Crítica

As flores e os seus segredos

Gardenia esteve no CCB, em Lisboa, no passado fim de semana. Vanessa van Durme e as suas amigas, sob orientação de Alain Platel e Franck van Laecke, mostraram-se sem pudor e com imensa generosidade.

É muito fácil apaixonarmo-nos por Lilly Fuck-me-Silly, que foi penetrada simultaneamente por 85 monges, ou por Shirley Nightingale, que só não conseguiu resistir ao exército russo. E é ainda mais difícil ignorar as capacidades de Greta von Saxon-Coburg, que consegue alojar 15 dildos e o nosso cartão Visa na sua vagina. E como ceder aos avanços de Birgitta Garbo, "de cona aberta 24 horas, sete dias por semana", ou aos de Gina del Rio, "rainha dos broches"? É assim que nos são apresentadas, como se fossem ficção.


Mais difícil é passarmos do registo da comédia e da derrisão para um mais ferido, mais doloroso. Mais difícil é olhar para aquelas figuras no palco, aquelas coisas, e vermos que ali estão pessoas, com histórias de vida tão extremas, capazes de misturar ficção e realidade para gozo dos que as vêem, assim despidas, expostas, assim tão cruas.

Gardenia é um meticuloso exercício de esconde-esconde no qual nove intérpretes - sendo sete deles travestis ou transexuais - nos desafiam a um outro olhar.

Um olhar que seja capaz de relacionar a ausência de artifícios revelada na primeira extraordinária sequência - onde se transformam de homem em mulher (e vice-versa) posando como se assumissem estarem a ser observadas -, com a produção que mais tarde aparecerá, onde investem numa paleta bizarra de clones de figuras óbvias como Liza, Tina, Marlene ou Marilyn. Raparigas de nome próprio, porque próximas, como se querem próximas as que se mostram, por vezes perdidas, como se não pertencessem ali, naquele cenário lynchiano, de velhos tacos axadrezados.

A peça obedece a um princípio de organização social simples que se liberta de uma féerie que o tornaria banal: não há efeitos, há pessoas. Sob orientação do coreógrafo Alain Platel e o encenador Frank van Laecke, Gardenia junta histórias de vida, desmonta o lado feérico e arduamente glamoroso de quem não tem mais nada para mostrar que não seja um corpo que guarda todas as marcas, todas as memórias. Sem grande aparato cénico a não ser a força com que se mostram, fazendo dos vincos da pele os argumentos imbatíveis para uma coreografia que os coloca no palco como se num mostruário, de frente, prontas a serem massacradas com o olhar, o julgamento e, depois, o convite à partilha. É esta aparente aridez, materialização da solidão que lhes atravessa a vida e que gerem de modo a que a piedade nunca se apodere de quem as vê, que seduz.

Vanessa é aqui o fio condutor de uma singular aventura onde se desfi(l)am canções - como Forever Young, dos Alphaville, ou Cucurrucucu Paloma, de Caetano Veloso - como se fossem elementos identitários comuns. Esta hipótese de aproximação, gerida com uma delicadeza sedutora e uma limpeza visual ímpares (recorde-se a ideia de construção de um ambiente usando o Bolero de Ravel), faz da peça um universo em si mesmo, ficcionado, por certo, mas tão ou ainda mais genuíno ao gritar (por) uma legitimação. Um universo que integra os que se mostram e os que vêem. Estes últimos, expostos num voyeurismo depressa transformado em cumplicidade, os outros podendo iludir a mágoa em farsa e a solidão em vibrantes e lúcidas tiradas, desmontando sempre, primeiro que todos, a piada homofóbica, o aparte de escárnio, a graça banal.