005) é uma série de slides que mostram Ögüt a transformar dois carros escolhidos ao acaso num parque de estacionamento. Usando papel e outros materiais, em cerca de 15 minutos deixa os dois carros transformados num táxi e num veículo da polícia.

"São intervenções públicas, nas quais não espero para saber o que acontece depois. Interessa-me esta acção temporária [não ficam marcas definitivas nos carros], que cria uma ilusão temporária. Imagino que quando as pessoas vêem o carro não o reconhecem, hesitam, ficam alienadas do seu próprio objecto privado". Como intervenção é algo que desaparece rapidamente (tal como as pedras da Kunsthalle), mas Ögüt espera que a experiência deixe questões na cabeça das pessoas. "Há uma espécie de diálogo que permanece mesmo depois do trabalho desaparecer".

A mesma experiência de introduzir um elemento de estranheza na realidade acontece na peça (também exposta em Lisboa, mas só para quem estiver muito atento) "This area is under 23 hour video and audio surveillance" (2009). Um cartaz, exactamente igual aos oficiais, é colocado em locais públicos avisando que a área está sob vigilância - 23 horas por dia. "Houve pessoas que quando o viram acharam que havia uma falha de segurança, que alguém se tinha enganado." Ou então as pessoas podem simplesmente ficar a pensar qual será a única hora do dia em que o local está sem vigilância.

Questionar a realidade que tomamos como "a verdadeira" - é esse um dos objectivos de Ögüt. "Se vives numa determinada geografia, isso cria uma realidade à tua volta e começas a pensar "isto é a realidade", mas é apenas a realidade em que tu vives. E há realidades que coexistem em diferentes lugares. O que é normal? O que é real?". E porque é que há coisas que, apesar de existirem, não vemos? Por exemplo, os rapazes que atiram pedras em Diyarbakir. Às vezes é preciso criar pequenos desvios na realidade - como transformar um carro ou introduzir uma subtil alteração num aviso de vigilância - para levar as pessoas a ver o que não viam.

É por isso que o título deste texto não é verdadeiro. Estas pedras só vão desaparecer se virmos a realidade a partir de Lisboa.

Se a virmos a partir de Diyarbakir, elas vão aparecer.