Crítica

Recordações de uma revolução

De Arthur Schnitzler Encenação: Luís Miguel Cintra Teatro Nacional D. Maria II, 17 de Fevereiro de 2011 Sala cheia

Se alguns dos últimos espectáculos da Cornucópia pareciam avaliar o mundo, a vida e o teatro com pulsão de balanço testamentário - penso sobretudo em Miserere e Fim de Citação, de 2010, mas podíamos recuar até O Construtor Solness, 2007, ou Os Gigantes da Montanha, 2008, ou A Tempestade, 2009 -, A Cacatua Verde parece, simultaneamente, dar-lhes continuidade e abrir um capítulo mais solar, voltando, não obstante, a um dos seus mais substantivos refrãos: A natureza da revolução (lembro-me sobretudo de A Tragédia de Júlio César, 2007, e de A Cidade, 2010 - mas gostava muito de ter visto A Missão em 1984 ou em 1992).

O texto do austríaco Arthur Schnitzler (1862-1931), contemporâneo de Tchekov, serve este propósito como poucos. E é, de facto, uma pequena obra-prima da dramaturgia europeia, que prefacia muitas das temáticas pirandelianas e muitas das actuais inquietações sobre as efectivas fronteiras entre realidade e ficção. Assim, Schnitzler situa a acção na noite de 13 para 14 de Julho de 1789, a noite da Tomada da Bastilha, momento inaugural de uma nova geometria política mundial. "Falsa peça histórica sobre a Revolução Francesa" ou "peça política sobre a própria História" (conforme citado no programa), este texto coloca uma trupe de teatro, dirigida pelo áspero Prospère (Luís Miguel Cintra), a representar e a relatar as façanhas de foras-da-lei numa taberna de má fama, "A Cacatua Verde", para deleite dos espectadores/clientes da taberna, a nobreza enfarinhada que se delicia com estas picardias.

Enquanto os actores entretêm a nobreza, a História avança, o mundo muda e à taberna cavernosa que ecoa outros redutos (a caverna de Platão, a gruta de Alcandro, a ilha de Próspero, a torre de Segismundo...) vão chegando os relatos da Revolução (bem como o som do troar dos canhões) e a ficção vai-se embrulhando com a vida.

No início, o largo elenco recebe os espectadores, dispostos pelo palco ou sentados à boca de cena, vestidos de preto, austeros, cantando a La Carmagnole, canção ícone da Revolução Francesa. Mas assim como Schnitzler conhecia o desfecho desta Revolução, também nós o conhecemos, bem como ao famigerado final de muitas outras que se lhe sucederam (e, se calhar, até conseguimos imaginar o que vai acontecer às que agora estão nas ruas).

Isto permite substituir a intensidade da farsa - aquela que precisa sempre do próximo momento cómico - pela dilatação do comentário, o que reforça a experiência de aprendizagem vivida pelas personagens. Porque todas (ou quase) vão voltar às ruas. O que significa que, embora abraçando o tom da comédia, o espectáculo parece ir resistindo à sua própria natureza, aumentando o tempo de apropriação da lição em detrimento da satisfação do voraz continuum dramático.

O cenário recupera a estrutura de Miserere (também apresentado no D. Maria II, em Lisboa), tapando o palco com umas altíssimas paredes de madeira, deixando apenas uma pequena porta, à direita, para a entrada das personagens, e colocando a arca de Prospère no local onde habitualmente está o Maestro (e onde esteve "a estátua azul do organista desconhecido" em Miserere), denunciando a orquestração teatral de todo aquele universo de coisas.

Mas se no espectáculo que erguia o Auto da Alma de Gil Vicente o desencanto parecia ser o tom dominante, A Cacatua Verde é de um tom garrido, solar, que vive da alegria dos actores e do prazer de representar (e que extraordinário grupo aqui é reunido, coerente como poucos elencos de vinte e cinco actores vão podendo ser!).

Apesar da leitura próxima e concordante que se faz do texto, este é, naturalmente, atravessado pela linguagem poética que os trabalhos de Cristina Reis tão bem instalam. No final, regressa também uma citação de A Missão de Heiner Muller (que também estava em Fim de Citação): "A revolução é a máscara da morte. A morte é a máscara da revolução."

Escancara-se aí a brecha que foi sendo aberta durante todo o espectáculo e, de repente, quando também nós voltarmos às ruas - porque todos (ou quase) vamos voltar às ruas - também já lá chegaremos diferentes.