Chile: 33 mineiros ainda à procura do seu lugar

Foto: Ivan Alvarado/Reuters
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Foto: Ivan Alvarado/Reuters

No fundo da mina escreveram-se cartas de amor e de despedida, diários e poemas. Fumou-se muito, por vezes marijuana. Houve momentos de desespero e de euforia, pensou-se em suicídio e até em transformar em comida o primeiro mineiro que morresse. O jornalista Jonathan Franklin esteve ao lado das equipas que resgataram os 33 homens soterrados durante 69 dias a 700 metros de profundidade na mina de San José, no deserto de Atacama, no Norte do Chile, e acaba de publicar Os 33 - O Dramático Resgate dos Mineiros Chilenos. Está em Portugal para falar da história mais emocionante da sua vida.

Franklin tem 46 anos, nasceu nos EUA, mas vive no Chile desde 1995. Assistiu a terramotos, à forma como o país se reergueu da ditadura de Pinochet, que deixou mais de três mil mortos e desaparecidos, mas nunca terá pensado que um dia iria acompanhar uma das operações de resgate mais espectaculares de sempre. Fê-lo na linha da frente, com a mesma credencial de acesso que as equipas de salvamento que, de 4 de Agosto a 13 de Outubro de 2010, foram às profundezas da mina de San José, buscar os 33 homens.

Foram dois meses num acampamento que às vezes lhe fez lembrar um festival de rock, outras um campo de refugiados. "Foi, sem dúvida, a história mais edificante e emocionante da minha vida, uma mistura constante de esperança e medo", disse ao P2. Em Portugal, o livro foi editado pela Civilização.

Durante aqueles dias escreveu no diário britânico The Guardian e no norte-americano Washington Post. E, agora, recorda-se sobretudo das crianças à espera que os pais voltassem para cima. "Muitas delas tinham nas mãos desenhos de homens debaixo de terra."

Quando chegou à mina, a derrocada tinha acontecido há 19 dias e os mineiros já tinham enviado, através de uma sonda de 12 centímetros de diâmetro, a mensagem "Estamos bien en el refúgio, los 33." Sabia-se que estavam vivos, não se sabia como sairiam.

"Achas que vá trabalhar?"

São 6h00 da manhã quando toca o alarme do telemóvel em casa de Mario Gómez, o mineiro mais velho do grupo. É um som madrugador e aborrecido. Mario pergunta à mulher, Lilian Ramírez: "Achas que vá trabalhar?" Ela incentiva-o a faltar. Há muito que tentava convencer o marido, de 63 anos, a apresentar os papéis para a reforma. Ele, que já perdera dois dedos numa explosão numa mina, nunca deixara de trabalhar. Nesse dia, levanta-se e vai apanhar o autocarro, descreve Franklin.

A mina de San José, agora encerrada, é um labirinto de seis quilómetros de túneis. Lá em baixo a temperatura está quase sempre acima dos 30 graus.

No dia da derrocada, às 17h40, Mario Segura, do grupo de operações especiais da polícia, recebe um telefonema na esquadra de Copiapó, a cidade mais próxima, a pedir uma equipa de resgate. Pouco depois, os nomes dos mineiros que estavam de serviço começam a passar no ecrã da televisão chilena, mas Liliane Ramírez não vê. Por isso, quando ouve a carrinha que costumava trazer Mario Gomez de volta, põe o jantar no microondas. Entretanto, estranha a demora, abre as cortinas da janela e vê o chefe do marido. "Meu Deus, aconteceu alguma coisa." Tinha havido um acidente, disseram-lhe sem mais pormenores. Ela pôs-se a caminho e, como tantos outros familiares, só voltaria a casa dois meses depois. "Dezenas e depois centenas de familiares e amigos dos mineiros afluíram à mina de San José na tarde do dia 5 de Agosto e na madrugada de sexta-feira, dia 6. Trouxeram sacos-cama, comida e cigarros, que fumavam uns atrás dos outros."

O presidente Sebastián Piñera estava no Equador, mas regressou rapidamente ao Chile. No dia 7 chegou também o ministro das Minas, Laurence Golborne, a quem coube a missão de dizer às famílias que as notícias não eram boas.

A fome e o canibalismo

Lá em baixo, as horas passavam sem notícias e sem comida. A liderança estava nas mãos do chefe de turno, Luis Urzúa, mas também de Mario Sepúlveda, outro dos mineiros. O mais novo dos 33, Jimmy Sánchez, de 19 anos, começou a ter alucinações.

O mineiro Edison Peña engendrou um sistema de iluminação com as baterias dos veículos, ataram-se garrafas ao tubo de escape para aquecer água e fazer chá. Urzúa já tinha racionado a comida, Victor Zamora começou a escrever um diário. Poucos dias após a derrocada a fome era tal que Samuel Ávalos percorreu a parte da montanha onde os 33 estavam bloqueados, revirou caixotes do lixo, encontrou cascas de laranja entre os papéis e relatórios da mina e comeu-as com prazer.

Na memória dos mineiros estava bem presente a história da equipa de rugby que, em 1972, se despenhou numa zona remota dos Andes junto à fronteira com o Chile, quando vinha do Uruguai, e foi forçada a recorrer ao canibalismo para sobreviver. Com o tempo a passar, este era também um fantasma que pairava na mina de San José.

"Os homens tinham que pensar o que fazer se algum dos mineiros morresse e só tinham duas opções, enterrá-lo ou comê-lo. Nestas circunstâncias extremas tiveram de considerar as duas opções. Se alguém tivesse morrido na primeira semana, certamente tê-lo-iam enterrado, mas se tivesse morrido ao 16.º dia, estou certo de que haveria um vigoroso debate, talvez até uma votação sobre isto", revela Franklin.

Em Os 33, Franklin conta que os mineiros se referiam a "Los Uruguaios" em código, para evitar falar directamente do seu maior medo: "Que depressa seriam forçados a comer-se uns aos outros." A determinada altura, o mineiro José Ojeda contou aos companheiros que tinha bebido a própria urina, porque a água contaminada dos tanques lhe sabia mal. "Disse aos outros e chamaram-me doido. Eu sabia que "Los Uruguaios" tinham feito a mesma coisa."

Ao 11.º dia de clausura, o mineiro Mario Sepúlveda deixou-se abater. "A pressão e o stress das importantes responsabilidades que tinha imputado a si próprio eram de mais. Chorou. Deitado na cama. O comandante da missão era agora ele próprio um náufrago." Aos poucos, vários mineiros começaram a escrever cartas de despedida. Primeiro Victor Zamora, depois Victor Segóvia e Mario Sepúlveda.

A carta de Sepúlveda era para o filho, Francisco, de 13 anos. "Tens de tomar conta da tua mãe e da tua irmã e protegê-las... Agora és o homem da casa." Enquanto isso, Ariel Ticona perguntava-se se já teria nascido a sua filha Carolina - que viria a chamar-se Esperanza, como o acampamento onde as famílias esperaram dias a fio pelos mineiros.

Chegou a "paloma"

Após 17 dias soterrados, os mineiros estavam prestes a ter a primeira boa notícia. Eram 5h50 de 22 de Agosto, quando a broca de um dos três planos de resgate atingiu o refúgio e "quebrou a calma no interior do túnel húmido e escorregadio". Chegava a "paloma", o pombo-correio de 12 centímetros de diâmetro por onde seriam enviados medicamentos, cartas, sistemas de comunicação e comida.

"Era de loucos, havia gente a correr em todas as direcções", contou o mineiro Richard Villaroel. Lá fora, no Acampamento Esperanza, agitavam-se bandeiras e gritava-se "Viva Chile!"

Mario Sepúlveda usou um elástico das cuecas para prender uma mensagem à broca, mas não seria a mensagem que Piñera mostrou aos jornalistas. Pintada a letras vermelhas, chegou à superfície a notícia mais esperada. "Estamos bien en el Refúgio, los 33." Quando finalmente puderam pedir alguma coisa, a escolha dos mineiros foi simples: escovas de dentes.

Houve festa dentro e fora da mina, mas ainda seria preciso esperar pelo resgate. "Daqui fala Luis Urzúa, o chefe de turno, estamos à espera de ser resgatados", ouviu o ministro Golborne depois de ter sido enviado pela "paloma" um telefone rudimentar. Ao lado do ministro estava Alberto Iturra, o psicólogo da equipa de resgate que depressa viria a enfurecer os mineiros.

