Câmara da Vidigueira corta água a acampamento cigano

O European Roma Rights Centre (ERRC), uma organização não governamental sediada em Budapeste (Hungria), enviou uma carta ao município da Vidigueira, expressando a sua preocupação pelas precárias condições em que vivem 67 pessoas de origem cigana.

A carta foi enviada a 8 de Fevereiro, depois de as 16 famílias terem dito à ERRC que as autoridades locais "cortaram a água das 12 torneiras" que abastecem aquela povoação, instalada nas traseiras das ruínas do castelo da Vidigueira "sem electricidade, rede de esgotos, remoção de lixo ou instalações sanitárias".

O presidente da Câmara da Vidigueira, Manuel Narra (independente eleito pela CDU), foi peremptório quando o PÚBLICO lhe pediu que comentasse a carta. "No meu concelho não há ciganos, há portugueses, [a quem] prestamos apoio para minorar as suas dificuldades [e] a quem exigimos igualmente deveres." O autarca confirmou ter ordenado o corte da água, alegando que a comunidade não a pagava.

Sobre as condições de habitabilidade Manuel Narra conta que visitou o local, acompanhado de técnicos da Segurança Social e do centro de saúde. "Detectámos condições que não nos agradaram, [sobretudo por o espaço ser partilhado com cães, gatos e cavalos, o que] é proibido face aos regulamentos municipais."

A resposta imediata foi uma profunda limpeza e, no futuro, vai ser posto em prática um programa que classifica de "inovador", um parque estágio, dotado de água, luz, saneamento básico e habitações como as que existem nos parques de campismo. A comunidade será ali alojada e acompanhada "de manhã à noite" por técnicos municipais da área social e psicólogos. Serão ministrados cursos que os habilitem a uma posterior integração.

A ideia é acabar com os guetos dos bairros construídos só para famílias ciganas. São programas que poderão durar entre os dez e 15 anos, frisa o autarca.

O investimento maior será feito nas crianças. Depois da saída das aulas haverá apoio ao estudo em casa. "Entendemos a escola como um espaço de formação e não como o emprego dos pais", refere Manuel Narra. Ou seja: a atribuição do rendimento social de inserção, que todas as famílias ciganas auferem, impõe que as crianças frequentem a escola, e desta forma fica garantido aos pais meios de subsistência. Na resposta que enviou à ERRC, o autarca da Vidigueira é telegráfico: "As vossas preocupações são as nossas preocupações."