Entrevista a Frederico Abreu e João Mineiro

“Sócios do Sporting não sabem toda a verdade”

João Mineiro (à esquerda) e Frederico Abreu
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João Mineiro (à esquerda) e Frederico Abreu Pedro Cunha

Frederico Abreu e João Mineiro defendem que só um conselho fiscal e disciplinar (CFD) independente poderá realizar uma auditoria aos últimos 16 anos de gestão. Ambos alertam também para o facto de estas eleições estarem centradas no investimento no futebol e pouco preocupadas com a sustentabilidade de um clube que teima em caminhar “para o abismo”.

Porque apresentam uma lista apenas ao CFD?

Frederico Abreu (FA) – Porque acreditamos que é fundamental uma auditoria no Sporting, que, para ser bem feita, terá de ser executada por elementos independentes dos outros órgãos sociais. Uma das linhas fortes desta candidatura é chamar a atenção para a necessidade de separação de poderes. Por exemplo, o presidente da mesa da assembleia-geral (AG) é o primeiro representante de todos os sportinguistas enquanto associados e devia ter um distanciamento total da direcção. A mesma lógica pode ser aplicada ao CFD. É este órgão que, se for independente, tem condições para fazer uma auditoria, recolhendo informação de forma objectiva, apurar a evolução do passivo, da gestão e do património, para os sócios ficarem realmente informados. Desta forma, poderiam ter votado de forma mais consciente a última proposta de reestruturação financeira…


João Mineiro (JM) - E o exemplo da reestruturação financeira é perfeitamente elucidativo para ilustrar aquilo que pretendemos evitar de futuro. Foi dado a entender aos sócios que esta operação iria libertar um determinado montante para investir mais na equipa de futebol. Uma ideia totalmente falsa, já que a reestruturação se destinou apenas a capitalizar dívida.


Quais são as principais respostas que esperam obter com a auditoria?

FA - A última auditoria no Sporting foi mandada fazer em 1995, no mandato de Pedro Santana Lopes, após a saída de Sousa Cintra. Na altura, o Sporting tinha um passivo de 27 milhões de euros e um activo considerável, com prédios, terrenos e outros bens imobiliários. 16 anos depois, temos um passivo gigante e não temos activos praticamente nenhuns. Esta evolução tem de ser explicada. Algum dia terá de ser feito, até para pacificar e recuperar o clube.


JM – Esta auditoria teria uma função quase higiénica para o clube: perceber o que é que aconteceu. A seguir poderá partir-se para um momento de construção.


E a auditoria será só à gestão financeira e património?

FA – Não só. Irá também abranger todos os investimentos no futebol. Relacionar o valor da equipa de futebol versus os resultados desportivos e a sua competitividade. Isto tudo para evitar, de futuro, aquilo que para nós é claro: a falta de organização. É que nem sempre o ter mais dinheiro pode ser associado a uma melhor prestação. Actualmente vivemos no pior de dois mundos: temos mais dinheiro e menos resultados. O Sp. Braga provou, no ano passado, que se pode fazer muito com menos dinheiro. O que é verdade é que, nos últimos dois anos, se destruiu imenso a capacidade financeira e económica e que os resultados desportivos são medíocres.


JM – A nossa lista para o CFD quer alertar para a necessidade de dissociar aquilo que é sustentabilidade daquilo que é investimento no futebol. Esta campanha tem provado que é muito mais fácil falar de investimento, na compra de jogadores, mas, acima de tudo, o Grupo Sporting tem de ser sustentável. Neste momento tal não acontece e estamos a caminhar para o abismo. Se estamos numa situação insustentável, não podemos falar de investimento que só a vai agravar.


É de investimento que mais se tem falado nesta campanha…

JM – É precisamente por isso que é fundamental ter um CFD independente. É que, neste momento, não existe informação nem transparência.


FA – A minha pergunta é a seguinte: será que os sócios estão na posse de toda a verdade? Acho que não. É necessária a consciencialização do sócio anónimo que tem pouca informação e conhecimentos económicos. Tem de ser simplificada o economês pesado que se tem utilizado para falar do clube e que não explica que estão, na realidade, a matar o Sporting.


Para essa consciencialização dos sócios não teria sido importante a vossa candidatura ter surgido mais cedo?

