O casamento é igual à união de facto e esforçamo-nos menos por mantê-lo

"Um grande amor na vida"? Seis em cada dez dizem que existe. E a maioria dos que acreditam na alma gémea garante que já a encontrou. Muitos dos que se divorciam não pensam voltar a casar-se

É o retrato de uma sociedade em transformação acelerada. E algo confusa em relação ao que pensar sobre a forma como se vivem hoje as relações amorosas e conjugais. Por um lado, o casamento de papel passado perdeu importância - 65,4 por cento acham que é "equivalente à união de facto". Por outro, a maioria não tem dúvidas de que quando alguém decide casar-se está a dar um dos passos mais importantes na vida.

Ainda assim, generalizou-se a ideia de que hoje os casais não se esforçam tanto para manter o casamento. E que são menos tolerantes com as falhas da cara-metade - mais de oito em cada dez portugueses pensam assim.

A família, essa, continua a ser central na nossa vida. Mais do que a carreira, ou a segurança económica, por exemplo. Mas a maior parte das pessoas (86 por cento) acha que, por estes dias, ela é vista de forma diferente. E que funciona pior (ver entrevista nestas páginas). É o que revelam os resultados do estudo de opinião realizado em Fevereiro, pela Intercampus, para o PÚBLICO, com base numa sondagem telefónica a 1005 pessoas.

Com os divórcios a aumentar e o número de casamentos a cair a pique nos últimos anos, podia pensar-se que os portugueses perderam o romantismo. Mas longe disso. Seis em cada dez (59,9 por cento) estão convictos que existe aquilo a que se chama "a alma gémea" - os mais jovens, entre os 16 e os 34 anos, em particular.

Não é apenas uma convicção esta, a de que na vida há "um grande amor": a maior parte das pessoas que a partilham garante que já o encontraram (76 por cento).

Pedimos a três sociólogos que estudam a família e a conjugalidade em Portugal, a uma terapeuta familiar e a um psiquiatria para comentar os resultados da sondagem. Todos sublinham que ela não pode deixar de ser lida à luz do momento em que é feito este inquérito. E que momento!

A primeira década do século XXI foi marcada por mudanças tão profundas como esta: "Metade dos nascimentos de crianças em Lisboa já acontece fora do casamento, os pais não são casados. Eu própria fiquei abismada com estes dados, de 2009, e acompanho-os há muitos anos", diz Anália Torres, socióloga, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa, e co-autora da lei do divórcio que entrou em vigor em 2008.

Como estamos a lidar com estas mudanças? "Nalguns casos, como sendo ameaçadoras", diz Gabriela Moita, psicóloga e terapeuta familiar no Porto. Também isso, diz, se reflecte nestas respostas.

43 por cento dos divorciados

não pensam voltar a casar-se

"A permanência do mito romântico não é nada contraditória com o aumento dos divórcios", defende Pedro Vasconcelos, sociólogo e investigador do Instituto Superior da Ciência do Trabalho e da Empresa, em Lisboa. "Aliás, as pessoas acreditam tanto na relação que podem construir que não estão dispostas a viver algo que não seja a relação certa."

Sofia Aboim, do Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa, com vários estudos publicados sobre conjugalidade e família, alinha na mesma ideia: "Se calhar, a insatisfação conjugal é cada vez maior porque o mito do romantismo constrói mas também destrói. Ou seja, deposita-se tantas expectativas na relação com uma pessoa, numa relação que vai preencher a existência, que depois a exigência colocada sobre a relação é tão grande que se pode tornar problemática, é uma fonte de frustração". Entre 2000 e 2009, a taxa bruta de divórcios passou de 1,9 por mil habitantes para 2,5, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Na década anterior, tinha aumentado apenas 0,8 pontos.

O que mostra a sondagem? A generalidade (60 por cento) das pessoas acredita que o casamento "é uma união que se pode dissolver". Uma convicção partilhada mesmo pelas que se dizem religiosas - e que representam 77 por cento da população.

A maior parte, já se disse, acha que o casamento equivale à união de facto - ideia que tem um peso especial entre os jovens e as pessoas com o ensino superior e menor no interior do país. Mais: a maioria não tem dúvidas de que hoje a sociedade aceita melhor o divórcio e há menos pudor em acabar um casamento.

Nada que leve Gabriela Moita a acreditar que as pessoas põem fim à conjugalidade de ânimo leve: "O que vejo na minha clínica são pessoas que, no fundo, acreditam que lindo, lindo é que a relação seja para a vida. Por isso, começam por pedir ajuda para se sentirem bem ali, no casamento, mesmo quando o amor acaba. E o que eu respondo é: "Por que é que há-de pedir ajuda para ficar num sítio onde não se sente bem?" Esta questão de acabar um casamento porque se deixou de gostar, é uma questão nova. E ainda há esta contradição: as pessoas passaram a casar-se por amor, o que não acontecia - o casamento era um contrato, ou um sacramento. Mas procuram os psicólogos porque não entendem como é possível que o amor possa acabar."

