Jane Russell, a morena que os homens também preferiram

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No final da década de 1940, Jane Russell era um DR

Há "dois bons motivos para os homens a irem ver" ao cinema, disse Howard Hughes sobre os seios da actriz

A actriz Jane Russell, a morena que contracena com Marilyn Monroe na comédia Os Homens Preferem as Loiras (1953), de Howard Hawks, morreu anteontem, aos 89 anos, na sua casa na Califórnia, de problemas respiratórios. Descoberta por Howard Hughes, Russell estreou-se em 1943 no western A Terra dos Homens Perdidos, um filme menos conhecido pelos seus méritos intrínsecos do que pelos problemas que teve com a censura. Algo de semelhante se poderia dizer, de resto, da carreira da própria Russell, cujo talento dramático foi sempre bastante menos valorizado pelos estúdios do que o generoso busto com que a natureza a dotou.

Nascida em 1921 no Minnesota, a actriz era filha de um oficial do exército, que, após ter sido desmobilizado, viveu no Canadá e depois na Califórnia. A mãe de Jane Russell fora actriz num grupo itinerante, e a filha herdou-lhe a vocação artística. Estudou música e participou em peças de teatro no liceu. Obrigada a arranjar emprego após a morte do pai, em 1937, trabalhou como recepcionista num consultório médico, mas, em 1940, inscreveu-se na escola de representação de Max Reinhardt. Pela mesma altura, uma gravidez indesejada levou-a a fazer um aborto clandestino, o que terá contribuído para que se viesse a tornar, mais tarde, uma empenhada militante dos movimentos pró-vida.

Quando, em 1941, Howard Hughes, um homem dado a fixações, procurava desesperadamente uma actriz de seios volumosos para protagonizar A Terra dos Homens Perdidos, viu fotos de Russell, cujos atributos lhe terão, por assim dizer, enchido as medidas. Ainda assim, decidiu jogar pelo seguro e pediu a engenheiros aeronáuticos que desenhassem um soutien que fizesse sobressair ainda mais o peito da actriz. Russell contaria mais tarde que não chegou a usá-lo e que Hughes nunca deu por isso: "Não iria tirar-me as roupas para confirmar."

Howard Hawks foi convidado para dirigir o filme, mas Hughes despediu-o após duas semanas de rodagem e assumiu ele próprio a direcção. O filme ficou terminado no início de 1941, mas a censura impunha cortes que Hughes se recusou a fazer, e só veio a estrear-se, numa única sala, em 1943. A censura voltou à carga e o filme apenas voltaria a ser exibido em 1946, num cinema de São Francisco cujo dono foi preso por atentado à moral.

Quando alcançou finalmente difusão nacional, no final da década, o filme era já mítico e Russell tinha-se tornado um sex symbol. Circunstâncias que iriam marcar a sua carreira e que impediram que se fizesse justiça ao seu real talento enquanto actriz. Hughes chegou a dizer: "Há dois bons motivos para os homens a irem ver [ao cinema]. E esses são suficientes."

Dotada para a comédia, Russell também não desmerecia em papéis dramáticos, como demonstrou, por exemplo, em Macao (1952), de Joseph von Sternberg, mas acabou por ter poucas oportunidades de mostrar o seu talento. A sua carreira praticamente terminou no fim dos anos 50 e Russell iniciou uma segunda carreira actuando em clubes e interpretando papéis ocasionais no teatro e na televisão.

Complicações resultantes do aborto que fez aos 18 anos impediram-na de ter filhos biológicos e Russell, que foi casada três vezes, adoptou várias crianças e criou a organização World Adoption International Fund. Tornou-se também uma católica devota e, em 2003, definiu-se a si própria, com um toque de ironia, como uma "republicana da ala direita, de vistas curtas, conservadora e cristã intolerante".