JM – Havia já um grande espartilhamento do que eram listas e ideias de todas as listas que foram surgindo e nós não quisemos contribuir para alguma confusão.


FA – Na realidade temos feito algumas acções de sensibilização, mas a mensagem não passa. As redacções da comunicação social, nomeadamente da imprensa desportiva, não nos têm dado visibilidade, porque somos uma voz incómoda. Face a isto, a estratégia passou por concentrar as acções de campanha numa fase mais derradeira, onde haverá mais apetência para perceber o que é que está a acontecer. Até porque a nossa campanha não tem grandes meios financeiros envolvidos ou estratégias de comunicação. É um trabalho que tem de ser feito quase de forma pedagógica, porque as pessoas preferem ouvir falar de jogadores e treinadores.


Têm seguido com atenção as constituições dos conselhos fiscais das listas candidatas à direcção?

JM – Sim. Ficámos particularmente surpreendidos com as declarações do cabeça-de-lista para o conselho fiscal proposto pelo candidato Godinho Lopes [João Mello Franco]. Numa entrevista confessou que não conhecia as contas do clube.


Um CFD independente não pode ser considerado uma força de bloqueio pela direcção?

JM – Nós não queremos ser uma força de bloqueio, mas temos de perceber que o CFD não pode estar cerceado, como até aqui, por opiniões que vêm de cima, do conselho directivo. Não há a tal separação de poderes. O que tem acontecido até agora é que um auditor e um credor do clube têm lugar no actual CFD. São executores e controladores ao mesmo tempo.


FA – E esta situação irá permanecer com a lista candidata ao CFD proposta pela candidatura de Godinho Lopes. Caso ganhe, a promiscuidade vai continuar, já que José Maria Ricciardi [presidente do Banco Espírito Santo de Investimento] integra o elenco como vice-presidente. Depois, o próprio candidato a presidente do CFD está envolvido com Carlos Barbosa, um dos principais elementos da lista para a direcção de Godinho Lopes, na direcção do Automóvel Clube de Portugal. Com estas relações, as pessoas não têm uma total independência.


Actualmente, que informação têm os sócios sobre as contas do Grupo Sporting?

JM – Às contas do clube, que, neste momento, representam 10 por cento do grupo empresarial; às contas da Sociedade Anónima Desportiva (SAD), porque é uma sociedade cotada, mas onde, até há pouco tempo, estavam localizados apenas cerca de 12 por cento do passivo bancário. Tudo o resto é totalmente desconhecido. Informação é poder e, neste momento, não existe. Assistimos há dias ao ridículo dos candidatos irem reunir-se com o engenheiro Nobre Guedes para se inteirarem da situação do clube.


FA – Fazendo um paralelismo com o Estado português, imagine-se um Instituto Nacional de Estatística que não fosse independente do Governo. Caso contrário, como teria liberdade para publicar os verdadeiros números do deficit e outros indicadores económicos que se pretendem independentes e rigorosos. Não lembra a ninguém considerar este organismo uma força de bloqueio.


E como vão tratar a informação se forem eleitos?

JM – Nós propomos organizar indicadores de gestão, que podem ser muito facilmente perceptíveis pelos sócios, comparáveis de ano para ano. Estes dados seriam depois publicitados entre os sócios, nos finais das épocas desportivas. Queremos fazer um livro branco dos últimos 15 anos, para se aprender com os erros que foram cometidos, e começar a ter uma informação transparente. Com isto, o nível de discussão no Sporting vai automaticamente elevar-se, já que os números falam por si. No passado, das vezes que solicitámos oficialmente informações nas vésperas de assembleias-gerais, acabou, na grande maioria dos casos, por ser recusada. Esta situação é sintomática. A partir do momento em que se fecha o clube aos sócios eles vão embora e, neste momento, é assustadora a curva descendente do número de associados efectivos com cotas em dia.


FA – Queremos trazer a meritocracia a este clube. Para o bem e para o mal, temos de responsabilizar quem de direito.


As transferências de Paulo Pereira Cristóvão e Pedro Cunha Ferreira do Movimento Ser Sporting para a direcção da lista de Godinho Lopes fragilizaram de alguma maneira a vossa posição?

