António-Pedro Vasconcelos (n. 1939) sobre Jean-Luc Godard

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A partir do Maio de 68, radicaliza o seu discurso, ganha uma missão política de combate ao inimigo americano onde não me revejo.

"Godard foi um guia. Vivia em Paris quando estreou 'O Acossado' (1959), vi-o várias vezes e passei anos na cinemateca. Ele trouxe um discurso radical contra o 'cinéma à papa' e um culto pelos mestres do cinema americano. Entrou em ruptura com o cinema francês da época, o que foi estimulante. Abre caminho à liberdade das formas, também nós podíamos fazer aquele cinema. A partir do Maio de 68, radicaliza o seu discurso, ganha uma missão política de combate ao inimigo americano onde não me revejo.

Não me afasto de maneira brusca, gosto muito de 'Nome Carmen' (1983) e 'Eu Vos Saúdo, Maria' (1985), que têm uma grande força poética. Mas ao perder as ilusões políticas, recusando o seu poder e retirando-se para a Suíça, deixa de me interessar. Aproxima-se da videoarte e tira ao cinema a função de uma arte narrativa e da representação, numa radicalização do discurso político que, ao falhar, chega a uma radicalização do discurso estético. Isso é fatal, conduz à hegemonia do cinema americano e ao afastamento do público do cinema europeu, dando-lhe o terreno."