Inocentes

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osé Sócrates resolveu apresentar ontem de surpresa e sem, como devia, informar o Presidente da República, o IV PEC deste último ano. A conversa não mudou: o PEC é preciso para tranquilizar a Europa, depois daquele não haverá outro, seria muito irresponsável e muito negativo para Portugal que a oposição não o aprovasse, e por aí fora. Esta homilia foi pregada com o mesmo fervor e sem o menor vestígio de embaraço ou vergonha em 21 de Março, 16 de Junho e 10 de Outubro de 2010 e repetida agora, em 11 de Março de 2011. Presumo que lá pelo Governo nunca se fizeram contas, ou que não existe maneira de as fazer, e, quando o dinheiro falta, Sócrates vai à caça do dinheiro dos portugueses. Mas, como as despesas não diminuem, nem a economia cresce, ninguém leva a sério estas razias e os juros continuam a subir.

O mais estranho é que o país não se parece importar. A complacência indígena para os governantes que levaram Portugal ao desespero e à miséria roça a santidade. O dr. Cavaco, por exemplo, que preparou amoravelmente a conversão do nosso antigo escudo no euro e, com isso, de certa maneira, permitiu (a até provocou) os sarilhos presentes, recebeu em troca o Palácio de Belém, onde pode observar impávido a degradação do país. Guterres, que chegou a seguir e acabou por desorganizar a preceito as contas do Estado, ascendeu logo à carreira beatífica de comissário da ONU para os Refugiados. Durão Barroso, esse, resolveu não esperar pelo pior e, assim que pôde, fugiu para as mais verdes pastagens de Bruxelas. Dúzias de outros arranjaram os seus ninhos no "sector público" ou no que por aí eufemisticamente se chama o "sector protegido". Não se ouviu um murmúrio. A pátria acha estas coisas bem.

Aqui, os políticos, que, por incultura, incompetência, corrupção e estupidez, defraudaram o próximo e lhe estragaram seriamente a vida, são personagens simpáticas (e, às vezes, respeitáveis), que a populaça aprecia. Não passa pela cabeça de nenhum patriota pedir contas do sofrimento inútil que lhe infligiram. Nem os jornais, nem a televisão se atrevem a tratar os "notáveis" como ele merecem. A própria universidade os convida para presidir a obscuras comissões, que não servem de nada e onde eles pontificam a seu gosto e arbítrio. A política é única profissão no país que goza da mais completa impunidade. Quem se admira com a impunidade de Sócrates devia olhar à volta com cuidado.