Instabilidade ameaça mais de um quarto do petróleo mundial

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Pista do aeroporto de Bengasi ficou inutilizada durante os confrontos GORAN TOMASEVIC/REUTERS

Por cada dez dólares de subida nos preços do crude, perde-se meio ponto percentual do PIB no espaço de dois anos, avisam os economistas

Mais de um quarto da produção mundial de petróleo bruto está hoje em perigo devido às tensões políticas que assolam o Norte de África e o Médio Oriente, que já provocaram mudanças de regime na Tunísia e no Egipto e estão a colocar a Líbia à beira de uma guerra civil. O mapa dos conflitos e da instabilidade política não engana: dos 11 países que estão actualmente nessa situação, oito são produtores de crude, ficando apenas de fora a Jordânia, o Bahrein e Marrocos (ver infografia).

Não admira que os mercados internacionais andem agitados com a instabilidade no Médio Oriente e no Norte de África. Os investidores no mercado do petróleo estão a reagir à Líbia (que significa apenas dois por cento da produção mundial), mas também já estão a prever os efeitos do mesmo cenário de instabilidade noutros países importantes para a produção mundial, como a Arábia Saudita, o Irão ou a Argélia.

Os valores do crude nos mercados internacionais continuaram ontem a subir, com o barril de Brent a chegar aos 120 dólares em Londres, embora tenha ficado depois pelos 114 dólares, mas ainda assim acima dos níveis registados na véspera (110 dólares).

O perigo que esta subida representa já está a deixar os economistas de "antenas no ar", uma vez que pode significar o abrandamento da recuperação económica mundial. O Economic Outlook Group, por exemplo, divulgou esta semana uma revisão em baixa do crescimento económico nos Estados Unidos, de 3,5 por cento para 3,2 por cento em 2011.

Em termos gerais, por cada 10 dólares de subida nos custos do petróleo, perde-se meio ponto percentual do produto interno bruto no espaço de dois anos. "A data destes acontecimentos não poderia ser pior. Acabámos de sair de uma crise financeira devastadora e a recuperação começou há menos de dois anos", alerta o economista principal do Economic Outlook Group, Bernard Baumohl, numa nota de research.

Por outro lado, a Líbia é conhecida pela alta qualidade das suas reservas, o que aumenta a importância do país para os mercados. Os analistas estimam que dos cerca de 1,6 milhões de barris diários ali produzidos, cerca de um milhão deixaram de ser exportados devido a paragens ou abrandamento nas actividade de vários grupos petrolíferos, como o grupo francês Total, a espanhola Repsol e os alemães da BASF.

Conhecido como sweet crude oil, o petróleo bruto que sai da Líbia é utilizado principalmente para a produção de gasóleo, mais popular do que a gasolina na Europa. É também mais fácil de refinar do que o chamado sore crude, que tem mais conteúdos sulfúricos na sua composição.

"Isto irá forçar todas as refinarias de sweet crude a entrarem numa guerra de preços", alertou ontem Lawrence J. Goldstein, um director da Energy Policy Research Foundation - uma organização em parte financiada pela indústria petrolífera - citado pela Associated Press.

Em Portugal, metade dos crudes processados pela Galp Energia em 2009 corresponderam a crudes leves, ou seja, são de melhor qualidade porque têm mais fácil refinação. No entanto, as duas refinarias da petrolífera portuguesa também têm capacidade de transformar petróleo bruto mais pesado, como o do Brasil.

Rússia lidera

A Arábia Saudita, que já se disponibilizou para compensar as faltas, é um dos produtores que mais preocupações despertam: os 9713 milhares de barris produzidos diariamente pelo reino equivalem a 12 por cento da produção mundial.

Feitas as contas, o regime saudita é ultrapassado apenas pela Rússia (que passou a liderar a tabela em 2009). Outro produtor de peso é o Irão, de onde sai quase seis por cento do "ouro negro" a nível mundial: no total, são 4216 milhares de barris por dia que poderiam ficar arredados da economia mundial.

Mais importante do que a produção é, todavia, o peso destes países nas reservas provadas de petróleo, quase 43 por cento do total em todo o mundo. Neste caso, o regime saudita tem nas mãos praticamente 20 por cento das reservas, enquanto no Irão se situam mais de 10 por cento. A Líbia, que é o terceiro maior produtor africano mas que no continente é aquele que tem maior quantidade de reservas provadas, equivale, por seu turno, a três por cento das reservas mundiais.