União Europeia activou meios para acelerar retirada de europeus

A União Europeia decidiu desencadear os mecanismos comunitários de gestão de crises para acelerar o processo de retirada dos seus cidadãos da Tunísia, estando a ponderar recorrer, se necessário, a meios militares para esse fim.

Em concreto, a Comissão Europeia activou os procedimentos destinados a facilitar a coordenação dos meios à disposição dos estados para maximizar as possibilidades de transporte. Em paralelo, Bruxelas está a procurar apoios navais na zona para o processo de retirada, e obteve já a colaboração de um navio chinês que disponibilizou 500 lugares para europeus. Alemanha, Reino Unido e Grécia já enviaram fragatas e helicópteros para as proximidades da Líbia.

Bruxelas calcula que "até cinco mil europeus" terão sido retirados nos últimos dias, estimando que "cinco a seis mil" ainda estarão na Líbia, dos quais mil em Bengasi.

Oficialmente, os mecanismos de gestão de crises que estão a ser activados não incluem qualquer tipo de operação militar, mas apenas o uso de meios militares, se necessário, para apoiar processos de retirada e encaminhamento de ajuda humanitária. Um responsável europeu reconheceu, no entanto, que essa eventualidade faz parte dos "planos de contingência" para permitir enfrentar, se necessário, qualquer tipo de evolução no terreno. "É uma das possibilidades em que estamos a trabalhar", afirmou sob anonimato, embora frisando que "é uma possibilidade complexa e difícil".

Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da NATO, deixou claro que a Aliança não está a preparar qualquer operação desse tipo. "A NATO não tem a intenção de intervir na Líbia", afirmou durante uma deslocação a Kiev. Rasmussen, como os europeus, sublinhou ainda que qualquer operação militar precisa de "um mandato claro das Nações Unidas".

A Itália aproveitou, por seu lado, uma reunião regular dos ministros da Administração Interna para apelar aos parceiros para assumirem desde já o compromisso de acolherem no seu território uma parte dos potenciais refugiados do Norte de África. De acordo com um diplomata europeu, Roberto Maroni, o ministro italiano, assumiu um discurso alarmista sobre o risco de invasão das suas costas pelos 1,5 a dois milhões de refugiados estrangeiros na Líbia, sobretudo da África subsariana, Bangladesh ou Sri Lanka. Os outros países recusaram assumir qualquer compromisso, considerando que uma discussão deste tipo equivale a convidar os candidatos à imigração a procurarem os países europeus.

Bruxelas e a generalidade dos ministros consideram inútil especular sobre o número de possíveis imigrantes, sublinhando que além de 5500 tunisinos que acostaram recentemente na ilha italiana de Lampedusa, não foram detectados outros fluxos migratórios, incluindo da Líbia.

"Não devemos pintar o diabo na parede antes de ele aparecer", defendeu o ministro húngaro da Administração Interna que presidiu à reunião, Sandor Pinter. Segundo afirmou, os Vinte e Sete estão a ponderar "todas as possibilidades de evitar a eventualidade de uma vaga de refugiados chegar às costas" europeias. É por isso, explicou, que os europeus estão a concentrar os esforços nas fronteiras entre a Líbia e a Tunísia e o Egipto para assegurar que "são criadas as condições adequadas no local para acolher os refugiados para que não tenham de vir para a UE". Desta forma, frisou, "estamos confiantes de que não teremos de enfrentar uma vaga significativa de refugiados".

A Organização Internacional das Migrações informou ontem que mais de 30 mil pessoas, essencialmente tunisinos e egípcios, fugiram da Líbia desde segunda-feira. "As saídas aumentam todos os dias", disse à AFP um porta-voz. O fluxo aumentou depois de, terça-feira, Muammar Khadafi ter prometido bater-se "até à última gota de sangue".

Uma das principais portas de saída está a ser o posto fronteiriço de Ras Ajdir, na fronteira com a Tunísia, onde não há já forças do regime e onde, segundo um coronel da Protecção Civil tunisina, chegaram cerca de 20 mil refugiados, principalmente tunisinos, egípcios, chineses e líbios.Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas