Crítica

Manhã submersa

Revelação de um novo talento nacional do piano

O elogioso texto de apresentação deste disco vem assinado por Mário Laginha. Nos agradecimentos, Luís Figueiredo classifica Laginha de "verdadeiro mestre". Contudo, a referência que imediatamente nos ocorre ao ouvirmos este disco é Bernardo Sassetti. Nesta estreia discográfica o jovem pianista de Coimbra apresenta uma música marcadamente original, onde está sobretudo patente, mais do que a exuberância de Laginha, a contenção que é habitualmente associada aos trabalhos de Sassetti.

Figueiredo revela-se ao mundo com uma abordagem cautelosa, trabalhando maioritariamente temas com tempos lentos, trocando uma eventual sumptuosidade sonora em favor de uma clara elegância. Sem arriscar, este álbum de Figueiredo inscreve-se num metódico classicismo, num caminho com poucos desvios. As pequenas fugas à rota chegam para o final do disco: a ligação a Laginha torna-se evidente no penúltimo tema, "De olhos bem abertos", que poderia fazer parte do repertório do histórico pianista pela vertigem rítmica; o último tema, "No Escuro", mostra um tímido lado experimental, antes de embarcar num rumo previsível.

O piano de Luís Figueiredo tem um óptimo som e ao longo do disco vão sendo reveladas boas ideias e deliciosos detalhes. Nélson Cascais (contrabaixo) e Bruno Pedroso (bateria), dois valores seguros da cena nacional, cumprem a função rítmica com a tradicional competência. Pianista com uma sólida formação académica (Licenciatura em Piano na Universidade de Aveiro, Doutorando em Música - Performance Jazz, passou pelo Hot Clube de Portugal e ainda estudou com Mário Laginha), Figueiredo tem aqui a sua confirmação na prática, afirmando-se um bom executante e compositor - dos nove temas do disco apenas um não é da sua autoria, o standard eterno "I fall in love too easily". Um óptimo valor nacional do piano. E um disco ao qual vale a pena dar toda a atenção.