Os pobres da Índia saíram à rua porque já "não conseguem alimentar a família"

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"O Governo esqueceu os pobres. Não faz senão ajudar os ricos" PARIVARTAN SHARMA/REUTERS

O Governo indiano tem sido incapaz de controlar a inflação. Os sindicatos do país estão a aproveitar o vazio dos partidos políticos para se fortalecerem novamente

Há anos que não se via uma manifestação assim. Cerca de cem mil pessoas encheram ontem as ruas de Nova Deli para protestar contra o aumento dos preços dos alimentos e o desemprego. O Governo indiano tem mais um gigantesco problema a juntar aos escândalos de corrupção que vão estalando no país.

A razão pela qual o agricultor Rishi Pal veio do Punjab para denunciar o executivo resume-se a isto: "Os pobres não estão a conseguir alimentar as suas famílias", disse à AFP.

A inflação de dois dígitos no preço dos produtos alimentares - 18 por cento em Dezembro passado, mas, apesar de tudo, a descer desde então - está a atingir muitos, e sobretudo os que menos têm. Isto num país onde, segundo o Banco Mundial, 41 por cento dos mais de mil milhões de habitantes vivem abaixo do nível de pobreza.

As ruas da capital encheram-se ontem de bandeiras encarnadas, trazidas pelos apoiantes de duas confederações de sindicatos, com palavras de ordem e exigência de medidas imediatas. Foi o aumento dos preços no mercado global que provocou danos na economia indiana. Mesmo que o Governo não tenha mão nisso, o primeiro-ministro foi chamado a responder.

"Viemos aqui para que as nossas vozes se ouçam dentro da câmara [do Parlamento] e possam ver a dor que o cidadão comum sofre", comentou à Reuters Akhil Samantray, vindo de Orissa (no Leste e um dos estados mais pobres da Índia). "Recebemos 100-125 rupias [1,6 a 2 euros] por dia. Como vamos sobreviver com isto se os preços estão tão altos?", lamenta-se Kailash Sain, vindo do Rajastão (Ocidente).

Jagdeesh Thakur é presidente da associação dos professores do ensino secundário no Uttar Pradesh (Norte), e tem a lição bem sabida quando acusa o Governo de ir "na má direcção", cita a AFP. "Temos necessidade de controlar a inflação, deter o desemprego e as privatizações". E queixa-se ainda: "O Governo esqueceu os pobres. Não faz senão ajudar os ricos".

O descontentamento com o executivo é tal que a manifestação incluiu membros da ala mais à esquerda do próprio Congresso, no poder, reflectindo o mal-estar criado com o aumento dos preços, refere a Reuters.

A agência adianta que este protesto foi também uma demonstração de força por parte dos sindicatos do comércio, que, depois de duas décadas de perda de influência (desde a liberalização económica), procuram agora mais apoios.

"Os sindicatos têm estado muito fracos na era pós-reformas, mas com este assunto vão conseguir um apoio alargado", comentou o analista político Mahesh Ranagarajan, também professor na Universidade de Deli. "Os sindicatos estão a preencher o vazio que não foi tomado por nenhum partido político neste momento".

O primeiro-ministro, Manmohan Singh, está ciente da crise que tem nas mãos. Depois de anos a privilegiar o crescimento económico em detrimento da inflação, lançou um forte aviso no início do mês, dizendo que a inflação alta coloca uma "ameaça séria" ao crescimento da terceira economia asiática. Recomendou que as redes de abastecimento agrícola se organizem com as redes de retalhistas.

O aumento dos preços foi o rastilho para as revoltas no Médio Oriente e Norte de África. Na Índia, não se trata de derrubar um regime autocrático. Mas isto também não significa que a democracia indiana esteja livre de dificuldades. A corrupção também esteve ontem na boca dos manifestantes.

Na véspera, Singh aceitou a criação de uma comissão parlamentar para avaliar a venda fraudulenta de licenças de telecomunicações móveis, em 2008, que desviou dos cofres do Estado mais de 29 mil milhões de euros.

Este foi um dos maiores escândalos a atingir o Congresso, e apesar de o primeiro-ministro poder não estar directamente envolvido, vem pelo menos aumentar a percepção de que o chefe do executivo tem pouca mão nos seus ministros.