Não é de estranhar que seja tão difícil: nove em cada dez casados que acreditam na alma gémea acham que a encontraram. Uma percentagem que só é maior entre os viúvos (94 por cento).

O romantismo revelado pela generalidade dos portugueses é, contudo, abalado - e claramente abalado - por quem já viveu uma relação conjugal que teve um fim. Entre os divorciados, a percentagem de crentes na alma gémea desce para 50 por cento.

Mas não só: mais de dois quintos (42,6 por cento) dos divorciados e separados duvidam que voltem a casar-se ou a viver em união de facto (29,8 por cento dizem que têm a certeza, 12,8 por cento acham, simplesmente, que, "em princípio", não vai acontecer). As principais razões apontadas são, por ordem decrescente, "estar feliz" sozinho (23 por cento), o receio de voltar a viver com outra pessoa (18,2 por cento), a idade e o facto de se ser "muito independente" (13,6 por cento).

Quem já vive em união de facto também não pensa regressar a um casamento formal (oito em cada dez têm essa convicção). Porque não traz nada de positivo (afirma metade dos inquiridos), porque implica "muita burocracia" (17 por cento).

Jovens devem fazer sexo antes do casamento

"O grande amor é a grande fantasia", diz Francisco Allen Gomes, psiquiatra de Coimbra, conhecido especialista na área da sexualidade e na prática clínica da sexologia. Mas, quando acaba, as pessoas hesitam "em meter-se noutra", diz.

A razão que está por detrás desse comportamento espelha, na opinião do psiquiatra, uma outra grande transformação na sociedade portuguesa: "As pessoas podem satisfazer as suas necessidades sexuais e afectivas sem viverem como casal, isso passou a ser público e aceite. Os filhos falam das namoradas dos pais, vão todos juntos passar fins-de-semana e isso não significa que aquela relação vá durar. A sexualidade deixou de ser uma motivação para o casamento." E num lapso de poucas décadas esta ideia está tão arreigada que 69 por cento dos portugueses acham positivo que os jovens iniciem a sua vida sexual antes de se casarem - é entre quem tem o ensino superior que o peso dos que concordam com esta afirmação é maior.

Anália Torres nota, no entanto, que enquanto o número de casamentos tem descido, os "recasamentos" têm aumentado. "Menos do que noutros países, é certo, mas isso é natural. Noutros países existe divórcio há muito mais tempo." Ou seja, muitos não desistem de tentar de novo.

A sondagem que a Intercampus fez para o PÚBLICO revela ainda que a maior parte dos divorciados tem filhos (85 por cento). E a regra é, como seria de esperar, que sejam as mulheres a ficar com eles: 75 por cento das divorciadas têm crianças a cargo.

A adaptação pode não ser fácil, mas mais de metade dos inquiridos (55 por cento) diz que, depois da separação, se ajustou bem à nova forma de exercer as responsabilidades paternais. Já a percepção dos filhos pode não ser tão positiva. Pouco mais de um terço dos inquiridos, que fizeram o exercício de se colocarem no lugar das suas crianças, acreditam que elas não avaliariam positivamente a forma como os pais se saíram no processo de divórcio.

Falta de dinheiro explica

adiamento da maternidade

A maioria dos portugueses adultos é, contudo, casada ou vive em união de facto. E tem relações duradouras - quatro em cada dez estão casados há, pelo menos, 31 anos.

A satisfação com a forma como lá em casa se partilham as tarefas é a regra - sendo certo que os homens estão mais satisfeitos do que as mulheres (92 por cento contra 78,6 por cento), o que não surpreende ninguém.

Apesar de terem filhos (na generalidade dos casos), as pessoas têm consciência de que o adiamento da maternidade e da paternidade é uma realidade que marca o país. E as razões económicas aparecem à cabeça das que justificam este adiamento (39 por cento). É no Sul que esta percepção é mais forte e entre os jovens dos 16 aos 34 anos.

Seguem-se as questões relacionadas com a carreira profissional (15,5 por cento), o desemprego (12,2 por cento), a instabilidade no trabalho (11,4). Há ainda o facto de hoje os jovens estudarem até mais tarde (8,6). Analisadas todas as respostas (esta era uma pergunta aberta), uma conclusão resulta clara: as questões materiais, a falta de dinheiro, a crise, são os grandes protagonistas na lista de culpados, na opinião dos portugueses, para que os bebés surjam cada vez mais tarde na vida dos casais.

