O design industrial português é bom

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A estrutura de andaimes cria vários andares expositivos no Palácio Quintela daniel rocha

São 200 produtos pensados e feitos em Portugal. Exemplos de sucesso que aliam o design à indústria nacional. Ordem de Compra, a nova exposição da ExperimentaDesign, quer deixar-nos mais optimistas

Os andaimes transformam por completo o interior do Palácio Quintela, em Lisboa. As estruturas de ferro dão a este edifício neoclássico construído no século XVIII uma atmosfera industrial. O cenário foi criado para receber Ordem de Compra: O design e a indústria portugueses na economia actual - exemplos de sucesso, a nova exposição da ExperimentaDesign.

O contraste entre as pinturas murais de inspiração histórica e mitológica e os andaimes prolonga-se depois para os 200 produtos expostos, criados por 75 empresas portuguesas. Com eles a Experimenta quer mostrar que o design é um capital estratégico para a indústria nacional, numa altura em que o debate é dominado pela crise económica e política. Arcas congeladoras, bombas de combustível, talheres, roupa de cama, loiças, torneiras, sapatos, tendas, armários, kayaks e candeeiros made in - feitos e pensados, aliás - Portugal. Objectos que nos habituámos a ver em lojas e escritórios, ruas e jardins.

"Todos estes produtos são feitos e pensados por portugueses e são casos de sucesso nos mercados nacional e internacional", diz Guta Moura Guedes, presidente da ExperimentaDesign, explicando que Ordem de Compra forma um díptico com a primeira exposição da associação no Palácio Quintela - Revolution99/09 - que em Junho do ano passado mostrou dez anos de design português (gráfico e de produto), pondo o foco nos criadores. "[Agora] queremos deslocar o olhar para quem produz e falar da importância do design para o aumento da competitividade do nosso país e das nossas empresas", acrescenta Guta Moura Guedes.

Luís Ferreira, membro da equipa da Experimenta que fez o trabalho de campo para esta exposição, analisou 400 empresas para seleccionar 75 e diz que "a escolha foi difícil porque nalguns casos era complicado perceber se o design dos produtos era mesmo português". Do seu trabalho resultou um "diagnóstico informal" das empresas e houve muitas surpresas, explica Guta Moura Guedes, desde a desigualdade da distribuição geográfica - "não temos nenhuma a sul de Setúbal e há uma enorme concentração no Norte do país" - a aspectos mais específicos, como descobrir que há pessoas em Portugal a desenhar e a produzir bombas de combustível, a Petrotec.

Entre o cultural e o utilitário

Das 75 empresas seleccionadas, apenas 47 responderam a algumas das perguntas da Experimenta relativas ao número de funcionários e ao volume de exportações: juntas empregam 19 mil pessoas e as suas exportações rondam, em média, os 60 por cento. Guta Moura Guedes e a sua equipa queriam números para mostrar, em termos económicos, como é que a aposta no design influencia o capital das empresas.

"O design tem o desafio de produzir resultados económicos para a indústria, mas não podemos colocar todas as nossas expectativas nos designers", defende a presidente da Experimenta. "As diferentes frentes da empresa têm de funcionar."

Daniel Bessa, director-geral da Cotec - Associação Empresarial para a Inovação, diz que olhar o design como um investimento não é ainda prática generalizada nas empresas portuguesas. "O design só poderá ser considerado investimento em condições muito especiais, de despesas muito avultadas e com impacto a médio/longo prazo", explica ao P2 via email. "Mais do que em investimento, acredito que as empresas portuguesas tenham aprendido a valorizar este tipo de serviços, dispondo-se a incorrer nos respectivos custos para melhorarem a sua competitividade."

E esse investimento é particularmente evidente, diz Luís Ferreira, quando se trata de indústrias em que há uma grande tradição em Portugal, como a dos têxteis e do calçado, dois dos núcleos expositivos de Ordem de Compra. É lá que o visitante pode encontrar marcas que se habituou a ver e a usar, como a Home Concept, a Camport ou a Fly London.

Propondo-se gerir o intervalo entre o objecto cultural e o utilitário, a exposição tira partido desta sensação de familiaridade com o objecto, seja um rolo de papel higiénico, uma rolha de cortiça, uma bilha de gás ou um esquentador ecológico.

"Nesta exposição - reconhece Luís Ferreira - há uma proximidade pouco habitual entre quem vê e o que vê, porque o observador tem uma memória vivida do objecto."

Indústria artesanal

As escadarias que ligam o primeiro núcleo da exposição - dedicado a mobiliário técnico, doméstico e de escritório - aos que se encontram no primeiro piso e incluem desde electrodomésticos a artigos de desporto, estão cheias de mesas com objectos de cerâmica, panelas de aço inoxidável, talheres, e cristais.

