Filas em Trípoli para receber o dinheiro

Novas cidades “libertadas” de Zauia e Misurata à espera de um contra-ataque

Manifestante de Zauia celebram junto aos militares renegados
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Manifestante de Zauia celebram junto aos militares renegados Ahmed Jadallah/Reuters

Zauia e Misurata foram hoje “libertadas” pelas populações revoltosas contra Muammar Khadafi, mas ao contrário de Bengasi, de onde as forças leais ao regime se afastaram e onde já emergiram mesmo órgãos políticos, o ambiente é ainda de elevada tensão face a um contra-ataque iminente.

As imagens de Zauia, a apenas 44 quilómetros para oeste de Trípoli – e, por isso, de enorme importância estratégica para o destino da capital –, mostram a cidade, de 200 mil habitantes, já nas mãos das forças anti-Khadafi, depois dos combates dos últimos dias que causaram a morte a 50 pessoas. Esquadras de polícia e edifícios governamentais foram incendiados e nas paredes só se vêem escritos a exigir a queda do líder líbio e uma “Líbia livre”.

Milhares de pessoas nas ruas do centro, totalmente barricado e sob a vigilância de atiradores nos telhados, festejavam em redor de alguns tanques e veículos com armas antiaéreas que tinham sido capturados às tropas e milícias de Khadafi. A bandeira vermelha, verde e preta (da era pré-Khadafi) estava içada no topo de muitos edifícios e era empunhada nas ruas por centenas de mãos.

Em redor da cidade, porém, dezenas de tanques – entre 30 a 40, adiantou a CNN – aguardam e na estrada de Trípoli para Zauia estavam montados pelo menos seis postos de controlo militares fiéis ao regime, os soldados já de caras tapadas com cachecóis. “Vai ser uma batalha terrível. Esperamos um ataque a qualquer momento”, narrava um habitante de Zauia ao canal Al-Jazira.

O mesmo cenário repetia-se em Misurata, do outro lado de Trípoli, a uns 200 quilómetros da capital. Dada como “libertada” logo pela manhã, a cidade estava em suspenso com as notícias de que uma enorme coluna militar pró-Khadafi, com apoio aéreo, se encaminhava da região. “A cidade não tem meios de se defender, vai ser um verdadeiro massacre”, estimou o renegado ministro líbio do Interior, Abdel Fattah Younes al-Abidi, em declarações ao canal Al-Arabiyah.

Filho de Khadafi nega repressão

Insistindo em passar a imagem de que a revolta que o regime enfrenta há semana e meia não é significativa e que os relatos de bombardeamentos sobre os manifestantes são falsos, o filho do líder líbio Saif el-Islam – tido como sucessor natural de Khadafi – afirmou de novo, numa entrevista ao canal ABC, que “todo o Sul está calmo, o Oeste está calmo, o meio do país está calmo, até parte do Leste está calma”. “A calma reina na Líbia e os militares não atacaram nenhum civil. Há um fosso enorme entre a realidade e as informações que são dadas pelos media”, asseverou.

E passou a descrever a classe política e diplomática que desertou do regime em catadupa nos últimos dias como “hipócrita”. “Muitos deles pensaram que o barco estava a afundar e que era melhor saltarem borda fora, para sobreviverem, trabalharem com um novo regime. É só um truque simples, um truque muito velho”.

O regime líbio, de resto, continua a desdobrar-se em esforços para conquistar o apoio popular e Trípoli dava disso testemunho neste domingo, com centenas de líbios em fila à porta dos bancos para receberem os 500 dinares (quase 290 euros) prometidos sexta-feira por Khadafi a cada família para “ajudar a cobrir o aumento dos preços dos alimentos”. Mas à parte estas filas – também para comprar pão, combustível, medicamentos – a capital voltou a revelar-se deserta de gente, a maior parte das lojas fechadas, e repleta de tanques e soldados. “Trípoli está isolada, não entra nem sai ninguém”, era descrito no Tiwtter pelo Movimento de jovens Revolucionários 17 de Fevereiro.

Contrastando, Bengasi, onde a força do regime de Khadafi não é sentida já há uma semana, é uma cidade a reorganizar-se e a enfrentar novos desafios, agora que já terminaram os combates. “Os abastecimentos de comida não estão a chegar aqui. A cidade tem reservas para dois meses. As famílias mais ricas, homens de negócios, estão a alimentar milhares de pessoas, imigrantes africanos e do sul da Ásia, que ainda aguardam ser retirados do país. E aos jornalistas ninguém aceita dinheiro”, relatava o jornalista da CNN Ben Wedeman, dos primeiros repórteres de televisão ocidentais a entrar na Líbia.

Além de alimentos, Bengasi precisa também de assistência médica. “São necessários cirurgiões e especialistas ortopédicos nos hospitais, e medicamentos para as pessoas que sofrem de doenças crónicas”, alertou o porta-voz da Cruz Vermelha na cidade, Simon Brooks. A mesma fonte avançou que morreram 256 pessoas e outras mais de duas mil ficaram feridas nos confrontos em Bengasi.