Em média, as mulheres têm hoje o primeiro filho aos 28,6 anos - mais quase quatro anos do que em 1991, segundo o INE. E a percepção mais frequente é a de que este adiamento pode prejudicar um bom relacionamento entre pais e filhos; 42,8 por cento dizem que é "prejudicial", ou "muito prejudicial".

Ainda assim, imperam outros valores, explica Pedro Vasconcelos. "Os patamares de exigência hoje, para ter um filho, são outros." As pessoas querem dar tudo às crianças, em muitos casos, querem dar tudo o que não tiveram. E vão esperando para ter condições, mesmo que o seu ideal seja o de uma maternidade mais precoce - e ainda é, segundo Sofia Aboim. Quando as condições acontecem, acabam por optar por ter um só filho. Portugal é, aliás, dos países onde os filhos únicos têm mais peso, recorda Anália Torres.

A maioria relaciona-se sobretudo com colegas

A carreira profissional pode não ser o mais importante na vida - antes vem a saúde, em primeiro lugar, depois família (especialmente para as mulheres e para quem vive no Norte) e os amigos (em especial para os mais jovens e para quem vive na Grande Lisboa). Mas quase oito em cada dez portugueses respondem afirmativamente a esta pergunta: "A vida hoje em dia faz com que as pessoas acabem por se relacionar sobretudo com colegas de trabalho/escola?"

Allen Gomes considera este "um dado muito interessante" que remete para uma questão que tem sido objecto de estudo, já neste século, em países como os Estados Unidos, mas, tanto quanto sabe, não em Portugal. "As pessoas passam boa parte do seu tempo no trabalho, almoçam com os colegas, sentados, a conversar, algo que se calhar não fazem à noite, quando chegam a casa, com a família. E acabam por criar relações de maior intimidade do que aquelas que têm com o marido ou com a mulher."

Chegam a ser amorosas, estas cumplicidades nas empresas? "Há a noção de que, se houver sexo, essa relação estoira, a amizade acaba, por isso protege-se a relação - e protege-se a culpa. Fica esta espécie de amor platónico, nem sei como chamar-lhe."

A infidelidade aumentou? Para 80 por cento, é igual

O último inquérito sobre sexualidade, publicado este ano pela Bizâncio (Sexualidades em Portugal), mostrava que 17 por cento das pessoas que viviam em casal havia pelo menos cinco anos confessavam que já tinham sido infiéis. Sofia Aboim, uma das autoras, dúvida do número. "As pessoas não são honestas em relação a estas perguntas, a percentagem será mais elevada."

A sondagem da Intercampus para o PÚBLICO continha algumas questões sobre o tema. Hoje em dia, há mais infidelidade do que havia antigamente? Ou é a mesma coisa, só que sabe-se mais? As respostas fazem sorrir os especialistas. Porque, no essencial, os portugueses respondem afirmativamente a ambas - ainda que ganhe a segunda, com 80 por cento de "votos". Se lhes perguntassem se eles eram infiéis, diriam que não, diz Pedro Vasconcelos. É um clássico: "Em inquéritos deste tipo, as pessoas tendem sempre a dizer: "Isto agora é uma desgraça, há mais infidelidade, as famílias funcionam pior", apesar de, ao mesmo tempo, revelarem algum modernismo (aceitam as uniões de facto, as relações sexuais antes do casamento)."

Uma coisa é certa, diz Gabriela Moita, "não há nenhum fundamento para sustentar que hoje os casais são mais infiéis" - "O que há de diferente, isso sim, é que a não exclusividade passou a ser razão para desfazer um casamento", o que não acontecia há poucas gerações atrás.

O papel que as novas tecnologias têm hoje não tranquilizará muito os que vivem preocupados com a forma como se comportam os/as companheiros/as. Sete em cada dez acham que a Internet e as redes sociais contribuem para que haja mais infidelidade. Utilizadoras ou não de Facebook e afins - a sondagem não permite destrinçar -, a visão geral que as pessoas têm das novas tecnologias não deixa de ser surpreendente. Mais de metade (54,8 por cento) diz que "as novas tecnologias dificultam o relacionamento pessoal". E mesmo a população mais jovem pensa assim, ainda que em menor percentagem. Contudo, a Internet também serve para "encontrar alguém por quem as pessoas se possam apaixonar" (defendem 63,9 por cento dos inquiridos) e "promove encontros sexuais ocasionais" (77,9 por cento). O que concluir? "Mais uma vez, face a estímulos e a coisas relativamente novas, como as redes sociais, as pessoas têm opiniões extremamente ambivalentes", diz Sofia Aboim.