É neste tipo de produtos que a indústria portuguesa demonstra uma das suas grandes mais-valias, a qualidade de execução, defende Guta Moura Guedes: "Temos a percepção de que não podemos competir nos preços e na mão-de-obra, que é hoje muito mais cara do que no passado, comparada com outros países, sobretudo fora da Europa. Mas há uma grande competência técnica na nossa indústria e é aí que somos verdadeiramente competitivos. Mas para mantermos essa competência temos de nos actualizar permanentemente e o design é fundamental para essa actualização."

Daniel Bessa diz que, nalguns casos, o design é um dos factores de competitividade, mas está longe de ser o único. "A competitividade é feita de múltiplos factores. Acredito que, no caso das indústrias de bens de consumo (não tanto nas indústrias de bens de equipamento), o design seja um dos factores que mais podem contribuir para a competitividade dos produtos; e acredito que, também nesta matéria, a indústria portuguesa tenha vindo a evoluir favoravelmente (por exemplo, na gama de preços em que competimos, uma indústria como a portuguesa do calçado não teria conseguido um desempenho tão satisfatório como o que evidenciou em 2010 se não tivesse contado, também, com um design competitivo)." Mas, acrescenta Bessa, design não se confunde com mão-de-obra, em que há, efectivamente, "uma tradição de grande qualidade": "No limite, posso ter peças muito bem acabadas, mas que não se distinguem pela sua qualidade estética ou de design."

Mas, no caso da exposição Ordem de Compra, a equipa curatorial da Experimenta responde pela qualidade do design, explica Moura Guedes. "O título Ordem de Compra é propositadamente provocador. Nesta crise parece estranho estarmos a apelar ao consumo, mas é preciso que as pessoas comprem o que se faz em Portugal. E isto não é só para ajudar a nossa economia, mas porque há muitas coisas que a nossa indústria faz bem, melhor do que a de outros países." E essa qualidade, que vai do desenho à produção, está muito ligada à importância que a vertente artesanal ainda mantém.

"Parte do nosso processo industrial tem âncoras na produção artesanal e isso torna-nos muito competitivos." A vertente artesanal limita a quantidade, mas é muito valorizada e justifica preços mais elevados. "Somos muito bons a trabalhar. E isso vê-se nos acabamentos, na entrega ao projecto. Não há arquitecto ou designer estrangeiro que trabalhe com as nossas empresas que não o reconheça."

Para Pedro Miguel Oliveira, gestor do departamento de design da Iduna, uma empresa de mobiliário técnico (escritórios, museus, bibliotecas) que tem quatro produtos nesta Ordem de Compra, a qualidade de execução depende muito de empresa para empresa, e a prevalência do artesanal resultou de uma menos-valia (a falta de investimento na tecnologia) que acabou por se transformar numa mais-valia. "Na Iduna somos assumidamente low-tech. Apostamos na honestidade do desenho e na simplicidade dos processos. Isso dá-nos versatilidade e capacidade de resposta."

Com 65 funcionários, um volume de exportações que, segundo Oliveira, rondou os 70 por cento no ano passado, e uma equipa interna de criação com três designers e três técnicos, a Iduna especializou-se no desenvolvimento de projectos em colaboração directa com os arquitectos. E da sua lista de clientes fazem parte a ARX Portugal (arquitectos Nuno e José Mateus), o francês Philippe Starck (projecto em Bilbau) ou o holandês Rem Koolhaas (mobilaram o seu atelier).

"O design é cada vez mais capitalizável nas empresas portuguesas", acrescenta Oliveira, para quem há uma "aposta crescente no sector dos têxteis e do calçado".

Pedro Martins Pereira, presidente da Larus, empresa de mobiliário urbano que mostra na exposição um dissuasor de estacionamento, um bebedouro e uma papeleira, garante que o design é um factor diferenciador das empresas, assim como a capacidade de dominar vários tipos de materiais e tecnologias.

Com 38 funcionários e vários prémios nacionais e internacionais no currículo, a Larus, que trabalha há 23 anos com arquitectos e designers como Álvaro Siza, Eduardo Souto Moura, Daciano da Costa, Alcino Soutinho e Filipe Alarcão, tem um gabinete de desenvolvimento permanente e, este ano, deverá exportar entre 15 e 20 por cento da sua produção. "A nossa mais-valia é a capacidade de desenvolver novos produtos em parceria com os autores, que confiam nas nossas capacidades técnicas", acrescenta Martins Pereira.

Capacidade técnica é o que têm empresas como a Jamanta/Semente (pranchas de surf), a Revigrés (revestimentos cerâmicos), e a Masterguardian (equipamento e electrodomésticos). Até 3 de Julho, quem percorrer os vários núcleos de Ordem de Compra, subindo e descendo andaimes, passará a ter, garante Guta Moura Guedes, 200 razões para se sentir optimista em relação ao futuro da indústria portuguesa.