O fim de um mundo

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O sr. ministro Teixeira dos Santos, criatura pouco da minha estima, disse que o "buraco" agora descoberto pela "Europa" no orçamento do ano passado era uma espécie de batota. A "Europa" tinha, à sua maneira, alterado "o marcador depois do jogo". O comentário não deixa de ser curioso, porque referido "buraco" consistia no dinheiro afundado no BPN e em subsídios a companhias de transporte. Mas, pensando bem, não admira que o Estado considere actos naturais salvar a ladroagem em nome do prestígio da pátria e poupar a bolsa do cidadão comum. Quem, de resto, manda na REFER, na CP, nos Metropolitanos de Lisboa e do Porto e também na Carris é o Conselho de Ministros (ou o ministro da tutela), que se preocupam sobretudo em não ofender a populaça urbana e suburbana, aumentando por exemplo o preço dos bilhetes. Que esta política dê resultados suicidas não os parece perturbar.

A algazarra que por aí se estabeleceu com a demissão de Sócrates, perde de vista o essencial, como luminosamente demonstrou o dr. Teixeira dos Santos. Cada português se acha no direito a que o Estado lhe pague a escola e a universidade (incluindo, para quem precisa, uma bolsa de estudo); a que o Estado o assista na doença e na "terceira idade"; a que o Estado (em certos casos) lhe dê uma habitação condigna; ou a que o Estado lhe garanta o emprego e o salário e, no funcionalismo público, uma carreira regular e rápida. E isto, na cabeça do cidadão esclarecido, é só uma parte daquilo a que o Estado pelo simples facto de existir se obrigou com ele. Basta abrir um jornal ou ligar a TVI ou a SIC para se perceber que o país não põe o mais vago limite ao que julga o seu património social.

Esta civilização em que vivemos - e a palavra é justa - foi criada a seguir à II Guerra, durante 30 anos de uma extraordinária e irrepetível prosperidade, pela esquerda socialista e social democrata (às vezes com o apoio da democracia-cristã e até de alguns partidos conservadores). Do berço à cova (não em Portugal, claro), o Estado tratava da nossa querida vida e resolvia os nossos problemas. Não vale a pena discutir os méritos desta horrível visão. Mas vale com certeza a pena compreender que esse mundo não volta e que os vestígios dele irão desaparecendo lentamente na miséria geral. A Europa já não é uma potência, é um lugar turístico. E o dinheiro acabou. Ninguém sabe o que aí vem, para lá da dívida e do défice, excepto que seguramente não será nada como dantes.