Clisteres, pauzinhos e outros vícios na Tinta-da-China

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Colecção Livros Licenciosos é lançada a partir de dia 25.

" - Como? Não é de costas que se recebem clisteres?

- Também pode ser, mas a titi descobriu que os melhores são por diante.

- Volta-te e vais perceber... Assim... Abraça-me e aperta-me, para que a seringa se despeje bem."

Quem poderia imaginar que estes imaginativos jogos com "seringas" teriam saído da cabeça, e da pena, do respeitável filólogo Cândido de Figueiredo, presidente da Academia das Ciências e fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa? A obra - intitulada "Entre Lençóis - episódios inocentes para educação e recreio de pessoas casadoiras" - é uma das três que inauguram a colecção Livros Licenciosos, que a Tinta-da-China lança a partir de dia 25. Esta novela, editada inicialmente no final do século XIX e assinada por "Guilhermino", é acompanhada por "Proezas de Frade" ou "Mistérios de um Confessionário" - obras saídas da colecção do historiador António Ventura, que será responsável pelos textos de apresentação.

"António Ventura é um coleccionador e tem uma biblioteca extraordinária", explica a editora Bárbara Bulhosa. A Tinta-da-China editou, com base precisamente na colecção de Ventura, os postais da República. E foi durante esse trabalho que o historiador falou a Bárbara Bulhosa da sua colecção de "livros licenciosos" de finais do século XIX e princípios do século XX, muitos deles publicados clandestinamente e com os autores, em muitos casos "grandes vultos da cultura portuguesa", a esconderem-se por detrás de pseudónimos.

Rafael Bordalo Pinheiro, por exemplo, é o autor dos deliciosos desenhos que ilustram "O Pauzinho do Matrimónio - Almanaque Perpétuo", obra de diversos autores que não quiseram ser identificados, mas que esclarecem que "o fim do pauzinho não é perverter, mas divertir" e que, sendo "composta para ser lida por homens", chama "as coisas pelo próprio nome, porque, afinal, digam o que quiserem, a porra há-de ser sempre porra, muito embora lhe inventem nomes mais ou menos sonoros."

O terceiro livro que abre a nova colecção da Tinta-da-China, "O Vício em Lisboa (Antigo e Moderno)", é um estudo que se pretende sério sobre a prostituição em Lisboa, editado inicialmente em 1912 por Fernando Schwalbach. Mas, sob a capa de uma suposta objectividade, o relato não esconde o fascínio do autor pelo tema. Enumerando o que se passa em "hospedarias para pernoitar, bordéis, e casas chics", e até em cinemas pornográficos com sexo ao vivo, Schwalbach utiliza os conhecimentos adquiridos durante "doze anos de vida boémia" para mostrar "os podres desse vício". A Tinta-da-China decidiu fazer acompanhar o texto pelo Regulamento Policial das Meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa, emitido pelo Governo Civil de Lisboa em 1865.