FA – Quem acompanhou o trabalho do Leão de Verdade, que esteve na base deste projecto, e quem acompanhou o próprio Movimento Ser Sporting, sabe que nenhum dos dois contribuiu com nenhuma linha do programa que apresentámos nas eleições de 2009, quando concorremos contra José Eduardo Bettencourt [com Paulo Pereira Cristóvão como cabeça-de-lista à direcção]. Não foram eles que contribuíram com as ideias e as suas saídas não me surpreenderam.


JM – Quem trabalhou para o Ser Sporting permaneceu e continua com os mesmos ideais. Quem trai os princípios e as pessoas, não merece muito a nossa atenção e desse tipo de gente não reza a história.


Tiveram convites para se juntarem a outras candidaturas concorrentes às eleições?

JM – Partilhamos algumas ideias e alguns objectivos com algumas listas, mas o nosso objectivo aqui foi exactamente marcar uma posição independente.


Que outros objectivos tem a vossa lista caso venha a ser eleita?

JM - Queremos garantir que alguns compromissos que foram assumidos pelas anteriores direcções junto dos sócios irão ser cumpridos, nomeadamente a manutenção da maioria accionista do clube na SAD.


Quando os Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis (VMOC) que foram emitidas e adquiridas, por tomada firme, pelo BES e Millennium, forem transformados em acções, o Sporting perderá a maioria accionista…

JM – Esse foi um “presente envenenado”, para o qual alertámos em tempo útil, da reestruturação financeira que foi parcialmente aprovada em assembleia-geral no mandato de José Eduardo Bettencourt. A forma como esta operação foi montada, exige que o Sporting, no futuro, tivesse meios financeiros para cobrir a parada.


Que valor é que estamos a falar?

JM – Para manter os 51 por cento das acções, o Sporting terá de despender aproximadamente de 14 milhões de euros quando os VMOC forem transformados em acções [o que pode acontecer já dentro de dois anos]. Isto só piora um cenário, já por si muito mau. O Sporting Clube já não tem praticamente património, exceptuando o estádio, e um futuro presidente poderá ser confrontado com a necessidade de fazer um aumento de capital na SAD, para garantir a maioria accionista, e a única forma que terá para o fazer será a passagem para esta sociedade dos direitos de superfície do próprio estádio. Está manietado nas suas opções. Os sócios não tinham consciência deste cenário. Muitas pessoas estão interessadas em que seja alienada a maioria da SAD e o seu controlo de gestão, mas a minha pergunta é a seguinte: sem o clube controlar a gestão da principal modalidade que razão têm os sócios para o continuarem a ser.


Mas é muito importante o Sporting Clube manter a maioria accionista?

JM – É importante do ponto de vista patrimonial, identitário e financeiro. Neste último caso, face à situação de ruptura financeira em que o clube se encontra, a única forma de recuperar passa por gerar mais-valias substanciais que só podem ser geradas através do futebol. Ou seja, o Sporting Clube não pode abdicar do controlo da única entidade que, bem gerida, pode garantir a sua sobrevivência e salvação.


FA – Se o Sporting entregasse o negócio do futebol, este passaria a ser gerido de fora e a tomar as suas opções visando outros interesses que não o clube. Se perdêssemos o controlo do futebol voltaríamos a ficar com o pior de dois mundos: não seríamos um clube que pudesse ser comprado por um Abramovich milionário, mas também não seríamos exactamente um clube de sócios. Ficaríamos numa situação híbrida: por um lado, um clube de sócios quando se trata de empurrar o passivo; por outro, para aquilo que interessa, que é a compra e venda de jogadores, já poderá haver um investidor que ficaria com a mais-valia do jogador a, b ou c.


Como têm visto as opções de muitos candidatos em recorrerem a fundos para investir no futebol?

JM – Os fundos fazem sentido e podem ser uma boa opção, desde que as suas regras sejam claras, mas é preciso demonstrar que o dinheiro que vai ser gasto para a manutenção dos salários dos jogadores a contratar pelos investidores será sustentável. É preciso alertar que as receitas provenientes de uma vitória no campeonato, mesmo que esta surja já no próximo ano, não serão suficientes nem para cobrir os prejuízos actuais nem para cobrir investimentos adicionais na equipa não sustentados. Por exemplo, este ano a SAD vai acumular mais prejuízos apesar das receitas extraordinárias das vendas de dois importantes activos como Miguel Veloso e João Moutinho.