O grupo não gostava das sessões diárias de conversa com o psicólogo, e menos ainda de algumas das suas regras, como o controlo da comunicação com as famílias. Para baixo foi enviada uma pequena televisão, começaram a chegar cartas, mas os mineiros notaram a ausência de algumas mensagens e chegaram a perguntar se não haveria um polícia que prendesse Iturra. Até enviaram pedras preciosas para cima para que o psicólogo fosse afastado, conta Franklin. Organizaram uma greve e ameaçaram deixar a "paloma" entupir com comida. "Depois de quase terem morrido à fome, os mineiros estavam agora a ameaçar com uma greve de fome."

Doces, drogas e uma "praia"

Iturra foi temporariamente afastado, a censura terminou, e com isso chegaram novos problemas. "Começaram a introduzir cigarros, medicação, até drogas na "paloma". Não devia ter havido tantas permissões", disse a Franklin a mulher de Mario Sepúlveda, Katty Valdivia. "Uma mulher conseguiu meter uma carta dentro da mina para o amante secreto - um dos mineiros. Disse-lhe que estava grávida."

Também chegavam doces, chocolates e bolachas, quando já estava a ser preparada a cápsula Fénix para o resgate que não permitiria aos mineiros ter um perímetro maior do que 47 centímetros. E chegavam drogas.

"Íamos até à área onde se usavam bulldozers; sabíamos que eles fumavam marijuana. Eles trabalhavam debaixo de um compartimento de plástico que os protegia, e conseguiam fumar um charro, depois um cigarro, e ninguém sabia", contou o mineiro Samuel Ávalos a Franklin. Para o autor de Os 33, ter pequenas quantidades de droga a circular na comunidade criava mais tensão do que aliviava, "provocava sentimentos de ciúme e ameaçava alterar ideias básicas das condições de vida comuns". Meio a brincar, ou talvez a sério, um responsável do Governo chileno chegou a pôr a hipótese de pôr um cão detector de droga à entrada da "paloma". "Vamos fazer disto um posto fronteiriço."

A Fénix chegou a 25 de Setembro e o resgate parecia cada vez mais próximo. Com o passar do tempo, as exigências dos mineiros também aumentavam. Um deles enviou o seu leitor de MP3 ao médico Jean Romagnoli, porque estava cansado de ouvir tanta música reggae e tão pouca música chilena. O médico riu-se e desabafou: "Estes homens já não estão doentes. Agora pensam que isto é o serviço de quartos e que eu sou o raio do DJ deles."

Com um dos três acessos que estavam a ser escavados prestes a chegar ao refúgio, o fundo da mina começou a encher-se de água, a tal ponto que acabou por formar-se um charco de sete metros de comprimento por três de largura. Era a mais improvável das praias, mas tinha água para nadar e brincar. "Eu dava braçadas", contou Mario Sepúlveda a Jonathan Franklin. "Divertimo-nos muito." A "praia" também foi cenário de imagens surreais: "Meia dúzia de homens nus, a 700 metros de profundidade, a divertirem-se num charco."

Um trabalho de equipa

Quando a broca do Plano B chegou ao refúgio, depois de abrir um túnel capaz de deixar passar a Fénix, houve festa no fundo da mina e no Acampamento Esperanza. Começaram os preparativos para o resgate, os mineiros pediram graxa para os sapatos, escolheram músicas para a subida. Victor Zamora quis Buffalo Soldier, de Bob Marley.

O presidente Piñera quis descer, mas a mulher, Cecilia Morel, travou-o com um peremptório "Nem penses nisso." A transmissão televisiva foi controlada pelo Governo, conta Franklin, a tal ponto que poucos souberam que, no dia do resgate, voltou a haver uma derrocada.

"Isto foi um verdadeiro trabalho de equipa", conta Franklin. "É uma história repleta de heroísmo." Passados quase cinco meses, o jornalista ainda mantém contacto com os mineiros e sabe que, para eles, o resgate está longe de terminar. "Não estão muito bem, muitos sentem-se perdidos e não sabem qual o seu lugar no mundo. A sua saúde mental é delicada e eles não gostam da ideia de ter aconselhamento psicológico, apesar de precisarem muito dele."

Numa entrevista recente ao programa 60 Minutes, da CBS, o mineiro Alex Veja contou que está a construir um muro em volta de casa e não consegue explicar porquê. E Victor Zamora disse que tem pesadelos, que às vezes preferia estar morto. "Não consigo ter uma relação normal com a minha família, não sou tão afectuoso com o meu filho." Ele, que "era uma pessoa feliz", ainda não foi resgatado por completo. "O outro eu ainda lá está."